quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A turma do papel







Há informações que só combinam mesmo ao vivo, cara a cara, olho no olho. Combinam com aquela expressão francesa téte-a-téte ou tête-a-tête. É um tipo de conversa que tem que ser conversa, da boa. E de dois: diálogo. E-mail não resolve. Um tem que sentir o olhar do outro. Se possível, o cheiro. O corpo do outro falando também. Muitos são os sinais nesse tipo de comunicação. Até mesmo os porquês não intencionais podem surgir. O que a pessoa não quis dizer, acabou dizendo. Pois é. Algum interlocutor é capaz de desvendar pela própria intuição ou por treinamento mesmo, como profissional.

Há informações escritas que são mais gélidas, mas essenciais para a burocracia diária: ofícios, cheques, notas fiscais. Mesmo assim, tudo consegue ser digitalizado. O jornal impresso está desaparecendo em alguns lugares, cedendo aos impulsos da pós-modernidade. Mas os que continuam, de algum modo, sobrevivem e se inscrevem na sociedade com um modelo, um verbo, uma rotina, um conjunto de decisões.

Algumas informações não conseguem ser resumidas em pequenos desenhos ou ícones. Apenas sugerem um tipo de emoção ou objeto. Falo dos pictogramas, os desenhos eletrônicos minimizados. No Japão, onde foram criados, recebem o nome de emojis. A palavra é a junção de dois termos: e, que significa imagem, mais moji, que significa letra. No final dos anos de 1990, o engenheiro Shigetaka Kurita foi o responsável por criar esses tipos, para facilitar a comunicação eletrônica, que depois foi aperfeiçoada por outros gênios da lâmpada. O norte-americano Nicolas Loufrani foi um deles, criador dos emoticons, combinando sinais do teclado para gerar outros ícones nas plataformas digitais.

Por mais que existam ferramentas dessas e por mais que eu as utilize, nada vai substituir uma frase. É claro que uso, aplico, gosto, até me empolgo e acho tudo muito engraçadinho. Mas sou da turma do papel. Estudo História porque gosto do movimento que não aparece de graça. Gosto do arquivo, do colecionismo, do documento cheirando a mofo, do testemunho insubstituível. Daquele ritual específico naquela comunidade, naquela data. Daquele filme que, mesmo em versões posteriores e elaboradas com todos os efeitos possíveis, continua fazendo efeito. Daquela rua que, mesmo com o asfalto em suas costas, carrega o manto do barro e dos pedregulhos, e o suor dos seus primeiros moradores.

Quero um dia, assinar e-books, claro. Não tenho animosidade com eles. Mas me sentirei escritora mesmo quando vir meus filhotes em forma de brochura. Comprados, emprestados, vendidos, reeditados, autografados, presenteados. Esses dias vêm chegar. Sinto. Sinto que o vento está soprando. Para você, querido leitor, deixo um sorriso. Deixo dois pontos e um sinal de parênteses com a abertura para a esquerda. Sim. Um emoji.  















domingo, 17 de novembro de 2019

Bate meu coração












No início da minha adolescência, eu entendia como coletivo um ônibus que transportava pessoas de diversas características. Tais características são inúmeras, mas a partir da perspectiva de que o sujeito não optou ou não conseguiu ir com veículo próprio, carona ou táxi. Num coletivo desse tipo cabem todos. Todos, mesmo. O povo vai entrando, entrando, entrando e se apertando, até que o motorista, com a colaboração do trocador, tenha a noção do limite.

Então, vamos. Vamos a alguns antônimos. Pode passar pela borboleta ou catraca. Pular, não vale. Pode cumprimentar as pessoas. Pode. Um sorriso vale. Simples. Vamos: gordos ou magros, feios ou bonitos, carecas ou cabeludos, simpáticos ou carrancudos, atléticos ou desengonçados. Também embarcam as particularidades do lado psicológico, que está embutido: honestos ou desonestos, pacíficos ou brigões, amuados ou amostrados, gastadores ou muquiranas, contidos ou exacerbados. Tem de tudo.

