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Ruas Colagem Papel reciclado sobre papel A4 |
quinta-feira, 18 de julho de 2019
sábado, 13 de julho de 2019
quinta-feira, 6 de junho de 2019
O pingo d’água
Pouca gente dá importância ao acento grave. É o que nomeia o
fenômeno da crase. Aquele mesmo: quando o verbo exige a preposição a e o
próximo elemento é uma palavra feminina, que exige o artigo a. Juntando os
dois, o compasso é craseado. Ocorre que, no texto anterior, errei a crase. Isso
mesmo. Construí indevidamente um prédio de tijolos de açúcar, num terreno de
algodão. A chuva alagou. Passei a semana pensando nessa minha façanha torta.
Para quem vive da palavra, é um erro que, se descoberto
depois, martela, martela, martela. Bate na consciência. Aquela batidinha de
valsa, que parece elegante somente aos ouvidos, mas chama para dançar. O erro
martelou. Não vou dizer que é imperdoável porque existem coisas piores. Mas não
foi bonito. O pingo d’água foi se multiplicando e abriu esta cratera de parágrafos
que você está lendo.
O acento é uma situação bem escorregadia: aquele pedido de
namoro do menino de quinze anos. Pense. O mundo tecnológico, em alguns casos,
não aceita e interpreta como lixo eletrônico. Quando corrijo redações e outros
textos, noto que sou mais condescendente com o esquecimento dos acentos em
algumas palavras. É um pecado menos tóxico. Sou mais rente com as concordâncias
verbo-nominais. Sonho em ser mais incisiva com certas opiniões, mas o jogo
democrático me obriga a respeitá-las. Se for caso de polícia, tem nada não: a
gente liga 190.
Acento, sinal gráfico, tracinho pra lá e pra cá. Não são
meros adornos. Merecem cuidado e atenção: guiar na pista molhada, achar o ponto
do brigadeiro. Alguns, entretanto, já desapareceram. O trema, por exemplo, é
uma marcação extinta na Língua Portuguesa, na reforma ortográfica mais recente.
Talvez volte na próxima, daqui a uns vinte anos. Fico pensando. Fico me
perguntando o que farão com o grave da crase. Fico me perguntando o que farão
com o circunflexo, o famoso chapeuzinho. Meu primeiro nome: Ivânia. Raríssimo
alguém me perguntar, quando pergunta meu nome completo, se tem acento. O hífen
é outro sinal, que não é acento, mas arma ciladas. Creio que desapareça.
Estou falando do nosso idioma e com todo o respeito do mundo
pelos sinais gráficos dos outros. O alfabeto árabe, por exemplo, é repleto de
apóstrofos. O grego parece um desenho, de tão volteado. O africano é uma
infinidade de códigos, pois é uma infinidade de povos. O guarani tem um charmoso
til no ípsilon. O eslavo apresenta um circunflexo para cima, ou seja, ao
contrário do nosso, que pode operar em consoantes. Os ideogramas chineses são
junções de imagens da natureza. Os exemplos são múltiplos. Há línguas que já se
foram, mas suas características aparecem entranhadas nos dialetos. E há
palavras perfeitamente inteligíveis sem qualquer vogal. É isso aí. É o mundo.
Imagem: Freepik
quinta-feira, 23 de maio de 2019
Desde meninota
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Janelas/20 x 29,5 cm/Colagem - papel sobre papel/Abril - 2016
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Caro
Cleudimar, bom dia. Seja em qual horário for, é bom dia, é dia de saber que a
vida continua. Esta crônica-carta veio com certo atraso. Mas, em se tratando da
palavra escrita não-factual, que é meu caso aqui e agora, é sempre tempo de
escrever, é sempre tempo de abandonar um pouco o calendário e o relógio para
manter algo palpável e durável para daqui a quantos anos forem possíveis.
Cleudimar
Ferreira publicou um texto no seu blog Cajazeiras de Amor. O artigo também foi
publicado no blog Coisas de Cajazeiras, do meu irmão Christiano Moura. Isso foi
em março de 2016. Como em História, para o pesquisador, o que estiver dentro do
período de cem anos é considerado bastante jovem, estou no lucro.
Tomei um susto
logo no título: A arte de Cristina Moura promete. Fiquei em dúvida se essa
promessa seria concretizada logo. Fiquei me perguntando, exaustivamente, se a
promessa seria para mim. Se a promessa seria para a sociedade cajazeirense. Se
a promessa seria para o mundo. De todo jeito, continuo achando que a arte salva
e salva em qualquer dimensão. Fiz alguma coisa para terapia, outra para vender,
outra para presentear, outra para me realizar. Salvei-me em todos os casos.
