terça-feira, 3 de setembro de 2019

Conceição do Piancó






Mistérios tantos, mistérios de todas as formas. Conceição. Começa logo pelo nome, dedicado à Maria, mãe de Jesus, Nossa Senhora da Conceição, consagrada em diversas religiões adeptas ao Cristianismo, há mais de dois mil anos. A igreja matriz, imponente em sua construção, procura dar conta dessa homenagem. Aos fundos da grande obra, aparece um rio, que poucas vezes vi cheio, num curso de trabalho e harmonia. No mesmo cenário, coqueiros finos, de estatura entortada, uns vinte metros de estranha exuberância.

O calor da cidade sufoca. O vento demora a descer pelas cordilheiras imperceptíveis do vale, o Vale do Piancó. Vivo sempre a impressão geográfica de que as correntes ventosas, estonteantes, passam bem longe, lá por cima, deixando o vale sozinho, entranhado de secura. À noite, quando os grilos começam a sinfonia sertaneja, ao mesmo tempo o silêncio assusta e o escuro das vielas espera o frio ameaçador para os desavisados. Frio de deserto, que aparece com toda a sua força no despertar da madrugada. Assim é Conceição, na memória dos meus sentidos.

O melhor, no entanto, acontecia na rua Coronel José Peixoto de Alencar, Centro da cidade, na casa de Vovô e Vozinha. Um mundo encantado. Eu e Christiano desfrutamos muito desse doce império.

Vovô, Vicente Ramos de Lima, proprietário de uma barbearia, que muito eu visitava, malinava nas coisas e levava croque e carão. Carão bem explicadinho. Vozinha, Marina Oliveira de Lima, proprietária da delícia dos picolés de saco, os dindins; da almofada de fazer renda; de metros e metros de rendas, bordados, singelezas e crochês, além de finas aplicações em tecidos; de uma receita de galinha de capoeira que nunca foi copiada.

Titia Nina, a professora Ivanilda Oliveira de Lima, crochezeira fina, proprietária de LPs que adornaram meu imaginário e foram fundamentais para a minha vida cultural. Os preferidos: Ivanildo, o Sax de Ouro (Coletânea); Trio Nordestino (Corte o Bolo); Clara Nunes (Clara). Aqueles guarda-roupas com cheiro de talco sempre foram cuidados por ela, minha única tia materna, que sempre me encheu de presentes, além de e beliscões e sermões muito necessários. Ela ainda está lá, com meu Tio Evando, os guardiões dos mistérios da casa. Guardiões das pegadas invisíveis de Vovô e Vozinha, que há algum tempo moram no além da vida.

Cada trecho, cada parede, um encanto: a vitrola, o rádio, o petisqueiro, a cadeira de balanço, o tacho de ferro, a farmacinha, o pote com biscoito maisena, o garrafão de louça azul, o garrafão de louça marrom, a mesinha de centro, os potes de barro. A despensa. Ainda estão na minha cabeça: a gramínea, o galinheiro grande, o galinheiro pequeno, o pé-de-romã, os pés de bom-dia e boa-noite, o coqueiro mais velho, o coqueiro mais novo, o pé-de-pingo-de-ouro. Ainda estão: as lagartixas, os gatos da vizinhança, as muriçocas, o feijão gordo e vermelho, o arroz sempre branco e grudado, a farofa de cuscuz de milho com a gordura da galinha, o leite fervido duas vezes seguidas, a coleção de Jorge Amado na estante, as malas de chão, o oratório. O fogão a lenha desativado, mas intacto, como um totem.

O medo da pistolagem, os roletes de cana. Os tecidos da loja de Seu Pitanga, o Beco da Pimenta, o Armarinho de Ferreira. Macaúba, pitomba, goiaba, ciriguela. Os segredos. Milhões de segredos. Fofoca, fuxico. A estrada de barro, a viagem de quase cinco horas. O asfalto, a PB 400. A família Leite Braga. Os Caititus. Os Pires. As velhas amizades. Os tios e tias, os parentes e aderentes, os compadres e comadres. Os primos legítimos, segundos e terceiros. O pessoal da Mata Grande. Transparaíba: Seu Zé Damacena. A veraneio de Neudinho. O forrobodó da esquina: sanfona, zabumba, triângulo, pandeiro e reco-reco. Os velórios, as missas, as novenas e ladainhas. O pastoril azul, o pastoril vermelho. Os mistérios. Conceição.    








Mistura de bom-dia e boa-noite e quebra-pedra

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Ao vivo no rádio





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Minha primeira experiência radiofônica foi amadora e ao vivo. Eu costumava visitar a rádio Patamuté FM com minha prima, Dulcineide Quirino, pra bater papo com Beta, a tia dela. Beta, Betânia, muito querida com seus olhos esverdeados, era recepcionista. Naquelas idas e vindas, eu ficava vidrada no que o fenômeno rádio já traduzia pra mim, desde que me entendia por gente, brincando nas calçadas da Rua Coronel Justino Bezerra. O rádio se instalou no coração.

