domingo, 17 de junho de 2012

Ploft


Sinto pena do vendedor de sonhos. Sinto pena dos sonhos. Peço desculpas por estar sentindo pena, pois pena é falta do que fazer. E foi, sem ter o que fazer, que fiquei, quando percebi o rapaz vendendo alguma coisa encantada.

Não eram sonhos - aqueles pãezinhos doces, recheados com um creme bem amarelinho e gosmento. E nem eram os filmes que a gente vê quando costuma dormir; filmes tão traduzidos pelos psicanalistas. Eram estradas para milhares de amanhãs: um amanhã aqui, ouro ali; um amanhã-ilusão; um amanhã de ideias. Amanhã. E foi assim que eu me senti: um tremendo amanhã, repleto, ornamentado de penas sem pássaros.


Como é ruim estar de penas - é como estar de pêsames, talvez. Quando olhei o vendedor, fiquei realmente sem o que fazer e, depois da falta do que fazer, veio a pena. Preste atenção ao sentir qualquer pena: o mundo, ao seu redor, vai se descascando, você se diminui, vai ficando anão, pequeno, minúsculo, microscópico... até sumir. E sumi. Ploft. Sumi. Quem estava perto de mim, na hora, não entendeu ou deve ter pensado em milagre, magia e outras estranhezas que explicam o que não merece ser explicado.


Bom, mas, quando sumi, fui parar lá. Lá, dentro do sonho vendido pelo rapaz - com seus trinta e tantos anos, ainda rapaz, pai de família ou não, e ainda assim, rapaz. Ele vendia bolhas de sabão. Custavam um real. O cliente pagaria um real e receberia um punhado de sonhos que sairiam de uma geringonça de plástico: um bichinho telletubbie segurava um canudo que, enrolado, fazia um círculo. Quem soprasse no canudo embebido de uma solução de água e sabão, tranqüilamente, veria sair do tubinho uma porção de bolhas. Dependendo da qualidade do sabão e do cliente-soprador, sairiam, no mínimo, vinte bolhas de uma só vez.


E as bolhas percorriam o pouco ar que encontravam, estouravam nas pessoas, nos carros, nas árvores. Porque a finalidade da bolha não é voar, e sim, estourar-se. E numa anti-destruição ou numa sobrevivência curta de uma bolha, lá estava eu, presa naquela coisinha lisa, transparente, mas colorida. Eu nem era gente, nem era bolha, nem era vento, nem era sonho. Eu era, naquele instante, a coisificação da pena que senti. Pois sentir pena é, de imediato, tomá-la pela coisa – a partir daí, você é sugada por todas as sensações juntas.


Só voltei ao meu estado humano quando decidi comprar um instrumento de sonho. Pensei: "É mais confortável assistir ao desmanchar de bolhas, a ter que assistir ao meu desmanchamento". E não sei o que aconteceria se, na mesma situação, eu sentisse pena de mim. Talvez não entrasse na bolha outra vez. Talvez me transformasse em pedra - material de que não são feitas as bolhas, e nem mesmo o futuro. 




Gazeta do Alto Piranhas (Cajazeiras-PB, 2000)/A União (João Pessoa-PB, 2006)