quarta-feira, 27 de março de 2019

O entrevistado









Ele veio e nem parecia tão preciso. Parecia meio tonto, abobalhado. Tinha um traço mitológico no apelido, que usava como grife. A aparência, na verdade, de vendedor. Vendia algo incerto, obtuso. Vendia, sei lá. Parecia que vendia panela, plano de saúde, confecção, imóvel. Panela pra ser utilizada no fundo do oceano. Plano de saúde pra animais invertebrados com antenas encolhidas e observadas apenas por um telescópio desenvolvido pela equipe de uma sociedade secreta. Confecção pra crianças nascidas apenas em anos ímpares, meses pares e dias de lua cheia. Imóvel do segmento embargado e visitado por dezenas de gerações localizadas em cidades montanhosas. Esse era o tipo de papo dele. Coisas improváveis ou dificílimas de acreditar. Mas, era pauta a cumprir.
Disse, ele próprio, que deveria usar óculos. Seria até menos confuso. Não usava perfume, ao que percebi, quando chegou mais perto, rompendo aquela barreira regimental das formalidades. Usava sempre uma camisa xadrez: azul, branca e amarela. Encardida. Fedia a peixe engordurado. Eu queria sair dali. Logo. Ficar invisível. Entrar numa cápsula do tempo. Mas, era pauta a cumprir.
 Incrível como falava alto. A boca grande, os lábios quase imperceptíveis. Faltava desenho no rosto. Sorriso de cartaz, aquele forçado. Fazia um discurso cheio de chavões, frases compradas por ele mesmo, enlatadas pelos parentes, plastificadas na surdina, algemadas nos porões das ideias. Pedi água. Rezei silenciosamente pra sair dali. Mas, era pauta a cumprir.
 De repente, um clichê. Mais na frente, lugares-comuns. Citações dele mesmo em obras nunca visitadas. Confundia os sobrenomes. Miguel de quê? Fernando de quem? Machado de onde? Nunca tinha lido a sério. Assim como o dia vem depois da noite. José de quê? Drummond de quem? Pedi pra ele repetir. Desconversei. Pedi perdão aos mestres. E começou a falar apressado, como se fugisse. Ora, mas era eu quem queria fugir. Olhou de lado. Não havia ninguém. Olhou de novo. Engasgou-se. Olhou de novo. Era um vulto, segundo ele. Garanto que eu queria falar com aquela suposta alma penada. Mas, era pauta a cumprir.            
          Entre um tema e outro, gaguejava. Uma gagueira discreta, mas, em se tratando do semblante dele, era desconcertante, teatralizada. Parecia que comprava as frases num supermercado, em embalagens de papel. Noutras construções, mirava o teto, como se lesse ali numa cola. Buscava palavras, aposto com quem quiser, saídas de um pensamento falso. Geleia verbal. A boca começou a ficar parecida com um bico de coruja. Bebi mais água. Desliguei o gravador.




quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Coisa pra curandeiros e raizeiros



















Aquele pedaço de folha desce na correnteza, brilhando, numa velocidade olímpica. Espetáculo, emoção: vamos prestigiar, temer, admirar, agradecer. Cinema, cinema mesmo, sem preço de ingresso ou cadeira marcada ou qualquer negócio para suavizar a interpretação. Balde do Açude Grande: exibição da sangria. Sangria para todos. Sem hora específica para finalizar. Sem quantidade determinada de espectadores. Apenas para ver a água, imensa, e toda a reverência a ela, e toda a capacidade de admitir sua grandeza e sua beleza essencial à vida.

Cinema gratuito, em movimento. Som associado ao barulho da rua, ao barulho das vozes e gritos e risos. Aquelas caras de espanto e dúvida, sem saber por quantos dias, se o filme será uma série, se o barulho tende a aumentar, se vai haver mais festa, se podemos falar em sangrando mesmo, se sangrando pode ser o mesmo que vazando ou extrapolando.

Aquele pedacinho de pneu não deveria estar ali, mas correu, foi flagrado, ultrapassou a vegetação, embolou-se com uma pedra. Participou do filme como intruso, desmereceu os atores de renome: sapos, jias, cururus, rãs, pererecas, cidadãos anfíbios. Aquela sacola plástica entrou, também burlou as regras, aproveitando-se da própria leveza. Estruturou, na surdina, seu criadouro de bactérias.

O público vira torcedor de um filme único. A força da água puxa e repuxa, com seu marrom inimitável, um chocolate barroso e mentolado com ramos de jiboia, a planta democrática, respira na água, respira na terra. Sessão livre. Sessão livre. Criança pode tentar entender tudo aquilo. Não há vigias, seguranças, zarabatanas, canhões, catapultas. Não temos certeza se o processo será indicado a prêmios internacionais. O roteiro é associado ao mistério: como medi-lo, não sei. Coisa pra curandeiros e raizeiros.

O picolezeiro está ali. O pipoqueiro está ali. O fã, o piadista, o bajulador, o gaiato, o cético. Todos. O importante é que não funciona o ano inteiro nem todo ano. Ainda não sabemos se amargo ou salgado, se competição ou atração, se xote ou miudinho, mas a plateia se agita. Um se diz corajoso, quer ir, quer se jogar, fazer parte, chegar ao canal, sentir o lodo, ser notícia.