Bem antes, na minha infância, coletivo era lembrado por mim como um tipo de substantivo. Até hoje, é um dos meus temas preferidos para trabalhar em sala de aula, quando estamos na área da gramática. Nossa língua é o poço dos desejos. Jogo uma moedinha com a palavra cáfila e saem os camelos. Jogo outra moedinha com a palavra enxame e vêm as abelhas em movimento. Jogo outra moedinha com a palavra colmeia e aparecem as abelhas operárias trabalhando, num lugar específico, sob o olhar fuzilante da rainha. Jogo outra e outra e outra. 

De uns temos para cá, posso arriscar uns quinze anos, ouvimos a palavra coletivo ser destacada como a junção de pessoas relacionadas a uma causa cultural. Um exercício intensivo e benéfico. Não é exatamente uma turma, um grupo. Trata-se de uma reunião de cabeças em prol de um produto que gere cultura. Trata-se de um empreendimento muitas vezes invisível. Mas é uma empresa que promove um enorme capital simbólico, em se tratando de sociedade.

Quando surge um coletivo desse tipo, que enreda sonhos, que tece projetos transformados em fóruns, encontros, palestras, exposições ou apresentações, meu coração palpita de felicidade. Palpita porque ainda tem esperança. Palpita porque ainda tem gente que sabe que pode utilizar seu potencial herdado de tantas gerações, para fazer o bem e construir um mundo mais digno. Palpita porque sabe que somos inteligentes e vamos continuar aprendendo, mesmo com os tropicões nas pedras do calçamento ou das colinas. Palpita porque sabe que a educação salva muitas vidas.

Bate, bate meu coração, como nosso amigo compositor registrou. Disse e ainda diz, por isso também dizemos, que é raiz poderosa, aguada em verso e prosa. É isso. É isso e mais isso. Meu coração palpita porque pede para que cada coletivo se coloque como força plena de ação, como pulso firme e criativo, como aglutinador de presenças marcantes. Palpita porque se lembra que cada representante tem seu dever de se inserir na História. Palpita porque torce para que cada coletivo mostre sua raça, sua tinta, seu novelo, seu barro, sua coreografia, seu atabaque, sua viola, seu tempero. Que faça parte, sem medo, sem rancor. Um, dois, três: valendo.   







Imagem: Freepik

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Um cafezinho







Poesia é atitude que ultrapassa sentidos. Enlaça a mente, enlaça a gente, e desenlaça, e retorce. Poesia é ação. É ver o Sol se pondo e reconhecer o sistema poético envolvido. Palavras que circulam no pensamento. Uma pausa. Pensamento que circula nas palavras: respiração. É ver. É ver com o espírito. É você mesmo. Um olhar que não está tão acessível a terceiros. E podemos tornar esse olhar estendido a outros olhares. É aí que a ação se acha compartilhada.

A poesia se espalha: o ar acolhe as sílabas. Remonta as imagens. Amplifica as formas. Vamos lembrar que poesia não é somente um soneto redondo e fabricado. Vamos lembrar que a rima pode embelezar, mas não é cartão de embarque. A poesia é o aperto do botão emocional, é o que se esconde nos becos do fazedor do poema. É o que revela como o autor passou a produzir naquele instante, naquele enredo, com aquela temperatura para cada frase. E frase é além do que entendemos como verso. Aquela linha pendurada no tempo, entre um varal e outro de sentimentos. É algo depois do horizonte, infinito: é o batuque do coração lapidando cada análise. Se não for para analisar, está tranquilo também. A ação permanece entre nuvens.

Poesia: a jurema que serve para remédio ou para afugentar, com seus espinhos, os invasores no mato. Ou é fonte ritualística, com teor religioso e meditativo. Importante: essa poesia não é exatamente a planta. É o olhar que investimos sobre ela e transformamos em verbo. Chacoalhamos tudo num contexto. Pode haver um poema sem verbo, tudo bem. Mas o exercício poético é, dentro dele, uma ação verbal. Movimenta-se. Pinota nas capoeiras do invisível. 

