terça-feira, 7 de julho de 2020

Vau da Sarapalha









Teatro Íracles Pires lotado. Uma quarta-feira. O ano era 1993, minha tórrida atmosfera de preparo para o Vestibular. Colégio Objetivo. Ali mesmo, naquele casarão onde funcionava o Hotel Oriente. Um jovem rapaz, estudante de Direito na UFPB, em Sousa, e que trabalhava bem perto, no escritório de contabilidade de Seu João Meireles, chamou minha atenção. Melhor ainda saber que era neto de Dona Lourdes, do Hotel Cajazeiras, uma senhora a quem eu nutria de longe um certo carinho e admiração. O rapaz se chama Meilson Cunha. Foi um namoro rápido, poucos meses, mas suficientes para que mantivéssemos depois uma relação de amizade sincera. Lembro que ele disse que achava bonita a minha aproximação com a literatura. Falou que leria meus livros. Ótimo. Esse dia vem chegar. Sou grata a ele pelo presente de ter me levado àquela casa de espetáculos naquela noite.

Vau da Sarapalha, há anos em cartaz com o grupo paraibano Piolim, estava ali, na minha frente, descortinando um pedacinho do universo riquíssimo de João Guimarães Rosa. Mais tarde, demorei a dormir. Verdade. Fiquei horas lembrando de Escurinho, que com seu personagem fez gato e sapato da sonoplastia. Um show. Anos depois, comecei a entender essa monstruosidade de talento que é o percussionista e compositor. Grande Jonas.

No elenco também os irmãos cajazeirenses Soia Lira e Nanego Lira. Que personagens profundos. Sintonia pura. O chão se rasgava para meus olhos em camadas singelas de realidade. Junto com Everaldo Pontes, os diálogos escancaravam para o público as angústias da zona rural, carente de certezas e investimentos. Eis o talento do autor, ao contar um causo que parece simples, a construção de um vau na beira do rio e a luta psicológica de um personagem que se apaixona pela mulher do amigo. A malária como grande nebulizador da trama: febres, delírios, desilusões, ameaças, distanciamentos. A morte flertando o tempo todo.

Havia um elemento visual que me convidava a outros respiradouros lúdicos: o fogo. Podia ser interpretado de diversas maneiras: gerado na mata, esquentando a panela, ameaçando o grau de confiança dos dois amigos na narrativa. Quentura. Os bichos. Calafrio. Muitos contrastes que somente um diretor com o porte de Luiz Carlos Vasconcelos acertaria com sensibilidade. O sobrenatural foi algo bem planejado e executado. Um primor. A técnica em persuadir e envolver o leitor no teatro foi acertada, no alvo. Era um enorme texto que exibia seus contornos e se concretizava.

Daquele dia em diante, não li somente Sagarana, a obra que inspirou a peça, mas o que eu pude de Rosa. E ainda falta tudo o que dizem dele. Aí é infinito. Que bom. Continuemos a estudar esse médico e diplomata, mineiro do oco da natureza, que inaugurou um jeito diferente de escrever e transportou para o papel o jeito de falar, o jeito do habitante do interior do Brasil. Sempre há um quilate de mágico, de duvidoso ou temeroso. Nessa brecha, entram as nossas vontades de descobrir mais. Mais e mais.   









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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Lições eternizadas






A sorte me chegou diversas vezes e sou grata por isso. Um dos exemplos que lembrei, dia desses, foi ter sido aluna de Wellington Pereira, na UFPB. A disciplina foi Preparação e Revisão de Originais, em 1994. Wellington estava quase embarcando para a França, com o objetivo de cursar o seu merecido doutorado em Sociologia. Um dos primeiros ensaios que escrevi para a disciplina, O sabor da crônica, além de documentado pela instituição, está por mim guardado. Foi ensaio porque se colocava diferente de todo e qualquer trabalho acadêmico que eu fazia: um tom dissertativo, mas sem tantas amarras. O professor nos ensinou a lidar com certa liberdade, aos construirmos uma crônica, um artigo de opinião, uma crítica, e até mesmo numa grande reportagem, que nunca deixa de apresentar o tom pessoal de quem escreve. Vejamos bem: certa liberdade, não total. Eis a fórmula ética do bom produtor de textos.

A característica metalinguística da disciplina dizia tudo sobre o professor. Na época, ele me presenteou com As possibilidades do Róseo, seu livro de contos. Poeta em tudo o que procurava dizer, ele foi fundamental para deixar clara a importância da técnica na escrita. Lembro da sua voz pastosa e risonha, dizendo sempre: talento sem técnica não adianta. Leia, dizia ele, para nós todos: leia e muito, muito mesmo. Esse muito, claro, com critérios estabelecidos pelo próprio leitor. Leia os clássicos, os escritores consagrados, os escritores premiados. Se o escritor foi premiado, por mais que o leitor não goste do estilo em questão, é importante ler e procurar compreender por que o prêmio. Caso o leitor não se conforme com apenas uma narrativa daquele autor, é salutar conhecer outros títulos.

Leia os best-sellers, pare de preconceito com os best-sellers, deixe o autor ganhar dinheiro em paz. A perenidade da obra, o tempo se encarrega de dizer e provar. Escreva. Escreva todos os dias: uma frase, um verso, uma estrofe, um parágrafo. Transforme a pressão cotidiana, os famosos prazos, em aliados: aproveite para aprimorar ou adaptar sua técnica. Por mais talentoso que você acha que seja ou que os outros dizem, invista na técnica. Seja o artesão que não se contenta, dia e noite, enquanto não admitir que seu texto está pronto para o editor. Leia a gramática, estude a gramática. Faça da gramática uma companheira de todas as horas, junto com o amigo dicionário.

