sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Extra



Uma placa dizia:
acredita-se em ET
tomei um susto
êta
eita
edição extra
extra-tudo
extra-Terra
extra-terra
flutuando, era 
um pensamento fujão
androide
com um traço 
estreito
assim como esse
poemeto. 






Desenho no PowerPoint

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nossa turma do Chaves











Escola Nossa Senhora do Carmo. Na sexta série, aos onze anos de idade, eu comecei a me soltar, a me envolver mais com música, dança e teatro. Foi na escola que a timidez começou a ser vencida, com o auxílio da nova morada, no Alto Belo Horizonte. No bairro, o convívio com uma nova turma.

A cidade acabara de ganhar o sinal do SBT, com algumas vinhetas ainda com a marca TVS. Um dos programas era a minha verdadeira febre: Chaves. A criação do mexicano Roberto Bolaños foi decisiva para a minha sociabilidade. Eu me divertia quando assistia aos episódios de toda a turma criada por Bolaños e os personagens vividos por ele, além de Chaves, como Chapolin Colorado e Doutor Chapatin. Munida desses elementos e com a cobertura da escola, comecei a escrever uma peça numa caderneta.

O ano era 1988. Veio o Dia das Mães, uma data comemorativa que ganhava ainda mais importância na escola. Nessa época, Dona Hortência, mãe de Tia Carmelita, era sempre mencionada, com uma honra sutil e religiosa.

Construí um texto, inspirada na turma do Chaves, adaptando um pouco os diálogos para a nossa realidade cajazeirense, paraibana, nordestina, brasileira, latino-americana. Eu achava que ia ser somente uma apresentação teatral, nada mais. Não foi.

Começamos os ensaios. Tive que aprender a ser paciente com meus colegas: os que faltavam, os que eram muito mais tímidos, os que bagunçavam, os que tinham dificuldade em decorar o texto ou a marcação. Fui diretora da peça, pois ninguém queria assumir a tarefa.

O figurino era coletivo. Cada um organizava o seu e ainda auxiliava na indumentária dos outros. Todos sabiam que era uma atividade que não valia nota, ponto ou qualquer outra bonificação nas aulas. O que valia era nosso amor pela escola e nossa vontade de homenagear nossas mães.

Chegou, então, nossa vez de apresentar no pátio. No roteiro das apresentações, o comando do microfone era sempre de Valéria Guedes, que se sentia à vontade com o público, já que apresentava o programa Casa de Brinquedos, na Difusora. Eu mesma era ouvinte assídua e me escalei para participar numa das tardes.

Não pensei num título para a peça. Fomos anunciados assim: “Agora, com vocês, a peça do Chaves!” Pensei em tantos detalhes, menos no título. Éramos ainda muito crianças, cheios de fantasia. Eu, Tito, Glayzianne, Regilânia, Érika, Andreicksa, Henry, Gerlúcio, Tárik, Fabiano e Enilson. Révia e Sônia auxiliaram nos bastidores.

O sucesso foi tão grande que fomos convidados para apresentar no Colégio Diocesano. Era uma gincana entre as turmas. Marcya Rejane Trajano era a articuladora, como integrante da produção do evento. Nosso camarim era o sótão do auditório. Três anos depois, eu era aluna daquele colégio, mas terminantemente proibida de entrar no sótão para relembrar o acontecido.

Mais tarde, comecei a analisar a criação de Bolaños como algo bastante presente em toda a cultura latina. A vila, onde se passam os episódios, é o palco das diferenças sociais. Seu Madruga, o desempregado, malandro, caloteiro. Chiquinha, carente de um olhar materno, propensa ao atrapalho e à mentira. Dona Clotilde, a Bruxa do 71, desfrutando da terceira idade e sempre à espera de um grande amor. Quico, o garoto esnobe, mimado, que humilha os mais pobres. Chaves, o órfão, abandonado, marginalizado na escola e em qualquer outro lugar. Seu Barriga, proprietário das casas da vila, mas sofredor do preconceito por ser obeso. Professor Girafales e Dona Florinda, o casal que poderia dar certo.

Fico pensando se tudo isso de Bolanõs é mesmo um besteirol com dublagem tosca ou o nosso retrato de colonizados e historicamente ainda buscando a identidade plena. Nossa latinidade é também nossa lembrança de uma coleção de conflitos, um calhamaço de sorrisos, um punhado de gritos, um belo caminhão de povos. Essa é a riqueza. A vila pode ser, na realidade, em qualquer lugar do mundo.

E que alegria fazer teatro na escola! Por que não guardei minhas cadernetas? De vez em quando, eu me pergunto por que não conservei os rabiscos da peça e outros tantos rabiscos dessa fase. Seria o meu tesouro. Pode ser até que eu tenha rasgado de propósito. Ainda estou analisando. Ainda estou tentando descobrir, como diria Chaves, se foi sem querer, querendo. 






terça-feira, 6 de maio de 2014

Senhores passageiros














































Minha vida melhorou muito, depois que eu comprei um varal portátil. Varanda, banheiro, área de serviço. Posso dominar minha vontade dentro da necessidade doméstica. As coisas portáteis são o retrato da modernidade ou a condensação de uma pressa inegável. Consumimos tempo, coisas, beijos e abraços. Economizamos tudo isso também.

Minha viagem a Cajazeiras em janeiro contou com gratas surpresas. O que minha família faz por mim nem é surpresa, mas eu espero com aquela criancice de quem espera um presente.

Por outro lado, não encontrei algumas pessoas queridas na cidade. Logo se vê que meu coração não é portátil. Meu padrinho João de Deus não estava em sua casa ou mesmo numa viagem a João Pessoa, passando uns dias. No meu ouvido, sempre aquela melodia, da Ave Maria, de Gounod. Agora sim, faz ainda mais sentido e saudade.