A música é poesia pura. Não somente a letra ou a melodia que se irmanam. Vejamos a composição. O labor. O trabalho. E todo trabalho, seja ou não musical, envolve sua própria poesia, sua beleza ativa. Vejamos o exercício de um carpinteiro, ao fazer de um velho tronco uma cadeira. Vejamos o exercício de um padeiro, ao fazer da farinha de trigo um pão de ló. Vejamos o exercício de um professor ao explicar um conteúdo aos alunos. Vejamos o exercício da aprendizagem. Vejamos o exercício da troca de conhecimento. Vejamos.

Poesia n’alma. Poesia labirinto. Palavra que se perde, mas que se reencontra, que amedronta, que desafia. Palavra que socorre. Poesia é medicamento: nebulização para o presente, cauterização para as práticas, curativo para as esparrelas no mundo, hidratação nos tecidos sociais, injeção de sonhos.

Hoje e agora é poesia, embora eu sonhe. Agora é poesia viagem: navios de descobertas, aviões de intercâmbios, balões de solidariedade. Quero poesia de espanto: acorda, desperta, avisa. Quero poesia que fale a realidade, que discipline o cuidado com o próximo, que salve o dia apenas com um cumprimento. Sim, aquela: vem com o perdão, vem com o beijo e o abraço, vem com o botão da rosa, vem com a colmeia, vem com a passarada. Quero que venha com uma nação mais harmoniosa, sem achincalhe, sem desesperança. Que venha com a Lua cheia, com o clarão do relâmpago, com o cheiro da terra, com a xícara de café. Um cafezinho, por favor. Grata.

























segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Arte Mahikari










Falei no ato da meditação na crônica anterior, com base na oração do Pai Nosso. Combinei de falar um pouco mais sobre as minhas outras experiências. Ainda não consigo enumerá-las nem dizer se aquela ou aquela outra foi melhor. São vivências, no entanto, que não deixam de transparecer um caráter devocional, um oratório íntimo. A gente com a gente mesmo: eu com o meu eu, si consigo, o próprio ser, tempo presente.

Em meados de 1995, num passeio pelo Centro de João Pessoa, com o amigo e colega de UFPB, Geyzon Dantas, fui apresentada à Arte Mahikari, ensinamento da doutrina Sukyo Mahikari. Eu guardava certo desânimo e cansaço e ele resolveu me indicar uma prática que ele mesmo recebia. Na época, funcionava num pequeno salão, num primeiro andar, na Rua Miguel Couto. Lugar bem discreto e incrivelmente silencioso, apesar da localização que, no seu exterior, é barulhenta, ligando todo o fluxo automotivo da Rodoviária à Lagoa.

Silêncio. Puro silêncio. Uma das normas era tirar o calçado e ficar descalço ou com meias. Sentávamos ou deitávamos numa espécie de esteira ou colchonete ultrafino. Ali, esperávamos o aplicador da Arte. Parece um passe para os kardecistas ou uma ação de Reiki para os reikianos. Trata-se da imposição das mãos, concentrando o trabalho, lento e progressivo, em um Ser Superior. O aplicador, que foi, de certa forma, treinado para a tarefa, impunha uma das mãos ou as duas mãos em outros momentos, em direção a algumas partes do corpo do receptor.

O aplicador assume a função de elevar seu pensamento a quem os mahikaris chamam de SU (Senhor), o Criador dos Céus e da Terra. Não entendo como religião, mas filosofia de vida. Seja o que for, é benéfico e há regras, há uma sequência lógica, há uma motivação, há um grupo em comum. Fui outras vezes sozinha. De repente, aparecia algum conhecido. Olha, você aqui também, pensava. A pessoa pensava também. Depois nos falávamos que era a mesma impressão. E tudo ficava bem.

Durante as aplicações, os sentimentos eram diversos. Com certeza, era um tipo de meditação. Muitas vezes, senti bastante os pontos de energia do corpo, queimando em brasa. Muitas vezes, adormeci e, depois de alguns minutos, vieram me acordar. Muitas vezes, entrei num estado de paralisação dos sentidos. Muitas vezes, entrei numa dimensão diferente, espécie de portal energético. Muitas vezes, chorei em silêncio.