Desde criança
que compactuo com todas as esferas da arte. No universo infantil, perpassavam a
cor, a mistura das cores, o desenho, a colagem, a ligação das palavras com as
ilustrações, os diferentes suportes. Minha mãe, Ivanícia, de maneira sábia,
organizada e libriana, guardou muitas dessas minhas incursões artísticas de
meninota. Certa vez, e bem recente, fiz uma triagem dolorosa. Editar é sempre
um trabalho complicado, ainda mais de coisas minhas. Mas, nesse exercício,
selecionei uns mimos, uns trabalhos de escola, umas coisinhas fofas. Em breve,
postarei no meu blog e avisarei por aqui também e em outros meios.
Uma das fotos
postadas com o seu artigo, Cleudimar, é uma colagem que se chama Férias. Eu,
realmente, tinha acabado de entrar de férias e decidi reunir vários pedaços de
papel: revistas e folhetos de propaganda de lojas de eletrodomésticos ou
supermercados. Selecionei somente os trechos lisos, sem fotos ou textos, e fui
colando, colando. O suporte foi papel couchê. Foi uma terapia tão deliciosa e
intensiva, que terminei o quadro e já comecei outro. Um dia quero fazer uma
exposição somente com as colagens. Depois fui desenvolvendo outro tipo:
colagens, mas deixando espaços em branco no quadro. É outra proposta. Cada
espaço, espécie de silêncio, também exerce um poder. É linguagem.
Quanto aos
trabalhos de pintura, opto sempre por acrílica. Fácil de dissolver em água. O
solvente da tinta a óleo, geralmente óleo de linhaça, é muito irritante ao meu
nariz e ao meu estômago. Lindíssimos os trabalhos a óleo, mas meu rumo, por
enquanto, é a acrílica. O pontilhismo surgiu por acaso. Virou uma admiração
constante. Sempre estou me inspirando nos mestres impressionistas Georges
Seurat e Claude Monet e outros mais contemporâneos que também merecem todo o
meu apreço.
A arte da
aquarela, porém, ainda não chegou pra ficar na minha prática. Ainda não
consegui o ponto exato da dosagem da água com a tinta no papel. Mas, é um
desejo. Um dia vou executar com mais frequência. A única obra que considero
apresentável é Cajazeira. Dei de presente a Mãinha. Está lá na parede, na Rua
Souza Assis, 43, para quem quiser ver.
Cleudimar,
você está certo. Procuro combater a visão ocre por fatalidade do tempo. Meu
amigo João Braz me ensinou muito e continua, do seu modo, ensinando. Com ele
aprendi a enxergar a arte nas pequenas coisas. A Literatura e a História me
presenteiam com esse olhar também, analisando obras e autores, repensando fatos
e lugares. Mas a obra de arte pode transcender a tudo isso. É a força da
criação. São meus filhos espalhados por aí.
quarta-feira, 27 de março de 2019
O entrevistado
Ele veio e nem parecia tão preciso. Parecia meio tonto, abobalhado. Tinha um traço mitológico no apelido, que usava como grife. A aparência, na verdade, de vendedor. Vendia algo incerto, obtuso. Vendia, sei lá. Parecia que vendia panela, plano de saúde, confecção, imóvel. Panela pra ser utilizada no fundo do oceano. Plano de saúde pra animais invertebrados com antenas encolhidas e observadas apenas por um telescópio desenvolvido pela equipe de uma sociedade secreta. Confecção pra crianças nascidas apenas em anos ímpares, meses pares e dias de lua cheia. Imóvel do segmento embargado e visitado por dezenas de gerações localizadas em cidades montanhosas. Esse era o tipo de papo dele. Coisas improváveis ou dificílimas de acreditar. Mas, era pauta a cumprir.
Disse, ele próprio, que deveria usar óculos. Seria até menos confuso. Não usava perfume, ao que percebi, quando chegou mais perto, rompendo aquela barreira regimental das formalidades. Usava sempre uma camisa xadrez: azul, branca e amarela. Encardida. Fedia a peixe engordurado. Eu queria sair dali. Logo. Ficar invisível. Entrar numa cápsula do tempo. Mas, era pauta a cumprir.
Incrível como falava alto. A boca grande, os lábios quase imperceptíveis. Faltava desenho no rosto. Sorriso de cartaz, aquele forçado. Fazia um discurso cheio de chavões, frases compradas por ele mesmo, enlatadas pelos parentes, plastificadas na surdina, algemadas nos porões das ideias. Pedi água. Rezei silenciosamente pra sair dali. Mas, era pauta a cumprir.
