terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os mesmos papéis de carta



Ouvi dizer em algum lugar que não devemos esperar demais dos outros. Por não seguir à risca esse argumento, eu acabo, às vezes, sofrendo com reações de algumas pessoas ou me surpreendendo com lugares.

Certa vez, encontrei uma colega de infância numa agência bancária. Estudamos pelo menos durante oito anos na mesma escola, na mesma sala. Curtíamos as mesmas músicas, os mesmos livros, os mesmos ídolos, os mesmos gibis, os mesmos papéis de carta.

Nossa condição social era um tanto diferente, mas nossa formação moral e familiar continha os mesmos padrões rígidos de comportamento. Na pré-adolescência, começamos a nos distanciar, o que era natural, devido à mudança dela para outra cidade. Ainda não havia internet, mas poderíamos ter trocado desenhos, cartões, bilhetes.

Eis que, no dia do reencontro, na agência, eu a vi, depois de pelo menos seis anos. Talvez até mais. Quando meu coração se alegrava para receber um temperado abraço, tive que me contentar com um aceno insosso e solitário, com uma distância de dez metros. Para coroar o acontecimento, aquele ar-condicionado gelado.

E o papo que eu esperava colocar em dia? Não aconteceu. Meu castelinho de cartas foi desmoronando lentamente. Damas, copas, paus, espadas, ases, valetes, reis, rainhas, angústias, trufas, pterodátilos, bolos de chocolate, ventanias, velocípedes, ideias. Outro castelinho, o de marfim, foi acertado por mísseis de expectativa, bombardeado com bolas de sorvete, triturado por serpentes, coberto com caramelo e amendoim. Ainda outro castelinho, o de areia, sofreu uma erosão repentina. O centro da Terra o engoliu.

Respirei fundo. A amizade é um tesouro tão precioso que me pergunto também se éramos realmente merecedoras dessa honrosa tarefa ou função fraternal. Imagino que, quando encontro os amigos velhos ou os velhos amigos de verdade, a efusão é imediata. Podemos não ter nos visto há um mês ou vinte anos, isso nem importa.

Amigo verdadeiro se abraça, ri, chora, canta, pula, brinca. Amigo verdadeiro não se contenta com um aperto de mão tímido ou sorrisos padronizados. Com os amigos, faço um show de perguntas. Sim, pois eles também fazem comigo. Nós nos damos esse direito carinhoso de traduzir uma saudade recíproca. É a certeza de que estamos plantando flores. Cabe, no entanto, a cada um, o trabalho de adubo e a alegria da polinização.  










sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Extra



Uma placa dizia:
acredita-se em ET
tomei um susto
êta
eita
edição extra
extra-tudo
extra-Terra
extra-terra
flutuando, era 
um pensamento fujão
androide
com um traço 
estreito
assim como esse
poemeto. 






Desenho no PowerPoint

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nossa turma do Chaves











Escola Nossa Senhora do Carmo. Na sexta série, aos onze anos de idade, eu comecei a me soltar, a me envolver mais com música, dança e teatro. Foi na escola que a timidez começou a ser vencida, com o auxílio da nova morada, no Alto Belo Horizonte. No bairro, o convívio com uma nova turma.

A cidade acabara de ganhar o sinal do SBT, com algumas vinhetas ainda com a marca TVS. Um dos programas era a minha verdadeira febre: Chaves. A criação do mexicano Roberto Bolaños foi decisiva para a minha sociabilidade. Eu me divertia quando assistia aos episódios de toda a turma criada por Bolaños e os personagens vividos por ele, além de Chaves, como Chapolin Colorado e Doutor Chapatin. Munida desses elementos e com a cobertura da escola, comecei a escrever uma peça numa caderneta.

O ano era 1988. Veio o Dia das Mães, uma data comemorativa que ganhava ainda mais importância na escola. Nessa época, Dona Hortência, mãe de Tia Carmelita, era sempre mencionada, com uma honra sutil e religiosa.

Construí um texto, inspirada na turma do Chaves, adaptando um pouco os diálogos para a nossa realidade cajazeirense, paraibana, nordestina, brasileira, latino-americana. Eu achava que ia ser somente uma apresentação teatral, nada mais. Não foi.

Começamos os ensaios. Tive que aprender a ser paciente com meus colegas: os que faltavam, os que eram muito mais tímidos, os que bagunçavam, os que tinham dificuldade em decorar o texto ou a marcação. Fui diretora da peça, pois ninguém queria assumir a tarefa.

O figurino era coletivo. Cada um organizava o seu e ainda auxiliava na indumentária dos outros. Todos sabiam que era uma atividade que não valia nota, ponto ou qualquer outra bonificação nas aulas. O que valia era nosso amor pela escola e nossa vontade de homenagear nossas mães.

Chegou, então, nossa vez de apresentar no pátio. No roteiro das apresentações, o comando do microfone era sempre de Valéria Guedes, que se sentia à vontade com o público, já que apresentava o programa Casa de Brinquedos, na Difusora. Eu mesma era ouvinte assídua e me escalei para participar numa das tardes.

Não pensei num título para a peça. Fomos anunciados assim: “Agora, com vocês, a peça do Chaves!” Pensei em tantos detalhes, menos no título. Éramos ainda muito crianças, cheios de fantasia. Eu, Tito, Glayzianne, Regilânia, Érika, Andreicksa, Henry, Gerlúcio, Tárik, Fabiano e Enilson. Révia e Sônia auxiliaram nos bastidores.