A técnica se chama Arte porque é a união de três itens essenciais para o nosso bem-estar: saúde, harmonia e prosperidade. Os três unidos conduzem o praticante a um cotidiano mais pacífico, em sintonia com o equilíbrio da Natureza. E a Natureza é a expressão da existência divina. Assim ensina o fundador da obra, o japonês Sukuinushisama, o Primeiro Grão-Mestre Kotama Okada. Os adeptos, mesmo seguidores de religiões diferentes, são responsáveis por trabalhar pela paz no mundo. Veja que não é pouca coisa. Uma responsabilidade tremenda, começando pela paz dentro de cada um. Para termos uma ideia da importância da prática, a cidade e o Estado de São Paulo decretaram um dia no calendário, como do Dia da Sukyo Mahikari: 27 de fevereiro, dia do nascimento de Sukuinushisama. Há 75 países com a semente plantada. Que lindo. Quem quiser saber mais, pode entrar no site: www.sukyomahikari.org.br









segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O silêncio do silêncio





















O ato da meditação pode ser explicado de diversas maneiras. Não estou aqui para explicar de forma científica, não é meu objeto de investigação. O que sei, e acho que pouco sei, é muito mais relacionado a vivências, práticas e experimentos que chegaram para mim, de forma saudável e colaborativa. Aprendi a meditar de diversas formas e em diferentes lugares e com pessoas bem diferentes umas das outras, com convicções e credos bem diferenciados. Maravilha. Uma riqueza. Isso me leva a pensar e a acreditar que a meditação independe de religião.

O que falo aqui e agora pode até estar conectado com alguma doutrina, algum aspecto sagrado, alguma divindade específica e cultuada em algum lugar do planeta. Pode até estar, mas o que quero expressar está um pouco afastado disso. Sabemos que o divino se manifesta em incontáveis orações e múltiplas formas de meditação.

Quando aprendi mais sobre a arte de meditar, comecei a fazer algumas conexões com o que eu já havia experimentado. Quando aprendi a rezar, ainda criança, participava comigo mesma de um ato meditativo, ainda que regido com palavras prontas. Vale lembrar que eu, na época, nem sabia direito o que era rezar, orar, muito menos meditar. A oração do Pai Nosso, por exemplo, conhecida pela maioria dos que leem esta crônica, é, em si mesma, um caminho para a meditação. As palavras nos auxiliam, mas a concentração nelas é o segredo de toda a conversa. Então toda concentração é meditação. Não. De forma alguma. A meditação encerra uma atitude de guardar o momento, mas de maneira a alcançar a plenitude do silêncio, com uma finalidade maior. Para alguns, alcança o sagrado em sua essência. Para outros, relaxa o corpo. Para outros e outros, acalma a mente.

A leitura pode ser um ato meditativo: as palavras estão lá, na narrativa, auxiliando o nosso olhar. O ato de ler é solitário, individual, embora compartilhado com o autor da obra. Já falei disso aqui, noutro texto. Pode ser também compartilhado numa reunião, assembleia, encontro de duas ou mais pessoas; neste caso, não é meditação. A palavra meditativa, veja bem, possui um corpo único. Une-se ao silêncio de cada um. O meu silêncio, querido leitor, é meu; do mesmo jeito que o seu é seu mesmo, e ninguém mexe. É esse silenciar íntimo o aspecto fundamental do ato meditativo. Uma música instrumental pode auxiliar. Sim, pode. Faço isso repetidas vezes. Fico feliz. Acerto no alvo. Mas, para conseguir a meditação, em sua profunda clareza, é preciso o silêncio do silêncio. Encontrar essa meditação lá dentro: inconsciente, subconsciente, cérebro, coração, espírito, alma, o que seja melhor para a compreensão de cada um. Num evento com mil pessoas é possível fazer isso. Eu já fiz: deu certo. É lindo. Parece inacreditável. Num estádio de futebol, com oito mil pessoas, barulho de todos os lados. É possível.