De repente, um clichê. Mais na frente, lugares-comuns. Citações dele mesmo em obras nunca visitadas. Confundia os sobrenomes. Miguel de quê? Fernando de quem? Machado de onde? Nunca tinha lido a sério. Assim como o dia vem depois da noite. José de quê? Drummond de quem? Pedi pra ele repetir. Desconversei. Pedi perdão aos mestres. E começou a falar apressado, como se fugisse. Ora, mas era eu quem queria fugir. Olhou de lado. Não havia ninguém. Olhou de novo. Engasgou-se. Olhou de novo. Era um vulto, segundo ele. Garanto que eu queria falar com aquela suposta alma penada. Mas, era pauta a cumprir.
Entre um tema e outro, gaguejava. Uma gagueira discreta, mas, em se tratando do semblante dele, era desconcertante, teatralizada. Parecia que comprava as frases num supermercado, em embalagens de papel. Noutras construções, mirava o teto, como se lesse ali numa cola. Buscava palavras, aposto com quem quiser, saídas de um pensamento falso. Geleia verbal. A boca começou a ficar parecida com um bico de coruja. Bebi mais água. Desliguei o gravador.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Coisa pra curandeiros e raizeiros
Aquele pedaço de folha desce na
correnteza, brilhando, numa velocidade olímpica. Espetáculo, emoção: vamos prestigiar,
temer, admirar, agradecer. Cinema, cinema mesmo, sem preço de ingresso ou
cadeira marcada ou qualquer negócio para suavizar a interpretação. Balde do
Açude Grande: exibição da sangria. Sangria para todos. Sem hora específica para
finalizar. Sem quantidade determinada de espectadores. Apenas para ver a água, imensa,
e toda a reverência a ela, e toda a capacidade de admitir sua grandeza e sua
beleza essencial à vida.
Cinema gratuito, em movimento.
Som associado ao barulho da rua, ao barulho das vozes e gritos e risos. Aquelas
caras de espanto e dúvida, sem saber por quantos dias, se o filme será uma
série, se o barulho tende a aumentar, se vai haver mais festa, se podemos falar
em sangrando mesmo, se sangrando pode ser o mesmo que vazando ou extrapolando.
Aquele pedacinho de pneu não
deveria estar ali, mas correu, foi flagrado, ultrapassou a vegetação,
embolou-se com uma pedra. Participou do filme como intruso, desmereceu os
atores de renome: sapos, jias, cururus, rãs, pererecas, cidadãos anfíbios. Aquela
sacola plástica entrou, também burlou as regras, aproveitando-se da própria
leveza. Estruturou, na surdina, seu criadouro de bactérias.
O público vira torcedor de um
filme único. A força da água puxa e repuxa, com seu marrom inimitável, um
chocolate barroso e mentolado com ramos de jiboia, a planta democrática, respira
na água, respira na terra. Sessão livre. Sessão livre. Criança pode tentar
entender tudo aquilo. Não há vigias, seguranças, zarabatanas, canhões, catapultas.
Não temos certeza se o processo será indicado a prêmios internacionais. O
roteiro é associado ao mistério: como medi-lo, não sei. Coisa pra curandeiros e
raizeiros.
O picolezeiro está ali. O
pipoqueiro está ali. O fã, o piadista, o bajulador, o gaiato, o cético. Todos. O
importante é que não funciona o ano inteiro nem todo ano. Ainda não sabemos se amargo
ou salgado, se competição ou atração, se xote ou miudinho, mas a plateia se
agita. Um se diz corajoso, quer ir, quer se jogar, fazer parte, chegar ao
canal, sentir o lodo, ser notícia.
Olha. Bem ali. Um tronco enorme,
descendo, disparado. Vamos arriscar. Seria um pedaço de jurema, sem a sua
espinheira defensora. Seria um pedaço de galho de castanhola, que se desprendeu
com a ventania, veio remando, remando, remando, lá do Serrote. Seria um grande
navio troiano, com colônias e colônias de fungos; num efeito supersônico,
voaria pela região mesmo, nas pequenas galáxias invisíveis, somente alcançadas
pela visão da fé. Seria um tronco de carnaúba, que atravessou os sertões todos
e boiou até se esfacelar na força da corrente, num efeito estelar.
