sábado, 28 de novembro de 2015

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Gato no jardim










Acrílica sobre tela - 40 x 40 cm - Agosto/2015

Intertexto para Gonçalves













    Minha terra tem pau d'arco
    onde cantam os bem-te-vis
    as aves tão sertanejas 
    misturam-se sem rima

    Imponentes ingazeiras
    Frondosas oiticicas 
    juremas que atraem anuns
    cactáceas todas poéticas  

    Beleza estranha à prova 

    Gonçalves Dias, aviso
    cumpro o exercício de antes:
    a palavra vem nascendo 
    como a fonte que salva do exílio.










sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um mapa selvagem





Com fome, o pequeno Anari se pôs entre as estrelas das árvores-de-avainha e correu, como se então o seu complexo de sementes não o fosse. 

De dentro do arrebol, rios se propagavam, enquanto Dona Ata’Darrinaã gritava entre os pulmões. 

- Anari, jê vi condon coquetabo. Há ná, Anari! 

E borboletas de saanha em pântalos oestes, ferveram, pegaram fogo, enquanto. Enquanto Anari se jogava no portal. Anari se ria, seus pelos da cabeça se entrelaçavam e se alegravam com um horror sem carinho. De posse de um mapa selvagem, Anari morreu sozinho. Até hoje.   





João Pessoa, julho/2002



quinta-feira, 12 de março de 2015

Baião







De dois, da gente 
Trabalho e força
Banquete certo. 





                                                      






domingo, 8 de março de 2015

A sensacional giganteza





Um dia na Bica, dois cágados livres. A velocidade deles, somente deles, naquele domingo com menos crianças do que o previsível, debaixo de um céu nublado. Corremos todos, mas éramos poucos, para ver outros dois cágados. Como se desvendassem alguma coisa, na terra, perto da castanheira. Assustaram-se. Com o quê? Assustaram-se. Comunicaram-se por olhares, um tônico, outro tácito. Na frente, um soluçando. O outro? Espirrando, cremos. 



Não sei se vou contar sobre o som daquele dia, na Bica, nublado, cágados livres e assustados. Um enfezado, outro sonso. Um rabugento, outro treteiro. De longe, um parecia pedra. Outro, besouro. De perto, um parecia toca. Outro, folhagem. Assustaram-se.  Ficamos todos assustados, éramos poucos, tão assustados com o desenrolar daquela observação. Uma lagarta, logo ali, alguém disse. Foi o suficiente. 



Os cágados assustados, muito mais assustados, não decidiam. Um agressivo, outro meticuloso. Um logo ali, espiando. Fingimos não acreditar que passamos quase duas horas em conferência sobre o comportamento dos quatro, um aparentemente robusto, outro aparentemente franzino. Outro até simpático. Outro até nem tão hipocondríaco. Saber o que se passa por entre a casca e o corpo? Um talvez incisivo, outro talvez paciente. Sim, pois é, um biônico, a ponto de se heroificar. Outro, mais perto, ainda mais rápido, tão rápido e chegando a um quase apelo. Estou falando de olhares. 



Esqueçamos, por enquanto, os caminhares. Ali, vários temas para a nossa conferência dominical, algo similar ao não ter realmente o que fazer de mais estressante ou mais sério. Não é de fogo a lagarta, alguém gritou. Cada um que queria ser mais biólogo do que outro. E sempre algum arriscava de conhecer o ecossistema tal e plum. E sempre outro dizia que leu numa revista especializada em xis e tchum. Ou viu em algum canal de TV, algo assim e coisa e rapadura com côco. Ou alguém tinha visto algo inédito, surpreendente, magnífico ou apocalipticamente supra e total da sensacional giganteza da informação, para falar no mundo maravilhoso do bicho zê ou quê num cativeiro de não sei de quem. 



Após tantas atrocidades com a nossa própria capacidade de pensar, um dos cágados se escondeu. Não saía mais, para nada. Na própria casca, planejava. Não esperamos para entender se o plano deu certo.  





João Pessoa-PB, 2002 














quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Hera


















Era a hera 
o segredo
era ela
o novelo.

Era o silêncio
o cochicho
o bodejo.

Em plena hera
tudo existia.