quinta-feira, 15 de março de 2018

No alto do Horto









Qualquer viagem a Juazeiro do Norte era um acontecimento honroso, uma festa, uma aventura no meu mundinho de criança. Subir a ladeira do Horto, tirar foto, acender vela, pedir bênção a Padim, comer pipoca de arroz, chupar pirulito, rir com as presepadas das figuras encontradas ao longo do caminho. Tocadores, rezadores, benzedeiros e comerciantes. Turmas, levas, grupos, penitentes, pregadores e romeiros. Cada um clamando por dias melhores, pela própria cura física, por mais fé, pela reabilitação de algum parente ou amigo, pela paz no mundo. E em coro silencioso, essencialmente redundante: chuva, chuva, chuva.

Primeiro, íamos a Missão Velha.  O nosso primeiro ponto de pouso era a casa de Iraci Furtado, nossa querida amiga, desde quando morou em Conceição do Piancó. Costureira exemplar e feirante, proporcionava à nossa pequena caravana um certo conforto: era conhecedora de todos os cantos, recantos e entrelinhas do comércio juazeirense. Perambulávamos um tanto. Por toda parte, gente vestida de preto, para homenagear o fundador da cidade, Padre Cícero Romão Batista, líder religioso e político da região. No ruge-ruge dos caminhantes, aparecia um conhecido, um conterrâneo, uma criatura pra dizer algo ou soprar um verso de ladainha. Burburinho. Cochicho. Plantões de butuca.

Em Juazeiro, em determinado período, também visitamos Tia Maria Lima de Assis, que decidiu viver seus últimos dias naquela cidade, especialmente no bairro São Miguel, para cumprir um combinado com o saudoso marido, Tio Vicente. Eita, Tia... Muitas histórias, bordados, batuques, carambolas e melancias. Uma crônica à parte.

No verde da praça principal, no Centro, chegava uma brisa gostosa e úmida do cariri. Brisa que ainda hoje sobe, desce, assobia e volteia a Chapada do Araripe, desenhando o clima do lugar, mais agradável do que a secura sertaneja. Por ali, por acolá, pelas ruelas que invadem o percurso, sons diversos, entre eletrônicos e chamarizes para compras, choros, gritos, gaitadas e risos. Espaço coalhado de emboladores, violeiros, repentistas e cordelistas, compartilhando suas expectativas com os artesãos, sedentos para exibir a criatividade do povo, da cultura que nasce da raiz do coração.

Toda essa viagem escrita aqui e agora reacendeu durante a leitura de “Guerra ao fanatismo: a Diocese de Cajazeiras no cerco ao Padre Cícero”, do meu amigo escritor Francisco Sales Cartaxo Rolim. Além da rica bibliografia que serviu de base para o ensaio, coube na obra a visão crítica de um cajazeirense aplicado. A pesquisa se arquiteta num estudo cuidadoso sobre a transição do século XIX para o XX, com os detalhes da fronteira: Paraíba e Ceará, Ceará e Paraíba.

A narrativa provoca o leitor para estudos perpendiculares sobre fenômenos sociais, a exemplo do coronelismo, do banditismo, do cangaço, e questões de gênero, envolvendo a Escola Normal do Padre Rolim. Ainda podemos encontrar um prato quente sobre a imprensa católica e a nobre trajetória de Dom Moisés.

Um presente e tanto. Um convite para pensar.  Um convite para lembrar. Cada momento aboia nos meus ouvidos, bate no trinco da cancela de Olho D’Água do Melão pra dentro. Cada momento chega sem aperreio, na Rural de Seu Zé de Joca. Na trilha sonora, Gonzagão. Sempre.

  

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Mimo








Naquela enorme e suculenta floresta, era possível caminhar com cuidado, em fila, no maior silêncio possível, sem ilusões. Um gafanhoto quis assustar o exército. Não conseguiu. Virou ímã.