Passou-se um tempo. Num hiato de trancamento de curso na UFPB, resolvi pedir um espaço ao diretor de programação da FM, Wilson Furtado. Pedi pra fazer um teste. Passei. Não era somente testar a voz e a desinibição ao microfone, compreendendo que muitos me ouviam onde a onda alcançasse. Tive que aprender a mexer nos controles. Zé Nilton teve muita paciência pra me ensinar. Mexer nos botões não me interessava muito. Minha intenção, na verdade, era que a rádio voltasse a apresentar um programa que eu gostava: o Rock 94, nas tardes de sábado, das 15 às 17 horas. Rocha, agente da Caixa Econômica Federal de Cajazeiras, brilhantemente apresentava. Ali ele era o Rocha Rochedo, vocalista também da banda Apocalypse. Peça rara, o locutor e cantor havia sido transferido pra uma agência bancária em João Pessoa. As tardes de sábado não eram as mesmas.

Meu objetivo não era imitar Rocha nem mesmo conseguir um emprego. Nem de longe. Na minha doidice dos meus dezenove anos, eu queria mesmo era viver o rádio, respirar um pouco do rádio. Sentir o clima. Queria apresentar um programa, curtir o rock e fazer com que o povo ouvinte curtisse a minha seleção musical. Com auxílio do amigo Nonato Saraiva, outro roqueiro sem fim, criei umas notas sobre o mundo do rock, falando um pouco de cantores, bandas e álbuns. Por influência do meu irmão Christiano Moura, a lista continha pérolas dos anos 70 e 80. Alguma coisa dos 90. Também arriscava uns 60. Era mais um reviver do que atualizar. Não tocava nada muito pesado, embora até gostasse de algumas coisas. Gostava sempre das mais conhecidas. Os invejosos poderiam dizer que eram as mais manjadas. Eu botava um pop no meio e dava certo.

Como era bom pedir que aumentassem o volume com os internacionais Dire Straits, Pink Floyd, The Smiths, Beatles ou os nacionais Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs. E os cantores e cantoras do gênero daqui ou do estrangeiro: Lulu Santos, Rita Lee, Raul Seixas, Billy Idol, Prince, Cindy Lauper. Uau. Como é bom relembrar. Nessa época, conheci Conrado, que já fazia rádio e depois mudou o nome pra Kaliel Conrado. Viramos bons amigos até hoje. 

Todos os sábados, um ouvinte ia lá na porta do estúdio e pedia pra eu tocar qualquer uma do Guns N’ Roses. Ele era muito fã da banda e às vezes se vestia com camisetas que exibiam fotos do vocalista, Axl Rose. Trabalhava numa loja de calçados. Menino atencioso e educado. Estava claro que o interesse dele não era em mim, mas na música. Tudo bem. Aí eu fazia a vontade dele e tocava uma mais leve da banda californiana.

Meu sábado estava, desse jeito, musical. Fiquei devendo tanta coisa: Jethro Tull, Nazareth, Yes, The Ventures. Também Mutantes e outros tantos que tocam e compõem rock no nosso Brasil alado e misturado: Zé Geraldo ou Zé Ramalho. Chico Science ainda era uma grande novidade. Estava mais do que provado que eu não dava conta desse painel de personagens.

Depois de alguns meses apresentando também O Som da Noite, um conjunto de músicas românticas, das 20 às 22 horas, voltei pra capital e fui terminar meu curso. Levei a vida mais a sério. Aqui vale um asterisco pra dizer que, à noite, o programa tocava até o que eu não queria muito, como José Augusto, Fábio Júnior, Sandra de Sá, Rosana, Fafá de Belém ou Roupa Nova. Tudo pelo sagrado direito do ouvinte. Lidar com essa democracia não foi tão rápido na minha cabeça. Mas, era ao vivo. Vivo, vivíssimo.

Eu tinha que fazer algo que até hoje tenho que aprender: ser ágil. Fazia, na minha velocidade, uma rápida seleção, já que não havia qualquer coisa gravada. Aí eu colocava umas melodias roqueiras no meio. Umas guitarras bem puxadas, do tipo baladas de arrebentar a memória afetiva. Scorpions, U 2, A-ha, INXS e um George Michael pra extrapolar o toque de romantismo. E pra lascar o cano mesmo, uma marcante do Pholhas. Almair Furtado e Léo Silva me mostraram onde os LPs ficavam e quais eram os mais pedidos. Parecia fácil. Mas, era ao vivo. Eu que me virasse.