O sucesso foi tão grande que fomos convidados para apresentar no Colégio Diocesano. Era uma gincana entre as turmas. Marcya Rejane Trajano era a articuladora, como integrante da produção do evento. Nosso camarim era o sótão do auditório. Três anos depois, eu era aluna daquele colégio, mas terminantemente proibida de entrar no sótão para relembrar o acontecido.

Mais tarde, comecei a analisar a criação de Bolaños como algo bastante presente em toda a cultura latina. A vila, onde se passam os episódios, é o palco das diferenças sociais. Seu Madruga, o desempregado, malandro, caloteiro. Chiquinha, carente de um olhar materno, propensa ao atrapalho e à mentira. Dona Clotilde, a Bruxa do 71, desfrutando da terceira idade e sempre à espera de um grande amor. Quico, o garoto esnobe, mimado, que humilha os mais pobres. Chaves, o órfão, abandonado, marginalizado na escola e em qualquer outro lugar. Seu Barriga, proprietário das casas da vila, mas sofredor do preconceito por ser obeso. Professor Girafales e Dona Florinda, o casal que poderia dar certo.

Fico pensando se tudo isso de Bolanõs é mesmo um besteirol com dublagem tosca ou o nosso retrato de colonizados e historicamente ainda buscando a identidade plena. Nossa latinidade é também nossa lembrança de uma coleção de conflitos, um calhamaço de sorrisos, um punhado de gritos, um belo caminhão de povos. Essa é a riqueza. A vila pode ser, na realidade, em qualquer lugar do mundo.

E que alegria fazer teatro na escola! Por que não guardei minhas cadernetas? De vez em quando, eu me pergunto por que não conservei os rabiscos da peça e outros tantos rabiscos dessa fase. Seria o meu tesouro. Pode ser até que eu tenha rasgado de propósito. Ainda estou analisando. Ainda estou tentando descobrir, como diria Chaves, se foi sem querer, querendo. 






terça-feira, 6 de maio de 2014

Senhores passageiros














































Minha vida melhorou muito, depois que eu comprei um varal portátil. Varanda, banheiro, área de serviço. Posso dominar minha vontade dentro da necessidade doméstica. As coisas portáteis são o retrato da modernidade ou a condensação de uma pressa inegável. Consumimos tempo, coisas, beijos e abraços. Economizamos tudo isso também.

Minha viagem a Cajazeiras em janeiro contou com gratas surpresas. O que minha família faz por mim nem é surpresa, mas eu espero com aquela criancice de quem espera um presente.

Por outro lado, não encontrei algumas pessoas queridas na cidade. Logo se vê que meu coração não é portátil. Meu padrinho João de Deus não estava em sua casa ou mesmo numa viagem a João Pessoa, passando uns dias. No meu ouvido, sempre aquela melodia, da Ave Maria, de Gounod. Agora sim, faz ainda mais sentido e saudade.

Dona Zefinha não estava mais na sala da sua casa, me esperando para uma boa conversa. Zazá também não estava mais na loja, para brindar meu dia com sua fineza habitual. No sábado da feira livre, não encontrei Pedro Revoltoso, com seu carrinho para vender rifa e falar do futuro do Atlético. Na despedida de Dona Nancy, eu, realmente, não tive coragem de comparecer.

Minha viagem foi boa, mas não posso esconder que também foi um alinhavo de achados e perdidos. No município, achei que o aeroporto estivesse bem encaminhado. Seria meu lugar portátil daqui a alguns anos. O avião pousaria na região do Sítio Santo Onofre. Pronto. Com quinze ou vinte minutos, eu estaria na Rua Sousa Assis, pedindo bênção a meu pai e minha mãe.

Não sei se meu sonho portátil foi quase desmoronado. Posso empregar o gerúndio: está sendo. É a construção verbal mais tolerante. Posso dizer que o aeroporto era ou ainda vai ser. Foi ou teria sido. Eita! Nossa língua é bela e cheia de armadilhas. Nossa língua somos nós mesmos.  

E o que será do Sítio Santo Onofre? Um pasto para gado portátil. Um criatório de minhocas, um silêncio subterrâneo. Elas estavam esperando os pousos das aeronaves. E se esconderiam ainda mais, preparando a terra para a expansão do empreendimento. Mas, se não há realização, é claro que não há expansão.

As galinhas dos sítios vizinhos cacarejariam com aquele barulho de motor gigante. Continuariam sem entender muitos detalhes, como a maioria das galinhas. A cidade inteira faria sua adesão a escalas e conexões, pavores e praticidades, pacotes e promoções.

Minha opção continua sendo os aeroportos de Juazeiro do Norte, João Pessoa, Campina Grande, Recife, Fortaleza... Em seguida, um longo asfalto até o Centro de Cajazeiras. Por enquanto, sinto falta de tanta gente e procuro aquela voz exemplar de aeroporto: “Atenção, senhores passageiros...”

Aquela voz ainda está ecoando pelas juremas, em busca de uma benzedeira, um deputado portátil, um senador, um novo Chatô. Aquela voz viria na fenda misteriosa de alguma oiticica. Aquela voz viria no sabor entranhado da cajarana. Aquela voz viria com o mormaço do açude. Aquela voz viria. Aquela voz.