E, assim, fui entendendo, aos poucos, os conselhos do bom mestre, com assento carimbado na literatura. Graças a essas aulas, decidi rápido o que seria meu Trabalho de Conclusão de Curso, em 1998: A tecla do tempo. Fiz um ensaio sobre a fusão do jornalismo e da literatura no gênero crônica. Não o considero maduro para ser publicado, mas pode crescer para outro ensaio, mais elaborado e recheado de novas ideias. O orientador do trabalho foi o professor Carmélio Reynaldo Ferreira, outro que me ensinou muito sobre o ato de escrever tecnicamente.

Durante a fase da pesquisa, tive a honra de entrevistar dois grandes cronistas que já se foram, para outra dimensão das palavras: Luiz Augusto Crispim e F. Pereira Nóbrega, o mesmo que tinha sido o Padre Chico Pereira, nas bandas do meu doce Vale do Piancó.  Cada um com sua lição prodigiosa em escrever. Todas as lições estão catalogadas no mesmo reino das subjetividades, o mesmo onde estão os sonhos, aqueles que, de vez em quando, relato aqui. A diferença é que beiram a realidade, quando encontram novas caras e letras. Mas isso já virou tema de outra conversa. Boa sorte.         









sexta-feira, 1 de maio de 2020

Trinta moedas de prata







Certas músicas aprontaram muitas na minha memória. Vivi nos acordes um realinhamento de ideias, uma carrumbamba de emoções com açúcar. Asa Branca está no tope dez das catarses. A primeira nota sinalizada na sanfona promove, de imediato, um olhar mais penetrante. O espetáculo está apenas começando, não somente para falar do fenômeno da seca. Fala da existência do ser humano, o qual, por ser humano mesmo, pergunta-se de forma diária e cansativa como ser gente. Nem todo humano é caracterizado por mim como gente. Tenho certeza de que muitos dos leitores entendem de outra forma: que todo ser humano é gente. Isso é saudável. Cabem as interpretações mais diversas.

A canção Asa Branca não cansa de ser interpretada. Isso acontece porque muitos seres humanos e gentes gostam de estudar. Há muito mesmo o que se estudar nela. Coincidência ou não, e não me incomodo se eu usar aqui lugares-comuns a rodo, a melodia começa com o acorde sol. Vamos considerar que o calor emanado pelo astro, se considerado o local árido em que visita, é ensurdecedor. Temos um rei que governa para todos. O acorde puxa uma colocação vocal brilhante de Luiz Gonzaga, casando a voz com o marejar do fole. Sem dúvida, é maravilhoso de se dançar.

A fala do sertanejo é lembrada na letra, com os cacoetes que constam na própria gramática da vida. É por isso que o verbo flexionado oiei não deveria ser olhei. Simples. Olhei, o verbo olhar no pretérito perfeito do modo indicativo, fugiria da narrativa, que também se assemelha a uma oração, um rito de passagem para um paraíso, dependendo da fé do caboclo. E, por falar em lugar onírico, ganhamos, de cara, a lembrança de São João Batista. Isso para o mundo todo ver que as fogueiras juninas são as histórias revividas, a cada milho assado, a cada rojão, a cada gafieira.

Asa Branca nasce em 1947, quando se usava pó de arroz como um dos elementos femininos mais cobiçados do pedaço. Vitalina tanto acreditou que insistiu no cosmético, como explicou Jackson do Pandeiro. E, por estamos perto do dia primeiro de maio, lembraremos ao som da mesma canção, que o Comando Geral dos Trabalhadores foi extinto na mesma época do pó de arroz. Trabalhador sindicalizado era uma ameaça constante, um ninho de subversivos. O militar Eurico Gaspar Dutra era o comandante do navio. 

Em seguida, temos uma construção do português clássico, utilizando o pronome relativo qual, em vez do pronome relativo que. E me perguntei, com meus olhinhos de criança, a olhar praquele céu azul e muito azul da plataforma celestial: por que uma palavra que não está no meu dicionário da escola e, logo adiante, outra em profunda sintonia com as leis gramaticais. O azul não respondeu como eu gostaria, deixando para depois. Mas continuei perguntando. É aquele azul para não esquecer. É aquele azul que nunca uma tela minha alcançará, e somente tentará se aproximar, como um gato se aproxima do dono.

A primeira estrofe fecha com a pergunta a Deus do céu, por sinal o mesmo céu nordestino que conhecemos. E, para quem ainda não conhece, imagine um tapete limpo, com uma nuvem ou outra passando pelos passarinhos. O verso termina com uma interjeição, que pode parecer um recurso estético para imitar o ritmo. Talvez tenha essa intenção também. Mas o ai é a primeira palavra que falamos ao sentirmos alguma dor. A lágrima é por dentro do corpo.

A terra arde e a música pergunta por que tamanha judiação. Judas, a origem do termo. Judas Iscariotes, um ser ainda pouco estudado e compreendido. Sem as trinta moedas de prata recebidas pelo tesoureiro, não sei se hoje seria dia trinta de abril de dois mil e vinte no meu calendário. Sem as trinta moedas, meus livros didáticos não estariam coalhados de romanos. Sem aquelas moedas, o cinema não teria lucrado. Sem aquele beijo, nada de coelho. Nada de chocolate. 









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