Dona Zefinha não estava mais na sala da sua casa, me esperando para uma boa conversa. Zazá também não estava mais na loja, para brindar meu dia com sua fineza habitual. No sábado da feira livre, não encontrei Pedro Revoltoso, com seu carrinho para vender rifa e falar do futuro do Atlético. Na despedida de Dona Nancy, eu, realmente, não tive coragem de comparecer.

Minha viagem foi boa, mas não posso esconder que também foi um alinhavo de achados e perdidos. No município, achei que o aeroporto estivesse bem encaminhado. Seria meu lugar portátil daqui a alguns anos. O avião pousaria na região do Sítio Santo Onofre. Pronto. Com quinze ou vinte minutos, eu estaria na Rua Sousa Assis, pedindo bênção a meu pai e minha mãe.

Não sei se meu sonho portátil foi quase desmoronado. Posso empregar o gerúndio: está sendo. É a construção verbal mais tolerante. Posso dizer que o aeroporto era ou ainda vai ser. Foi ou teria sido. Eita! Nossa língua é bela e cheia de armadilhas. Nossa língua somos nós mesmos.  

E o que será do Sítio Santo Onofre? Um pasto para gado portátil. Um criatório de minhocas, um silêncio subterrâneo. Elas estavam esperando os pousos das aeronaves. E se esconderiam ainda mais, preparando a terra para a expansão do empreendimento. Mas, se não há realização, é claro que não há expansão.

As galinhas dos sítios vizinhos cacarejariam com aquele barulho de motor gigante. Continuariam sem entender muitos detalhes, como a maioria das galinhas. A cidade inteira faria sua adesão a escalas e conexões, pavores e praticidades, pacotes e promoções.

Minha opção continua sendo os aeroportos de Juazeiro do Norte, João Pessoa, Campina Grande, Recife, Fortaleza... Em seguida, um longo asfalto até o Centro de Cajazeiras. Por enquanto, sinto falta de tanta gente e procuro aquela voz exemplar de aeroporto: “Atenção, senhores passageiros...”

Aquela voz ainda está ecoando pelas juremas, em busca de uma benzedeira, um deputado portátil, um senador, um novo Chatô. Aquela voz viria na fenda misteriosa de alguma oiticica. Aquela voz viria no sabor entranhado da cajarana. Aquela voz viria com o mormaço do açude. Aquela voz viria. Aquela voz. 







sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Um doce de presente










        Certo mês de agosto, aproveitei a data de aniversário de Dona Zefinha e fiz um doce que ela tanto desejava. Ouvi dizer, por algum lugar, que receita de doce é uma ciência exata. Não se pode acrescentar ou diminuir por conta própria. Seguir o olhômetro ou adivinhar. Receita de doce é quase gramatical, ou seja, segue algumas regras. Sim, possui exceções, mas devemos primeiro entender o que é ordenado. Assim eu fiz um doce com morango. 

        Aproveitei o tom exótico do morango nos ares sertanejos para fazer a alegria da minha amiga leitora exigente. Ela admirava temas exóticos, objetos exóticos, embora cultivasse sempre os clássicos. O doce era simples, mas elaborado com certa delicadeza. Consistia em esquentar uma medida de leite condensado, uma lata de 395 gramas, com duas colheres de margarina ou manteiga sem sal. Eis a parte extremamente exata, como as contas do rosário de Zefinha Ricarte, rezadas todas as noites. A outra parte da receita é intuitiva, quando se está mexendo o material na panela e se sabe o momento de dar o ponto.

         Esse negócio de ponto no doce não é somente equilátero. Tem uma porção de emotividade. Assim era o tratamento da aniversariante comigo: um pouco de razão e outro tanto de emoção. Com meus textos, era uma crítica ferrenha. Se não gostasse, dizia, na primeira ocasião em que me encontrasse. Perguntava de onde eu havia tirado aquele personagem ou por que eu havia construído tal ideia. Apesar disso, sempre respeitou as minhas inspirações ou teorias. 

        Mas, vamos falar da receita. Deixei o preparado de leite condensado esfriar. Lavei cuidadosamente os morangos, tirei o talinho. Fiz as bolas com o doce. Inseri o morango. Preferi não polvilhar com açúcar granulado. Salpiquei um pouco de açúcar refinado. Pronto. Rendimento: trinta unidades. 

        Saboreamos o presente, que durou alguns dias na geladeira da casa dela. Aquela casa, em frente à Matriz de Nossa Senhora de Fátima. Lugar melhor não havia para ela. Zefinha era devota do universo divinizado. Recebi inúmeros conselhos, orações, palavras de fé e carinho. Santa Terezinha era sua guardiã oficial. Depois de Jesus, é claro. Depois também da Virgem Maria. São José tinha um lugar sagrado. Ah, e São Francisco de Assis, voto exemplar de humildade. 

        Fiquei sabendo que uma foto que tirei ao lado dela estava guardada no oratório da casa. Fiquei muda, por um bom tempo, pensando. Pensei. Pensei em como é importante uma pessoa contar com um lugar no oratório de outra pessoa. Por um instante, me senti rodeada de anjos e santos, trombetas acionando todas as notas musicais, o perfume da manhã nascendo. Senti minha cabeça imantada de energia. Em seguida, numa fração de milésimos de segundos, voltei ao meu estadinho normal, super normal, de ser humano imperfeito e repleto de contas a acertar com Deus.   

        Esse é meu mundo de lembranças. Não fui aluna de Zefinha. Não sou fluente em datilografia. Não fui obediente ao terço diário, como ela tanto me pedia. Mas, estou aqui. Estou aqui, feliz por ter merecido entrar no seu rico e seleto oratório. Amém.  


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...