sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Um doce de presente










        Certo mês de agosto, aproveitei a data de aniversário de Dona Zefinha e fiz um doce que ela tanto desejava. Ouvi dizer, por algum lugar, que receita de doce é uma ciência exata. Não se pode acrescentar ou diminuir por conta própria. Seguir o olhômetro ou adivinhar. Receita de doce é quase gramatical, ou seja, segue algumas regras. Sim, possui exceções, mas devemos primeiro entender o que é ordenado. Assim eu fiz um doce com morango. 

        Aproveitei o tom exótico do morango nos ares sertanejos para fazer a alegria da minha amiga leitora exigente. Ela admirava temas exóticos, objetos exóticos, embora cultivasse sempre os clássicos. O doce era simples, mas elaborado com certa delicadeza. Consistia em esquentar uma medida de leite condensado, uma lata de 395 gramas, com duas colheres de margarina ou manteiga sem sal. Eis a parte extremamente exata, como as contas do rosário de Zefinha Ricarte, rezadas todas as noites. A outra parte da receita é intuitiva, quando se está mexendo o material na panela e se sabe o momento de dar o ponto.

         Esse negócio de ponto no doce não é somente equilátero. Tem uma porção de emotividade. Assim era o tratamento da aniversariante comigo: um pouco de razão e outro tanto de emoção. Com meus textos, era uma crítica ferrenha. Se não gostasse, dizia, na primeira ocasião em que me encontrasse. Perguntava de onde eu havia tirado aquele personagem ou por que eu havia construído tal ideia. Apesar disso, sempre respeitou as minhas inspirações ou teorias. 

        Mas, vamos falar da receita. Deixei o preparado de leite condensado esfriar. Lavei cuidadosamente os morangos, tirei o talinho. Fiz as bolas com o doce. Inseri o morango. Preferi não polvilhar com açúcar granulado. Salpiquei um pouco de açúcar refinado. Pronto. Rendimento: trinta unidades. 

        Saboreamos o presente, que durou alguns dias na geladeira da casa dela. Aquela casa, em frente à Matriz de Nossa Senhora de Fátima. Lugar melhor não havia para ela. Zefinha era devota do universo divinizado. Recebi inúmeros conselhos, orações, palavras de fé e carinho. Santa Terezinha era sua guardiã oficial. Depois de Jesus, é claro. Depois também da Virgem Maria. São José tinha um lugar sagrado. Ah, e São Francisco de Assis, voto exemplar de humildade. 

        Fiquei sabendo que uma foto que tirei ao lado dela estava guardada no oratório da casa. Fiquei muda, por um bom tempo, pensando. Pensei. Pensei em como é importante uma pessoa contar com um lugar no oratório de outra pessoa. Por um instante, me senti rodeada de anjos e santos, trombetas acionando todas as notas musicais, o perfume da manhã nascendo. Senti minha cabeça imantada de energia. Em seguida, numa fração de milésimos de segundos, voltei ao meu estadinho normal, super normal, de ser humano imperfeito e repleto de contas a acertar com Deus.   

        Esse é meu mundo de lembranças. Não fui aluna de Zefinha. Não sou fluente em datilografia. Não fui obediente ao terço diário, como ela tanto me pedia. Mas, estou aqui. Estou aqui, feliz por ter merecido entrar no seu rico e seleto oratório. Amém.  


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

domingo, 17 de março de 2013

Dona Tonha achou pouco




 

Fragmentos de cores, cores diversas, açúcares, azedumes, todas as cores. Não tão ácidas, mas como a cor da laranja que rendeu um suco. Um suco na casa de Dona Tonha, com direito a foto, com direito a ver e sentir aquela outra cor, a do céu, imediatamente cinza. O imediato se deu com outra cor, uma silenciosa por entre as leis de uma cor, a transparente. A água, a chuva. Sente aqui no terraço, disse ela, sente aqui para esperar a chuva passar. Tome um cafezinho. Ela achou pouco e me mostrou a cor de uma cadeira enferrujada. Também a cor de uma blusa manchada por suco de caju. Também a qualidade da cor dos tomates plantados por ela própria. Achou pouco e me mostrou toda a horta. 

Nas proximidades da casa, uma cor estranha, a do burro. Encostada numa ripa, a carroça, embaixo daquele céu cinza e de uma chuva que não dava trégua. Está trabalhando, perguntou. Um carro ia passando. Dona Tonha achou pouco e quis saber a origem do meu sobrenome. De quem, perguntou. Um cheiro de panela queimando, problema resolvido, desligue o fogo. Dona Tonha achou pouco e me ensinou a receita do doce de banana que estava no fogão. 

Ouvi aquele clássico escorrer d’água. O burro, amarrado num poste de madeira, umas latas de tinta por perto. Toda a agilidade de um formigueiro me entendia. Dona Tonha achou pouco e assanhou as formigas. Veneno. Chega de pestes, chega de pragas, foi espalhando o remédio. Operação de guerra no formigueiro: o comandante do exército determina desocupação da área. Urgente. Dona Tonha achou pouco e quis saber do meu cabelo. Ensinou-me um chá. Esse é batata, esse não engana, o cabelo não cai mais. 

Não sei se eu bebia o café de uma vez só ou se apreciava a cena chuvosa. A cidade sem chuva há um mês. O burro relinchava, paciente. E eu esperava o céu abrir, mudar de tom, migrar de cor. Meu relinchar se fazia quieto. Dona Tonha achou pouco e quis perguntar sobre meu silêncio, meu esperar.

Minha irmã trabalha no posto de saúde, faz limpeza, gosta de lá, não bebe café, mora do outro lado do outro quarteirão, fez uma cirurgia de catarata, é ainda jovem mas sofre das vistas, já foi mordida por uma coral, antes de dormir reza o rosário. Dona Tonha descreveu, descreveu. Achou pouco, repetiu. Ainda achando pouco e bem menos, contou sobre o irmão e repetiu.

A garrafa inteira havia acabado. Outro café, outra garrafa, outras cores. Lá vieram os tarecos. Um bolo de macaxeira. A chuva avançando, um trovão sendo temido. Era uma pequena tempestade com a função mística de sacudir a terra, os telhados, os cabelos, as galinhas. Passar um frio. Passar oitenta anos. Dona Tonha parecia velha, se achava também. Mostrou o bordado que ganhou da afilhada. O burro com olhar de aviso. Antônia dos Anjos, Tonha, explicou duas vezes seguidas. Tentou explicar sua aptidão para a música, coisa de nascença.

A cor do tareco impressionou mesmo. Duas vezes seguidas é um sinal, disse, ao falar do relincho. Mais café. E sentamos no alpendre. Queria se certificar do céu ficando azul claro de novo. Azul de lindo. Dona Tonha achou pouco e me levou até a porta.   







Texto publicado no jornal A União (João Pessoa-PB/2006)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Orientação


Felicidade é fruta madura
Ética da natureza, festejo, sinal:
Cajueiro florido. 
















Zona rural de Puxinanã-PB (jan/2012)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Recado de verão


Hoje acordei querendo fazer um poema. 
Hoje acordei querendo ouvir passarinhos 
mas foi o sol que senti 
no meu ouvido 
dizendo para eu acordar 
andar 
escrever o destino. 

Ele apareceu em tons dourados e fortes 
dizendo tudo. 

Um calor pulsante 
próprio da vida. 

Um sinal que respira 
pensa 
acalenta.

Ele apareceu 
me chamando nas palavras. 

Ele mesmo 
escrevendo 
sendo poesia.