quinta-feira, 31 de março de 2011

Dois mundos

O homem de paletó sentou no banco da praça, atônito, com um olhar perdido nos seus papéis. Ao lado, no chão, sentou um vira-lata, tranqüilo, conformado com um pedaço curto de acém que havia jantado. O homem não entendeu aquela tranquilidade, respirou, observou o céu nublado da noite estranha. Outono. Mesmo assim, continuava com uma saga de impaciência, ao perceber que não havia organizado os papéis. A ordem alfabética seria o começo. O vira-lata coçou o focinho, lentamente. Ao longe, viu mais dois vira-latas atravessando a rua. Voltou ao seu estado de sonolência. O homem o chutou.


quinta-feira, 24 de março de 2011

Conversa na latada

Sítio Serrote, Cajazeiras (PB), 2009
Alinhado o enxame
Secou a algaroba
Nublou foi cedo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Pousada

Aqui mora um passarinho
Em silêncio, encontra novos sons
Em canto, voa mais alto.

Ecopousada Oiutrem (Matide, Alfredo Chaves-ES)
www.oiutrem.com.br/site/

segunda-feira, 21 de março de 2011

Água-viva em Lucena











Como um longe num infinito tão próximo dos meus olhos curiosos. Chegamos. Foi a primeira vez que fui apresentada ao mistério de uma anêmona, ora difuso, ora confesso, ora silencioso. Não sei o que seria uma anêmona no meu sentir de criança perpassado por tanta cor, tanto fugir de sentidos, tanto pular corda ou desenhar.

Minha boneca Verinha era a mais chata de todas e pouco me dizia sobre anêmonas. Muito mais sabia, como todas as outras do reino das bonecas e panelinhas de barro, sobre interagir. Deixei guardado esse pensamento. Naquele dia, éramos uma pequena equipe numa praia de Lucena, para capturarmos algumas imagens com pescadores para um programa de TV independente. De perto eu via o exemplo da areia, firmeza, limite. Alguns turistas, algumas perguntas, alguns comentários. Frases esparsas combinavam com aquela cor de céu, estranheza de manhã, estranheza de música.

O ar nublou tudo o que podia com uma nuvem do tamanho da respiração de quem a via. Ouvimos a chegada de um barco. A rede foi se soltando naquela civilização arenosa, desenhando alguns objetos, sob a avaliação de Verinha, se ainda estivesse presente. Diria sempre algo assim solto, bem metido a ser realista: vamos embora. A personalidade dela era de resina, diferente da de Sofia, adquirida já na idade adulta ou na idade de pensar de outro jeito em relação ao ato de brincar.

Espera aí: aquilo ali é uma água-viva, gritei, parecendo que ia morrer de felicidade. Sofia, com seu comportamento de louça, teria medo até de olhar, claro. Mas, lembrando: teve coragem de matar um lindo pé-de-boldo, um dos seres arbustivos mais diplomáticos que eu conservava no jardim. Essas bonecas, cada uma delas, são sujeitas a um pedacinho de mim, com um punhado de cifras e praias distintas e assoladas pela vontade de escrever.

O acervo, mantido pela memória, foi auxiliado na sua configuração principalmente por Verinha, Sofia e abastecido de informações por outra turma. Uma turma honrosa. Trombinha, de plástico, elefante traumatizado por ser ex-telefone. Careca, acrílico, ainda sofre ao ser, receber corda. Emília, de pano, lobateana por natureza. Cascata e Coalhada, plástico, gêmeos rabugentíssimos.

Um dos pescadores disse para eu tomar cuidado com a anêmona. Bem perto dela, uma água-viva, viva além da conta. Já era tarde. Eu me aquietei e me conformei em analisar as cores que pipocavam com alguns tímidos raios solares dentro daquele aparente saco transparente e sem força. Minha mão ardia, num grito de pele ardia mais ainda. Enganei-me por um instante, como se eu fosse, realmente, todos os meus brinquedos que imitam gente. Fui espiando. Percebi uma cauda, rabo se trifurcando, cada um dos filamentos com uma bolinha na ponta, que fazia uma estrela. Era o único lugar que acusava uma cor real e nítida, a amarela. No interior daquela estrela despontaria, um outro rabo, pequeno, quase imperceptível, com uma substância estranha, com a capacidade de queimar.

Meus brinquedos tinham razão quando me avisaram que eu ia me deparar com uma água-viva, ser alertada, saber que me queimaria, sentir vontade de tocá-la, recuar, recuar de novo, por curiosidade tocá-la, sentir um beliscão, sentir um queimor instigante. E como não admirar Lucena e seus labirintos tão planos, além das pedras? Quero voltar lá, quero ver se resisto à cicatriz de algo menos faquiresco, menos animal caravela: olhar aquela linha que atravessa de um canto a outro, lá longe, no fim do mar. Espero que não seja o fim do mundo. 




Texto publicado no jornal A União (PB), 2006  

domingo, 20 de março de 2011

Guardadora





No Nordeste, é Cabaça-de-macaco. Árvore-cabaça, árvore-segredo, guardadora. Um dia, um macaco resolveu dizer que participaria do nome. Algumas centenas de minúsculas flores nascem, às vezes amareladas, às vezes rosificadas, às vezes embranquecidas. A copa parece uma cabeleira. As cabaças são brincos, de longe. Belezura. A natureza enfeita, o vento dança com ela. É salão de festa na corte dos pardáis.

Perfil

Ponto em cada ponto
Começo e medida
Assim musicam as coisas.

Papel cartão pastel, caneta hidrocor

Vran procura o bem-te-vi


Papel A4, caneta hidracor


Horizonte divino urbano




Janelas e números
Passos apressados: fumaça
No horizonte, um paraíso se apresenta.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Bambuzal

Vem, vai, range 
Vento mexe
Bambu volta paciente.  

Um banquete sensível

Zélida sabia que ser aranha era um privilégio. Rodolfo, gafanhoto, há vários anos não entendia por que tanta habilidade em tecer um mundo de faz-de-conta.

- É realidade! – retrucava Zélida, questionada por Rodolfo, amigo de Pablo besouro, que ficava tentando desestruturar o talento da aranha benevolente. Ela apenas fiava, fiava, sem interromper a sua meta.

Um belo sábado, uma formiga desconhecida estava procurando alimento.

- Olá! – falou Pablo.

A formiga continuou seu trajeto, sem responder, mas resolveu deixar um pedaço de folha na teia. Naquela noite, todos foram convidados para um banquete. O bolinho de folha enrolada, regado a neblina, ficou uma delícia.

Depois da meia-noite, Rodolfo começou a estudar mais a natureza e batizou a formiga: Gina.