O estado meditativo é diferente dos estados físicos, transcende os cinco sentidos, mora em outra atmosfera. Ficar sentado, numa posição confortável, com a coluna devidamente encaixada e os olhos fechados, é um bom exercício para começar. A respiração pode ser gerenciada de algumas formas. Inspirar e expirar somente pelas narinas, com a boca fechada, é um proveitoso início. Podemos, ainda, inspirar, prender o ar, contar até dez, expirar: um jogo divertido. E há tantos e tantos e tantos outros. Mas, é claro, a gente pode esmiuçar na próxima crônica. Tranquilo. Inclusive, posso falar sobre meus outros professores nessa área. Falei apenas em rezar o Pai Nosso. Conheci outras situações meditativas. Combinado? Pois é. Amanheceu.    

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Conceição do Piancó






Mistérios tantos, mistérios de todas as formas. Conceição. Começa logo pelo nome, dedicado à Maria, mãe de Jesus, Nossa Senhora da Conceição, consagrada em diversas religiões adeptas ao Cristianismo, há mais de dois mil anos. A igreja matriz, imponente em sua construção, procura dar conta dessa homenagem. Aos fundos da grande obra, aparece um rio, que poucas vezes vi cheio, num curso de trabalho e harmonia. No mesmo cenário, coqueiros finos, de estatura entortada, uns vinte metros de estranha exuberância.

O calor da cidade sufoca. O vento demora a descer pelas cordilheiras imperceptíveis do vale, o Vale do Piancó. Vivo sempre a impressão geográfica de que as correntes ventosas, estonteantes, passam bem longe, lá por cima, deixando o vale sozinho, entranhado de secura. À noite, quando os grilos começam a sinfonia sertaneja, ao mesmo tempo o silêncio assusta e o escuro das vielas espera o frio ameaçador para os desavisados. Frio de deserto, que aparece com toda a sua força no despertar da madrugada. Assim é Conceição, na memória dos meus sentidos.

O melhor, no entanto, acontecia na rua Coronel José Peixoto de Alencar, Centro da cidade, na casa de Vovô e Vozinha. Um mundo encantado. Eu e Christiano desfrutamos muito desse doce império.

Vovô, Vicente Ramos de Lima, proprietário de uma barbearia, que muito eu visitava, malinava nas coisas e levava croque e carão. Carão bem explicadinho. Vozinha, Marina Oliveira de Lima, proprietária da delícia dos picolés de saco, os dindins; da almofada de fazer renda; de metros e metros de rendas, bordados, singelezas e crochês, além de finas aplicações em tecidos; de uma receita de galinha de capoeira que nunca foi copiada.

Titia Nina, a professora Ivanilda Oliveira de Lima, crochezeira fina, proprietária de LPs que adornaram meu imaginário e foram fundamentais para a minha vida cultural. Os preferidos: Ivanildo, o Sax de Ouro (Coletânea); Trio Nordestino (Corte o Bolo); Clara Nunes (Clara). Aqueles guarda-roupas com cheiro de talco sempre foram cuidados por ela, minha única tia materna, que sempre me encheu de presentes, além de e beliscões e sermões muito necessários. Ela ainda está lá, com meu Tio Evando, os guardiões dos mistérios da casa. Guardiões das pegadas invisíveis de Vovô e Vozinha, que há algum tempo moram no além da vida.

Cada trecho, cada parede, um encanto: a vitrola, o rádio, o petisqueiro, a cadeira de balanço, o tacho de ferro, a farmacinha, o pote com biscoito maisena, o garrafão de louça azul, o garrafão de louça marrom, a mesinha de centro, os potes de barro. A despensa. Ainda estão na minha cabeça: a gramínea, o galinheiro grande, o galinheiro pequeno, o pé-de-romã, os pés de bom-dia e boa-noite, o coqueiro mais velho, o coqueiro mais novo, o pé-de-pingo-de-ouro. Ainda estão: as lagartixas, os gatos da vizinhança, as muriçocas, o feijão gordo e vermelho, o arroz sempre branco e grudado, a farofa de cuscuz de milho com a gordura da galinha, o leite fervido duas vezes seguidas, a coleção de Jorge Amado na estante, as malas de chão, o oratório. O fogão a lenha desativado, mas intacto, como um totem.

