quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O povo wiaóke II


 

Na minha frente, o mundo se abria, vertiginoso, dizendo aos meus olhos que tudo é um mistério voador. Um cheiro alegre e acolhedor me fez chorar pelas narinas. Era um espirro aos montes, rasgando e, ao mesmo tempo, abraçando-me por dentro. As cores eram gradativas: mel, coco-do-mato, algaroba.

Misturavam-se as vontades como o açúcar n’água e, à medida que se confundiam dentro do meu imaginário, ganhavam outros timbres alados: muçambê, erva-doce, ar-condicionado, papel novo... Eu ia ganhando sentidos também, pacíficos e ondulados, e nem notava a diferença de um para o outro. Certo segundo, aumentei de tamanho: acho que era de tristeza sólida. Não sei.

“É chorar e não poder”. Olhei para as descobertas, que eram cinco, e as estradas, que eram quatro. Um dos caminhos, sem começo ou trilha a ser seguida, foi estendendo as mãos. Foi aí que me assustei de curiosidade e arrepiei os dentes. Quando acordei, estava dentro de uma espécie de saco esponjoso, pendurado numa árvore imensa. Imensa, imensa, imensa: um desmantelo belo. Posso chamá-la até de gigante porque já era noite e vi estrelas de muito perto, quase cegando a minha euforia. De repente, atiraram no saco com um dardo cintilante. Caí numa superfície florida.

Ouvi, de longe, muito longe:

- Viô carpê vonde viô! Viô! Aaaaa... – alguém de voz grave e pastosa. Dava medo.

- Viô! – respondi, sem querer. A minha voz foi saindo em fios.

A voz do outro se transformou num badalo, imitando um sino de mosteiro. Badalava cada vez mais forte, aumentava e me deixava sem medidas. Sussurrei:

- Alguém aí pode responder?

Num disparo ameaçador, um clarão foi se agarrando ao céu. Espalhava-se no ar, como uma fumaça ocre, que ganhava minha simpatia, aos pedaços. Não acreditava nem na metade do que estava vendo. Depois de dois anos de seca, a região inteira tomava o banho da felicidade. Foi chuva por todos os lados.







Texto publicado no jornal Gazeta do Alto Piranhas (maio/junho/1999), Cajazeiras-PB.

domingo, 16 de setembro de 2012

Vitrine




Estes são alguns elementos sedutores da feira de Campina Grande, Paraíba. Os bolos ficam numa vitrine instalada num simples quiosque de zinco e madeira. O lugar também vende pastel, caldo de cana e outras atrações. Na vitrine, viajei. Os bolos estavam ali me olhando. O primeiro à esquerda, na prateleira de cima, é de leite. Bolo de leite ou baêta. Não sei a origem da palavra baêta, mas já vi como sobrenome. Tem um aspecto mais português do que italiano. No sertão, o bolo chamado de leite consiste em repetir a receita básica de bolo fofo, com farinha de trigo, açúcar, manteiga ou margarina, fermento em pó, ovos e leite. O diferencial é o aumento na cota de leite. Se um fofo normal pede duas xícaras de leite, o bolo de leite ou baêta pedirá umas quatro ou cinco. Nunca fica esfarelado. É encorpado, grosso. O revestimento é uma casca marrom dourada e um pouco crocante. Não posso mentir, dizendo que não tem muita gordura. Tem, sim, bastante.

Fazia um bom tempo que eu não escrevia crônicas, muito menos sobre comida. Agora estou na fase de escrever sobre comida. Vi esta foto, tirada em janeiro deste ano, e imaginei as receitas. O bolo vizinho ao baêta é de chocolate. Junto com a receita básica, há uma quantidade de chocolate em pó. O recheio é variável, mas feito com chocolate e leite condensado. Há quem acrescente creme de leite. Dependendo do bolo desse tipo, caso seja bem doce, basta uma colher para me satisfazer. Não sou chocólatra.

