terça-feira, 31 de maio de 2011

Sim, eu como banana





Sempre soube que a fruta, rica em potássio, é fundamental para a perfeita oxigenação do cérebro. Portanto, ativa a memória, faz bem lembrar e determina as construções dos nossos níveis de percepção. Foi sempre por isso que achei importante comer banana. Aprendi e degluti, tudo ao mesmo tempo.

Entre uma refeição e outra do dia, por exemplo, a fruta resolve o problema da saciedade e, ainda, promove um certo conforto estético. A pele fica uma beleza de elasticidade.

Até aqui, tudo bem, querido leitor, querida leitora, estamos embananados. A danada é boa para se pensar. De tanto ser assim, acabou me fazendo lembrar o que eu não gostaria muito.

Estávamos eu e minhas ansiedades ambulantes pela avenida Engenheiro Carlos Pires de Sá. Exatamente era a vez da banana, umas duas horas antes do almoço. Vi uma banca de frutas, legumes, verduras e outras coisas. Aquilo foi me tirando do transe urbano e me transportando para uma outra cena hipnótica. Eu só queria uma banana. Uma, somente. 

Olhei outras frutas. Vi uma maçã, pobrezinha, tão feinha, que desisti. Poderia ser uma graviola gorda, mas o sacrifício de descascar, ali, não daria tempo. A laranja também me impunha tal esforço. Meu entrave era o tempo que, a banana, tranquilamente, resolveria. Fui.

O dono da banca estava com aquele traje suado característico: uma camisa branca de algodão fininha e desabotoada nas três primeiras casas. Exalando um som seco e árido, como se nunca tivesse sido abraçado na sua existência, perguntou o que eu queria. Eu demorei a responder, de tão assustada com ele, de repente. Em poucos segundos, entretanto, o olho dele mirou o meu: uma coisa esverdeada, ensandecida pelo calor. Era uma situação de cansaço, eu quero acreditar.

O homem disfarçava que disfarçava a timidez, tentando arrumar uns jerimuns que se arredondavam pela mesa. Pegou uns caixotes e começou a empilhá-los, batendo, batendo, numa velocidade que me estarrecia. Eu deveria ter me tocado.

Tomei fôlego e perguntei o preço da dúzia. Ele disse que custava dois reais. Naquela manhã, eu ainda ia passar num punhado de lugares. Como era que eu ia, desfilando, com aquele saco? Não daria certo. Uma Carmem Miranda esvanecida, sem grau de reação. 

Criei coragem do nada, aliás, deve ter brotado dos tomates ou de pequenas coroas de abacaxi. Enquanto eu avaliava toda a conjuntura bananal, ele mordiscava um pedaço de algo parecidíssimo com repolho. Enquanto eu o observava com um instinto cinematográfico, que nem suspeitava entrar nesta crônica, ele resmungava em dimensões tão particulares, mas tão particulares, que só mesmo o bigode dele conseguia ouvir.

Eu disse: “Mas eu só quero uma...”

Armado de uma expressão de orangotango esquizofrênico que jamais soube o que seria um beijo, ele começou a arrumar uma pilha de beterrabas. Disse que eu podia levar. Mentira. Pense numa concessão absurda. Aquilo não era ele. Era, talvez, o Pequeno Polegar, no ombro, dizendo que ele deixasse de ser sovina. O anjo da guarda, coitado, exausto, também soprava qualquer mensagem de equilíbrio.

Descasquei a banana pacientemente, parecendo que estava despindo minha consciência, lugarzinho tortuoso. Na primeira dentada, vi quando ele falou, ou seja, bradou com a mulher que varria o terreiro. O idioma dele é outro, semelhante ao dos aborígenes australianos, especialmente dos que nunca conheceram a sociabilidade. Ou pode ser um dialeto, próximo em semitons ao dos apaches em pleno ataque aos colonizadores. Ele não tem culpa.

Na segunda dentada da banana, vi quando ele alisava uma melancia. Não achei ridículo nem piegas nem grotesco. Achei normal para o que eu estava vivendo naquele ensaio. Na terceira, fui tirando minha carteira, disposta a pagar o quanto fosse pedido, sem choramingar. Na quarta e última dentada, mastiguei de leve, engoli com força. Perguntei bem cínica, como se fosse uma imperatriz de morro: “Quanto custa?” Imediatamente, num piscar, tive a impressão de que ele só estava esperando aquilo. Com um desvio de olhar, disse, mexendo abruptamente em papéis que se espalhavam por entre as cenouras: “Dez centavos.”

Paguei com duas moedas de cinco, para ele ficar ainda mais feliz. Ao dizer “Obrigada!”, ouvi um roído estranho das cordas vocais dele, devolvendo o meu agradecimento, como se estivesse abrindo o chão. 

Bem pensativa, fui andando, até que me fizeram pensar nos princípios cartesianos de ser e estar. De dez em dez centavos, chega-se a uma dúzia, chega-se a um cacho, chega-se a uma penca, chega-se a um caminhão carregado, chega-se a uma frota, chega-se a uma plantação. Quem sabe, chega-se, à prosperidade.



Texto publicado na revista Oba! - Cajazeiras (PB), 2000

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Passeio





Papel cartão pastel, caneta hidrocor









                                                                                                                             

terça-feira, 10 de maio de 2011

Fazenda

Meu universo pomar se incandesceu de maçãs. Como em canto, também uvas enfileiradas. Meu universinho pomar se enverdejou de inverno, propôs mais verde, teceu o laranjal. Veja, moço, como a terra é boa, o negócio vai prosperar em sinfonia. O preço nem está alto, alta é a performance dos coqueiros, água doce para beber e casca exuberante para criar luminárias. Meu universo, alado ou quieto, não sei, mas grande de paz, tanta planta, tanto inseto a se ocupar e trabalhar pelo equilíbrio. Moço, não está alto, já falei. Aqui minha dor é a de não poder mais cuidar, mas as castanheiras contam histórias e os pessegueiros cheiram sonhos. Olha ali, menina. Olha ali, moço, que harmonia brincante das acerolas. Todo um pasto para ser montado, todo um curral para ser aproveitado, ciente para musicar mais. Veja, madeira e palha naqueles galpões. Aqui tantos, tantos, esses anos todos, menina. Subia ali, naquela mangueira, era refúgio, fortaleza, parte de mim enquanto passarinho. Do lado de cá, moço, estas palmeiras. Se quiser, tem flor também. De tão pacífico meu universo, bem-me-quer vai nascendo sem data nem hora, sem medida para a beleza. Então, está certo, mas deixe passar mais um mês. Minha mala está pronta, moço. Falta somente colher a próxima leva daquele limoeiro, que tanto me ouviu. E, se o senhor consentir, pelo menos me arrume uma muda daquela figueira.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Saint-Ex


Príncipe Exupéry voa
Desenha elefantes e raposas
Seu essencial é invisível.



Papel canson A4 pastel, caneta hidrocor verde musgo