O medo da pistolagem, os roletes de cana. Os tecidos da loja de Seu Pitanga, o Beco da Pimenta, o Armarinho de Ferreira. Macaúba, pitomba, goiaba, ciriguela. Os segredos. Milhões de segredos. Fofoca, fuxico. A estrada de barro, a viagem de quase cinco horas. O asfalto, a PB 400. A família Leite Braga. Os Caititus. Os Pires. As velhas amizades. Os tios e tias, os parentes e aderentes, os compadres e comadres. Os primos legítimos, segundos e terceiros. O pessoal da Mata Grande. Transparaíba: Seu Zé Damacena. A veraneio de Neudinho. O forrobodó da esquina: sanfona, zabumba, triângulo, pandeiro e reco-reco. Os velórios, as missas, as novenas e ladainhas. O pastoril azul, o pastoril vermelho. Os mistérios. Conceição.    








Mistura de bom-dia e boa-noite e quebra-pedra

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Ao vivo no rádio





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Minha primeira experiência radiofônica foi amadora e ao vivo. Eu costumava visitar a rádio Patamuté FM com minha prima, Dulcineide Quirino, pra bater papo com Beta, a tia dela. Beta, Betânia, muito querida com seus olhos esverdeados, era recepcionista. Naquelas idas e vindas, eu ficava vidrada no que o fenômeno rádio já traduzia pra mim, desde que me entendia por gente, brincando nas calçadas da Rua Coronel Justino Bezerra. O rádio se instalou no coração.

Passou-se um tempo. Num hiato de trancamento de curso na UFPB, resolvi pedir um espaço ao diretor de programação da FM, Wilson Furtado. Pedi pra fazer um teste. Passei. Não era somente testar a voz e a desinibição ao microfone, compreendendo que muitos me ouviam onde a onda alcançasse. Tive que aprender a mexer nos controles. Zé Nilton teve muita paciência pra me ensinar. Mexer nos botões não me interessava muito. Minha intenção, na verdade, era que a rádio voltasse a apresentar um programa que eu gostava: o Rock 94, nas tardes de sábado, das 15 às 17 horas. Rocha, agente da Caixa Econômica Federal de Cajazeiras, brilhantemente apresentava. Ali ele era o Rocha Rochedo, vocalista também da banda Apocalypse. Peça rara, o locutor e cantor havia sido transferido pra uma agência bancária em João Pessoa. As tardes de sábado não eram as mesmas.

Meu objetivo não era imitar Rocha nem mesmo conseguir um emprego. Nem de longe. Na minha doidice dos meus dezenove anos, eu queria mesmo era viver o rádio, respirar um pouco do rádio. Sentir o clima. Queria apresentar um programa, curtir o rock e fazer com que o povo ouvinte curtisse a minha seleção musical. Com auxílio do amigo Nonato Saraiva, outro roqueiro sem fim, criei umas notas sobre o mundo do rock, falando um pouco de cantores, bandas e álbuns. Por influência do meu irmão Christiano Moura, a lista continha pérolas dos anos 70 e 80. Alguma coisa dos 90. Também arriscava uns 60. Era mais um reviver do que atualizar. Não tocava nada muito pesado, embora até gostasse de algumas coisas. Gostava sempre das mais conhecidas. Os invejosos poderiam dizer que eram as mais manjadas. Eu botava um pop no meio e dava certo.

Como era bom pedir que aumentassem o volume com os internacionais Dire Straits, Pink Floyd, The Smiths, Beatles ou os nacionais Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs. E os cantores e cantoras do gênero daqui ou do estrangeiro: Lulu Santos, Rita Lee, Raul Seixas, Billy Idol, Prince, Cindy Lauper. Uau. Como é bom relembrar. Nessa época, conheci Conrado, que já fazia rádio e depois mudou o nome pra Kaliel Conrado. Viramos bons amigos até hoje. 

Todos os sábados, um ouvinte ia lá na porta do estúdio e pedia pra eu tocar qualquer uma do Guns N’ Roses. Ele era muito fã da banda e às vezes se vestia com camisetas que exibiam fotos do vocalista, Axl Rose. Trabalhava numa loja de calçados. Menino atencioso e educado. Estava claro que o interesse dele não era em mim, mas na música. Tudo bem. Aí eu fazia a vontade dele e tocava uma mais leve da banda californiana.