Vamos à vitrine. Abaixo, à direita, com essa crosta queimadinha por passar mais tempo no forno, é o de milho, meu preferido dentre milhões. Bolos e mais bolos de milho, receitas e mais receitas são apreciadas por mim. Quando conheço a cozinheira ou a boleira, discuto a teoria e a prática. Se possível, passo vários minutos aprendendo a metodologia. O milho é algo milenarmente associado ao meu imaginário nordestino. O problema é que, caso exagerado no meu paladar, provoca um inchaço no estômago. Bolo de milho verde, molhadinho, com o gosto do milho verde mesmo, é uma realização. Broa de milho, mais enxuta, com toques de erva-doce, é uma satisfação. Café ou café com leite para acompanhar.

Bolo de milho feito com rapadura e pouquíssimo leite, pitadas de cravo e canela, é uma receita da minha família, do lado paterno. Talvez tenha vindo da bisavó, Isabel Correia. Depois, continuada por minha avó, Maria Félix. A receita é perpetuada atualmente pela filha, Tia Netinha. Agora estou tentando ser a quarta geração. Fiz esse bolo no mês de junho, o mês consagrado a comidas de milho. Ficou um pouco seco, mas não sobrou um só farelo na festa junina do sítio. Faltou, talvez, segundo minha tia, jogar na bacia o leite ainda morno, em cima do farelo de milho pré-cozido. O farelo é aquele de fazer cuzcuz. O farelo é colocado, junto com a rapadura derretida, para descansar, por isso um gosto diferente. Esse esquema de descansar, esperar ou reservar é fundamental em certas receitas. Eu tinha preconceito com isso, até que aprendi o mistério.

Mas, vamos voltar à foto. O outro bolo que aparece na vitrine é de coco, coberto com um creme de açúcar e limão e umas raspas de chocolate. Bolo de coco, assim de verdade, especificamente, pra valer, ainda não fiz. Até senti vontade, dia desses, mas só se fosse com coco verde, ralado, natural. Não quero aquele do pacote, do supermercado. Um dia comi um bolo de coco verde na casa de Tia Maria, tia da minha mãe. Ela fazia umas iguarias inesquecíveis. Agora deve estar bordando seus panos coloridos em algum lugar do além. Na casa dela, a geladeira branca e azul, arredondada nas pontas, tinha uma alça longa de metal vazado para abrir; em cima, um pinguim tocando pandeiro. Era difícil não olhar aquele monumento na cozinha. Que saudade. Na avaliação de Tia Maria Lima, frango, por exemplo, tinha que ser comido com as mãos, os ossos bem roídos, sem cerimônia ou qualquer regra de etiqueta e frescura. Aliás, frango é um prato que preciso empreender mais. Dia desses, troquei umas receitas com umas amigas: alecrim, azeite, molho shoyu e outras coisas diversificadas para saborear a ave. Hoje, porém, é dia de bolo.     

domingo, 17 de junho de 2012

Ploft


Sinto pena do vendedor de sonhos. Sinto pena dos sonhos. Peço desculpas por estar sentindo pena, pois pena é falta do que fazer. E foi, sem ter o que fazer, que fiquei, quando percebi o rapaz vendendo alguma coisa encantada.

Não eram sonhos - aqueles pãezinhos doces, recheados com um creme bem amarelinho e gosmento. E nem eram os filmes que a gente vê quando costuma dormir; filmes tão traduzidos pelos psicanalistas. Eram estradas para milhares de amanhãs: um amanhã aqui, ouro ali; um amanhã-ilusão; um amanhã de ideias. Amanhã. E foi assim que eu me senti: um tremendo amanhã, repleto, ornamentado de penas sem pássaros.


Como é ruim estar de penas - é como estar de pêsames, talvez. Quando olhei o vendedor, fiquei realmente sem o que fazer e, depois da falta do que fazer, veio a pena. Preste atenção ao sentir qualquer pena: o mundo, ao seu redor, vai se descascando, você se diminui, vai ficando anão, pequeno, minúsculo, microscópico... até sumir. E sumi. Ploft. Sumi. Quem estava perto de mim, na hora, não entendeu ou deve ter pensado em milagre, magia e outras estranhezas que explicam o que não merece ser explicado.


Bom, mas, quando sumi, fui parar lá. Lá, dentro do sonho vendido pelo rapaz - com seus trinta e tantos anos, ainda rapaz, pai de família ou não, e ainda assim, rapaz. Ele vendia bolhas de sabão. Custavam um real. O cliente pagaria um real e receberia um punhado de sonhos que sairiam de uma geringonça de plástico: um bichinho telletubbie segurava um canudo que, enrolado, fazia um círculo. Quem soprasse no canudo embebido de uma solução de água e sabão, tranqüilamente, veria sair do tubinho uma porção de bolhas. Dependendo da qualidade do sabão e do cliente-soprador, sairiam, no mínimo, vinte bolhas de uma só vez.