Olha. Bem ali. Um tronco enorme, descendo, disparado. Vamos arriscar. Seria um pedaço de jurema, sem a sua espinheira defensora. Seria um pedaço de galho de castanhola, que se desprendeu com a ventania, veio remando, remando, remando, lá do Serrote. Seria um grande navio troiano, com colônias e colônias de fungos; num efeito supersônico, voaria pela região mesmo, nas pequenas galáxias invisíveis, somente alcançadas pela visão da fé. Seria um tronco de carnaúba, que atravessou os sertões todos e boiou até se esfacelar na força da corrente, num efeito estelar.

Uns peixes se aventuram um tanto aflitos, encapuzados, grogues, pinotando naquele tremendo parque de diversões. Os pescadores estão prontos, levam varas e redes, anzóis e iscas, baldes e desejos. Dívidas. Os bichinhos fogem, pegam carona nos tubos doces, surfam no túnel de esgoto para se livrar dos predadores humanos. Outros se desintegram, enxergando cores que só eles, no vão noturno, entre plânctons, pedregulhos e civilizações. Aparecem em sonho. Voam ou alcançam a plenitude. Peixificam-se para a História.   

E, de madrugada, ressurgem pequenos e minúsculos e microscópicos e incontestáveis insetos, bailando, sambando, sendo eles mesmos. Vaga-lumes, muriçocas, besouros, mariposas: todos a postos para a Corrida do Sereno. Mas, espere. Isso tem que ser contado noutra hora.      



quinta-feira, 15 de março de 2018

No alto do Horto









Qualquer viagem a Juazeiro do Norte era um acontecimento honroso, uma festa, uma aventura no meu mundinho de criança. Subir a ladeira do Horto, tirar foto, acender vela, pedir bênção a Padim, comer pipoca de arroz, chupar pirulito, rir com as presepadas das figuras encontradas ao longo do caminho. Tocadores, rezadores, benzedeiros e comerciantes. Turmas, levas, grupos, penitentes, pregadores e romeiros. Cada um clamando por dias melhores, pela própria cura física, por mais fé, pela reabilitação de algum parente ou amigo, pela paz no mundo. E em coro silencioso, essencialmente redundante: chuva, chuva, chuva.

Primeiro, íamos a Missão Velha.  O nosso primeiro ponto de pouso era a casa de Iraci Furtado, nossa querida amiga, desde quando morou em Conceição do Piancó. Costureira exemplar e feirante, proporcionava à nossa pequena caravana um certo conforto: era conhecedora de todos os cantos, recantos e entrelinhas do comércio juazeirense. Perambulávamos um tanto. Por toda parte, gente vestida de preto, para homenagear o fundador da cidade, Padre Cícero Romão Batista, líder religioso e político da região. No ruge-ruge dos caminhantes, aparecia um conhecido, um conterrâneo, uma criatura pra dizer algo ou soprar um verso de ladainha. Burburinho. Cochicho. Plantões de butuca.

Em Juazeiro, em determinado período, também visitamos Tia Maria Lima de Assis, que decidiu viver seus últimos dias naquela cidade, especialmente no bairro São Miguel, para cumprir um combinado com o saudoso marido, Tio Vicente. Eita, Tia... Muitas histórias, bordados, batuques, carambolas e melancias. Uma crônica à parte.

No verde da praça principal, no Centro, chegava uma brisa gostosa e úmida do cariri. Brisa que ainda hoje sobe, desce, assobia e volteia a Chapada do Araripe, desenhando o clima do lugar, mais agradável do que a secura sertaneja. Por ali, por acolá, pelas ruelas que invadem o percurso, sons diversos, entre eletrônicos e chamarizes para compras, choros, gritos, gaitadas e risos. Espaço coalhado de emboladores, violeiros, repentistas e cordelistas, compartilhando suas expectativas com os artesãos, sedentos para exibir a criatividade do povo, da cultura que nasce da raiz do coração.

Toda essa viagem escrita aqui e agora reacendeu durante a leitura de “Guerra ao fanatismo: a Diocese de Cajazeiras no cerco ao Padre Cícero”, do meu amigo escritor Francisco Sales Cartaxo Rolim. Além da rica bibliografia que serviu de base para o ensaio, coube na obra a visão crítica de um cajazeirense aplicado. A pesquisa se arquiteta num estudo cuidadoso sobre a transição do século XIX para o XX, com os detalhes da fronteira: Paraíba e Ceará, Ceará e Paraíba.

A narrativa provoca o leitor para estudos perpendiculares sobre fenômenos sociais, a exemplo do coronelismo, do banditismo, do cangaço, e questões de gênero, envolvendo a Escola Normal do Padre Rolim. Ainda podemos encontrar um prato quente sobre a imprensa católica e a nobre trajetória de Dom Moisés.

Um presente e tanto. Um convite para pensar.  Um convite para lembrar. Cada momento aboia nos meus ouvidos, bate no trinco da cancela de Olho D’Água do Melão pra dentro. Cada momento chega sem aperreio, na Rural de Seu Zé de Joca. Na trilha sonora, Gonzagão. Sempre.