sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um mapa selvagem





Com fome, o pequeno Anari se pôs entre as estrelas das árvores-de-avainha e correu, como se então o seu complexo de sementes não o fosse. 

De dentro do arrebol, rios se propagavam, enquanto Dona Ata’Darrinaã gritava entre os pulmões. 

- Anari, jê vi condon coquetabo. Há ná, Anari! 

E borboletas de saanha em pântalos oestes, ferveram, pegaram fogo, enquanto. Enquanto Anari se jogava no portal. Anari se ria, seus pelos da cabeça se entrelaçavam e se alegravam com um horror sem carinho. De posse de um mapa selvagem, Anari morreu sozinho. Até hoje.   





João Pessoa, julho/2002



quinta-feira, 12 de março de 2015

Baião







De dois, da gente 
Trabalho e força
Banquete certo. 





                                                      






domingo, 8 de março de 2015

A sensacional giganteza





Um dia na Bica, dois cágados livres. A velocidade deles, somente deles, naquele domingo com menos crianças do que o previsível, debaixo de um céu nublado. Corremos todos, mas éramos poucos, para ver outros dois cágados. Como se desvendassem alguma coisa, na terra, perto da castanheira. Assustaram-se. Com o quê? Assustaram-se. Comunicaram-se por olhares, um tônico, outro tácito. Na frente, um soluçando. O outro? Espirrando, cremos. 



Não sei se vou contar sobre o som daquele dia, na Bica, nublado, cágados livres e assustados. Um enfezado, outro sonso. Um rabugento, outro treteiro. De longe, um parecia pedra. Outro, besouro. De perto, um parecia toca. Outro, folhagem. Assustaram-se.  Ficamos todos assustados, éramos poucos, tão assustados com o desenrolar daquela observação. Uma lagarta, logo ali, alguém disse. Foi o suficiente. 



Os cágados assustados, muito mais assustados, não decidiam. Um agressivo, outro meticuloso. Um logo ali, espiando. Fingimos não acreditar que passamos quase duas horas em conferência sobre o comportamento dos quatro, um aparentemente robusto, outro aparentemente franzino. Outro até simpático. Outro até nem tão hipocondríaco. Saber o que se passa por entre a casca e o corpo? Um talvez incisivo, outro talvez paciente. Sim, pois é, um biônico, a ponto de se heroificar. Outro, mais perto, ainda mais rápido, tão rápido e chegando a um quase apelo. Estou falando de olhares. 



Esqueçamos, por enquanto, os caminhares. Ali, vários temas para a nossa conferência dominical, algo similar ao não ter realmente o que fazer de mais estressante ou mais sério. Não é de fogo a lagarta, alguém gritou. Cada um que queria ser mais biólogo do que outro. E sempre algum arriscava de conhecer o ecossistema tal e plum. E sempre outro dizia que leu numa revista especializada em xis e tchum. Ou viu em algum canal de TV, algo assim e coisa e rapadura com côco. Ou alguém tinha visto algo inédito, surpreendente, magnífico ou apocalipticamente supra e total da sensacional giganteza da informação, para falar no mundo maravilhoso do bicho zê ou quê num cativeiro de não sei de quem. 



Após tantas atrocidades com a nossa própria capacidade de pensar, um dos cágados se escondeu. Não saía mais, para nada. Na própria casca, planejava. Não esperamos para entender se o plano deu certo.  





João Pessoa-PB, 2002 














quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Hera


















Era a hera 
o segredo
era ela
o novelo.

Era o silêncio
o cochicho
o bodejo.

Em plena hera
tudo existia.



terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os mesmos papéis de carta



Ouvi dizer em algum lugar que não devemos esperar demais dos outros. Por não seguir à risca esse argumento, eu acabo, às vezes, sofrendo com reações de algumas pessoas ou me surpreendendo com lugares.

Certa vez, encontrei uma colega de infância numa agência bancária. Estudamos pelo menos durante oito anos na mesma escola, na mesma sala. Curtíamos as mesmas músicas, os mesmos livros, os mesmos ídolos, os mesmos gibis, os mesmos papéis de carta.

Nossa condição social era um tanto diferente, mas nossa formação moral e familiar continha os mesmos padrões rígidos de comportamento. Na pré-adolescência, começamos a nos distanciar, o que era natural, devido à mudança dela para outra cidade. Ainda não havia internet, mas poderíamos ter trocado desenhos, cartões, bilhetes.

Eis que, no dia do reencontro, na agência, eu a vi, depois de pelo menos seis anos. Talvez até mais. Quando meu coração se alegrava para receber um temperado abraço, tive que me contentar com um aceno insosso e solitário, com uma distância de dez metros. Para coroar o acontecimento, aquele ar-condicionado gelado.

E o papo que eu esperava colocar em dia? Não aconteceu. Meu castelinho de cartas foi desmoronando lentamente. Damas, copas, paus, espadas, ases, valetes, reis, rainhas, angústias, trufas, pterodátilos, bolos de chocolate, ventanias, velocípedes, ideias. Outro castelinho, o de marfim, foi acertado por mísseis de expectativa, bombardeado com bolas de sorvete, triturado por serpentes, coberto com caramelo e amendoim. Ainda outro castelinho, o de areia, sofreu uma erosão repentina. O centro da Terra o engoliu.

Respirei fundo. A amizade é um tesouro tão precioso que me pergunto também se éramos realmente merecedoras dessa honrosa tarefa ou função fraternal. Imagino que, quando encontro os amigos velhos ou os velhos amigos de verdade, a efusão é imediata. Podemos não ter nos visto há um mês ou vinte anos, isso nem importa.

Amigo verdadeiro se abraça, ri, chora, canta, pula, brinca. Amigo verdadeiro não se contenta com um aperto de mão tímido ou sorrisos padronizados. Com os amigos, faço um show de perguntas. Sim, pois eles também fazem comigo. Nós nos damos esse direito carinhoso de traduzir uma saudade recíproca. É a certeza de que estamos plantando flores. Cabe, no entanto, a cada um, o trabalho de adubo e a alegria da polinização.  










Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...