Ao voltar pra Cajazeiras, em 1999, experimentei outro vivo, o jornalismo. Vivo e dinâmico, outro ritmo, outra pegada, outra Cristina. Aí a história mudou. Mudou completamente. Entrei na turma da Rádio Alto Piranhas AM. Comecei a reviver a amplitude modulada que conheci na infância: aquele barulho, aquela sintonia, aquelas canções, aquelas vinhetas. Estava tudo ali, bem perto.

Fazer jornalismo, ao vivo, no rádio, era outro compasso. Eu não atuava mais como disque-jóquei e quase repórter cultural. Era a vez de experimentar, de manhã, o Microfone Aberto, com José Anchieta e Fernando Caldeira, na apresentação, e Alberto Dias ou Francisco José, na parte operacional. José Antônio de Albuquerque, que na infância eu via na Escola Nossa Senhora do Carmo como o pai de Letícia, passou a ser meu chefe, meu colega, meu eterno professor.

O período em que fiquei no programa matutino, e em algumas participações como repórter no vespertino Rádio Vivo, foi um aprendizado e tanto. Até pista no programa esportivo, fui. Arnaldo Lima, Ivanildo Dunga e Edmundo Amaro botaram a maior pilha. Aguentei uma única vez, no Estádio Higino Pires Ferreira, num jogo amistoso do Atlético com convidados. Pista tem que ter pique. Vi que era tão cansativo, mas tão cansativo, que fugi. Do mesmo jeito que fugi de transmissões noturnas de carnavais.

O rádio, ao vivo, ensina. Não tem emenda. É na hora. Chapa quente. Pensar pra falar: ligeiro. Uma boa estratégia pra trabalhar o autocontrole, o domínio de si mesmo. Ao vivo parece mais contagiante, mais parceiro, mais próximo.

Tenho saudade desse ser vivo, que entra nas casas, nos estabelecimentos comerciais, nos automóveis, e conquista as pessoas. Quem sabe, um dia, eu volte a me alimentar dessa energia boa radiofônica. Não exatamente do factual. O factual é necessário, mas deixo esse prato temperado para os meus colegas mais experientes. Os mais afoitos gostam também. Sei que, se um dia tiver que ser, será vivo, ao vivo. No couro cru. Combinado? Combinado.          

sábado, 10 de agosto de 2019

Pabulagem







A pessoa que emprega o gerundismo está convicta de que inventou a roda. É a pessoa que se diz letrada, que caminha num passo diferente. É aquela que teve a chance de frequentar a escola, ao menos ter acesso aos livros didáticos, receber lições de regras e exceções da língua. Há exemplos desse tipo que, dependendo do estágio social em que se encontra, usa o gerúndio como se fosse um mérito da fala. Sim. Em geral, é utilizado ou mal utilizado na fala mesmo. O falante cria a imposição de uma norma que nunca existiu, pra carimbar um status, pra dizer que fala muito bem, que é excepcional, que arrebenta na oratória.

Vamos relembrar o gerúndio: um verbo inacabado. Melhor: forma nominal que apresenta uma continuidade. Algo que se processa na frase, não se sabe em que momento termina nem se sabe quando começou. Sem modo ou tempo específicos. Precisa de um amigo verbo auxiliar. Mas só um mesmo.

O equivocado falador do gerundismo bota pra quebrar. Diz assim: “Vou estar passando...” Bastaria: “Vou passar...” Pronto. Sem mistério. Mais econômico. Mas a pessoa gerundista usa o verbo ir e estar a rodo, de boca bem cheia, introduzindo o assunto. São os dois mais utilizados nesse tipo de confusão, como se fosse uma dupla inseparável, um par de jarros, o oxigênio e o gás carbônico da fotossíntese. A pessoa usa também plurais pra florear a oração, pra enfeitar ainda mais a pabulagem.

Sinceramente, diante disso, sou mais o falar qualquer do povo, da ponta da rua, da feira livre, da conversa sem compromisso, da extinção inconsciente da gramatiquice. O importante é entender e se fazer entender e conviver harmonicamente. Não existe falar errado. Conheço casos e mais casos de gente digna que fala como pode, utiliza a concordância que mais convier para o bom andamento da comunicação. Gente que teve que trabalhar muito cedo pra sobreviver. Gente que não teve a oportunidade de conhecer uma sala de aula, uma escola, um alguém pra ensinar.

Mas, caro leitor, fique certo de que tudo o que escrevi agora pode não servir daqui a vinte anos. O gerundismo pode virar regra ou uma convenção pacífica. Aquele jeitinho manhoso: já que todos estão indo, ah, então, vamos. Talvez dentro do balaio das leis que depois se desmancham como balas de coco: é fácil colocar um adendo, um parágrafo, um arabesco. É aquele puxadinho na construção.