E as bolhas percorriam o pouco ar que encontravam, estouravam nas pessoas, nos carros, nas árvores. Porque a finalidade da bolha não é voar, e sim, estourar-se. E numa anti-destruição ou numa sobrevivência curta de uma bolha, lá estava eu, presa naquela coisinha lisa, transparente, mas colorida. Eu nem era gente, nem era bolha, nem era vento, nem era sonho. Eu era, naquele instante, a coisificação da pena que senti. Pois sentir pena é, de imediato, tomá-la pela coisa – a partir daí, você é sugada por todas as sensações juntas.


Só voltei ao meu estado humano quando decidi comprar um instrumento de sonho. Pensei: "É mais confortável assistir ao desmanchar de bolhas, a ter que assistir ao meu desmanchamento". E não sei o que aconteceria se, na mesma situação, eu sentisse pena de mim. Talvez não entrasse na bolha outra vez. Talvez me transformasse em pedra - material de que não são feitas as bolhas, e nem mesmo o futuro. 




Gazeta do Alto Piranhas (Cajazeiras-PB, 2000)/A União (João Pessoa-PB, 2006)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Um tom quase dourado


Sem pedir licença, Alice foi logo subindo no palco, pegando o microfone e falando que era aquilo mesmo, um por todos. Queria ser a presidente da turma, naquele dia vestiu-se de preto, queria dar um mote fechado e introspectivo, não sabia que era feriado. Estava lacrimejando porque um colírio havia perturbado a sua tarde daquela quarta-feira. Sim, quero ir, disse ela. O semblante do vestido se quebrava um pouco com o brinco amarelado, um tom quase dourado. Queria brilhar, mesmo assim. Aliviava a vontade desengonçada de Alice, que nem sabia que assim se chamava em homenagem à menina das maravilhas. Queria buscar algo melhor para todos, dizia aos colegas. Queria se firmar mesmo como presidente, organizar bingos e manifestações. Queria mesmo se sentir participante de uma fatia do poder da escola. Quem sabe reivindicar a quebra do monopólio da lanchonete. Alice chorava, mas reclamava de cada lágrima. Dizia que estava chorando porque era forte. Dizia que chorar era um exercício que havia aprendido com a professora de matemática. Explicava logaritmos e ninguém mesmo queria saber e ficava a explicação, aquela, sem perguntas. Não se conformava em contar somente com seus onze anos de idade. Escrevia cartas à direção da escola. Nem mesmo imaginava ser tão semelhante à menina do tal país que abrigava um coelho sempre atrasado. Naquele dia cívico-militar, apaixonou-se pelo tocador de pratos da banda da loja maçônica. Só por ele lembrar um toque chinês de um certo samurai que havia visto em filme. Ela nem sabia que era assim. Sempre em sintonia de indefinição, suspensa nas árvores das ideias, em tom de charada. Alice não era fácil. Não era mesmo. Aquele sorvete de morango que sujou o vestido parecia todo o culpado.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A música secreta das árvores

























Naquela tarde, ouvi uns violinos por entre os carrapichos. Não sei se eram as hospedeiras, fazendo uma petição sublime ou se eram mesmo os pirilampos, treinando as luzes para o anoitecer. Ao mesmo tempo, soavam os clarinetes, acenando um diálogo simples das folhas caindo e das outras nascendo. Por ali, uma turma de lagartos, fungos e besouros ouvia pacientemente. Todos em reverência ao Sol se alinhando no horizonte para recompor outra canção, em outro lugar. Naquela tarde, vivi a certeza de que as flautas estavam realmente guardadas nas copas das árvores, à disposição de algum passarinho que ainda não aprendeu a tocar sua própria melodia. Na beira do rio, as harpas festejavam a correnteza. 




domingo, 19 de fevereiro de 2012

Açude Grande em janeiro


Cajazeiras (PB), janeiro/2012


Paisagem mutante de todo dia
Namoro, mosquito, viagem
O sertão que é mistério, horizonte.