Uns peixes se aventuram um tanto
aflitos, encapuzados, grogues, pinotando naquele tremendo parque de diversões. Os
pescadores estão prontos, levam varas e redes, anzóis e iscas, baldes e
desejos. Dívidas. Os bichinhos fogem, pegam carona nos tubos doces, surfam no
túnel de esgoto para se livrar dos predadores humanos. Outros se desintegram,
enxergando cores que só eles, no vão noturno, entre plânctons, pedregulhos e
civilizações. Aparecem em sonho. Voam ou alcançam a plenitude. Peixificam-se
para a História.
E, de madrugada, ressurgem
pequenos e minúsculos e microscópicos e incontestáveis insetos, bailando,
sambando, sendo eles mesmos. Vaga-lumes, muriçocas, besouros, mariposas: todos
a postos para a Corrida do Sereno. Mas, espere. Isso tem que ser contado noutra
hora.
quinta-feira, 15 de março de 2018
No alto do Horto
Qualquer
viagem a Juazeiro do Norte era um acontecimento honroso, uma festa, uma
aventura no meu mundinho de criança. Subir a ladeira do Horto, tirar foto,
acender vela, pedir bênção a Padim, comer pipoca de arroz, chupar pirulito, rir
com as presepadas das figuras encontradas ao longo do caminho. Tocadores,
rezadores, benzedeiros e comerciantes. Turmas, levas, grupos, penitentes,
pregadores e romeiros. Cada um clamando por dias melhores, pela própria cura
física, por mais fé, pela reabilitação de algum parente ou amigo, pela paz no
mundo. E em coro silencioso, essencialmente redundante: chuva, chuva, chuva.
Primeiro,
íamos a Missão Velha. O nosso primeiro
ponto de pouso era a casa de Iraci Furtado, nossa querida amiga, desde quando
morou em Conceição do Piancó. Costureira exemplar e feirante, proporcionava à
nossa pequena caravana um certo conforto: era conhecedora de todos os cantos,
recantos e entrelinhas do comércio juazeirense. Perambulávamos um tanto. Por
toda parte, gente vestida de preto, para homenagear o fundador da cidade, Padre
Cícero Romão Batista, líder religioso e político da região. No ruge-ruge dos
caminhantes, aparecia um conhecido, um conterrâneo, uma criatura pra dizer algo
ou soprar um verso de ladainha. Burburinho. Cochicho. Plantões de butuca.
Em
Juazeiro, em determinado período, também visitamos Tia Maria Lima de Assis, que
decidiu viver seus últimos dias naquela cidade, especialmente no bairro São
Miguel, para cumprir um combinado com o saudoso marido, Tio Vicente. Eita,
Tia... Muitas histórias, bordados, batuques, carambolas e melancias. Uma
crônica à parte.
No
verde da praça principal, no Centro, chegava uma brisa gostosa e úmida do cariri.
Brisa que ainda hoje sobe, desce, assobia e volteia a Chapada do Araripe,
desenhando o clima do lugar, mais agradável do que a secura sertaneja. Por ali,
por acolá, pelas ruelas que invadem o percurso, sons diversos, entre
eletrônicos e chamarizes para compras, choros, gritos, gaitadas e risos. Espaço
coalhado de emboladores, violeiros, repentistas e cordelistas, compartilhando
suas expectativas com os artesãos, sedentos para exibir a criatividade do povo,
da cultura que nasce da raiz do coração.
Toda
essa viagem escrita aqui e agora reacendeu durante a leitura de “Guerra ao
fanatismo: a Diocese de Cajazeiras no cerco ao Padre Cícero”, do meu amigo
escritor Francisco Sales Cartaxo Rolim. Além da rica bibliografia que serviu de
base para o ensaio, coube na obra a visão crítica de um cajazeirense aplicado. A
pesquisa se arquiteta num estudo cuidadoso sobre a transição do século XIX para
o XX, com os detalhes da fronteira: Paraíba e Ceará, Ceará e Paraíba.
A
narrativa provoca o leitor para estudos perpendiculares sobre fenômenos sociais,
a exemplo do coronelismo, do banditismo, do cangaço, e questões de gênero,
envolvendo a Escola Normal do Padre Rolim. Ainda podemos encontrar um prato
quente sobre a imprensa católica e a nobre trajetória de Dom Moisés.
Um
presente e tanto. Um convite para pensar. Um convite para lembrar. Cada momento aboia
nos meus ouvidos, bate no trinco da cancela de Olho D’Água do Melão pra dentro.
Cada momento chega sem aperreio, na Rural de Seu Zé de Joca. Na trilha sonora, Gonzagão.
Sempre.
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