Meu sábado estava, desse jeito, musical. Fiquei devendo tanta coisa: Jethro Tull, Nazareth, Yes, The Ventures. Também Mutantes e outros tantos que tocam e compõem rock no nosso Brasil alado e misturado: Zé Geraldo ou Zé Ramalho. Chico Science ainda era uma grande novidade. Estava mais do que provado que eu não dava conta desse painel de personagens.

Depois de alguns meses apresentando também O Som da Noite, um conjunto de músicas românticas, das 20 às 22 horas, voltei pra capital e fui terminar meu curso. Levei a vida mais a sério. Aqui vale um asterisco pra dizer que, à noite, o programa tocava até o que eu não queria muito, como José Augusto, Fábio Júnior, Sandra de Sá, Rosana, Fafá de Belém ou Roupa Nova. Tudo pelo sagrado direito do ouvinte. Lidar com essa democracia não foi tão rápido na minha cabeça. Mas, era ao vivo. Vivo, vivíssimo.

Eu tinha que fazer algo que até hoje tenho que aprender: ser ágil. Fazia, na minha velocidade, uma rápida seleção, já que não havia qualquer coisa gravada. Aí eu colocava umas melodias roqueiras no meio. Umas guitarras bem puxadas, do tipo baladas de arrebentar a memória afetiva. Scorpions, U 2, A-ha, INXS e um George Michael pra extrapolar o toque de romantismo. E pra lascar o cano mesmo, uma marcante do Pholhas. Almair Furtado e Léo Silva me mostraram onde os LPs ficavam e quais eram os mais pedidos. Parecia fácil. Mas, era ao vivo. Eu que me virasse.

Ao voltar pra Cajazeiras, em 1999, experimentei outro vivo, o jornalismo. Vivo e dinâmico, outro ritmo, outra pegada, outra Cristina. Aí a história mudou. Mudou completamente. Entrei na turma da Rádio Alto Piranhas AM. Comecei a reviver a amplitude modulada que conheci na infância: aquele barulho, aquela sintonia, aquelas canções, aquelas vinhetas. Estava tudo ali, bem perto.

Fazer jornalismo, ao vivo, no rádio, era outro compasso. Eu não atuava mais como disque-jóquei e quase repórter cultural. Era a vez de experimentar, de manhã, o Microfone Aberto, com José Anchieta e Fernando Caldeira, na apresentação, e Alberto Dias ou Francisco José, na parte operacional. José Antônio de Albuquerque, que na infância eu via na Escola Nossa Senhora do Carmo como o pai de Letícia, passou a ser meu chefe, meu colega, meu eterno professor.

O período em que fiquei no programa matutino, e em algumas participações como repórter no vespertino Rádio Vivo, foi um aprendizado e tanto. Até pista no programa esportivo, fui. Arnaldo Lima, Ivanildo Dunga e Edmundo Amaro botaram a maior pilha. Aguentei uma única vez, no Estádio Higino Pires Ferreira, num jogo amistoso do Atlético com convidados. Pista tem que ter pique. Vi que era tão cansativo, mas tão cansativo, que fugi. Do mesmo jeito que fugi de transmissões noturnas de carnavais.

O rádio, ao vivo, ensina. Não tem emenda. É na hora. Chapa quente. Pensar pra falar: ligeiro. Uma boa estratégia pra trabalhar o autocontrole, o domínio de si mesmo. Ao vivo parece mais contagiante, mais parceiro, mais próximo.

Tenho saudade desse ser vivo, que entra nas casas, nos estabelecimentos comerciais, nos automóveis, e conquista as pessoas. Quem sabe, um dia, eu volte a me alimentar dessa energia boa radiofônica. Não exatamente do factual. O factual é necessário, mas deixo esse prato temperado para os meus colegas mais experientes. Os mais afoitos gostam também. Sei que, se um dia tiver que ser, será vivo, ao vivo. No couro cru. Combinado? Combinado.          

Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...