terça-feira, 14 de abril de 2020

Sangue negro e cheiroso














     










Por entre uma página e outra, acertei meus ponteiros, num relógio mental descoberto pelas lavadeiras, fadas do cotidiano. Pelos cantos da brochura, embrenhei-me nas plantações de cana-de-açúcar, assisti a todas as possíveis lamentações do doidinho em seu mundo de perguntas, raspei incontáveis tachos, derramei meu sangue negro e cheiroso. Por entre uma e outra, senti a chibata, mas também assinei decretos e autorizei demolições; por entre uma e outra, as correntes doeram, mas apertei gatilhos. Por entre uma e outra, roí as unhas, mas vesti a echarpe.

Sem esperar, por certo, mas parte de mim poderia prever, senti cada batuque baiano, em outras plantações, as de cacau. Senti cada amargoso daqueles diálogos construídos por um amado, uma sentinela do seu povo, um alçador de desejos, um degustador de canela. Por entre uma página e outra, meu passaporte nem havia sido carimbado de forma oficial, mas comemorei os desafios românticos de uma moça de lábios de mel, infiltrando-me naqueles ipês floridos, devagar, ao passo que ousava conhecer as macabéas.

Nem era preciso pedir licença. Senti o maravilhamento daquilo, dada a minha natureza intrometida, de gente que necessita de fontes, fontes com pisadas sobrenaturais, fontes que mastigam o passado, fontes límpidas e sedosas, fontes barrosas de diálogos efervescentes, fontes a pensar a partir de anéis saturnianos ou aqueles da sociedade nórdica.

Por entre um suspiro e outro, meu senso mochileiro nem se tocou que tudo poderia mudar, tudo poderia renascer a cada linha completa ou livre, a cada rima ou a cada parágrafo, a cada tenda ou ramalhete. As pontas dos meus dedos dedilhavam uma febre de querer uma compreensão imediata, mas, por graça divina, cada degrau conduzia a um compartimento do cérebro, cada degrau me ensimesmava ou me expandia.

Que magia seria essa, tão nobre e avassaladora, não pude saber de imediato. Por entre um painel adocicado e outro, aparecia o navio de imigrantes, apareciam as geadas e apareciam os milhões de olhares e apareciam as bonecas de pano, os viscondes, os sacis, as cucas. Lembrei-me, ainda, que a viagem não é finita, que entre uma página e outra há uma pausa profunda e etérea, que entre um espaço e outro há uma passarela de realismos, de fantásticos, de lamentações e felicidades, de passaredos e passarinhos.

Como explicar ao outro o que senti quando entrei naquela vila, como explicar ao outro que me perdi naquela selva, como explicar ao outro o que vi quando naveguei naquele edifício no centro do oceano. Como explicar que, a cada virada de página, um som saía pelas costuras do papel; como explicar que, a cada cheiro de celulose processada, viria também o cheiro daquelas ruas cariocas, com Policarpo me escoltando.

Por entre uma lágrima e outra, até gargalhei e refiz meus redemoinhos, molhei a horta de ideias tontas, aprumei a coluna, mirei o alvo de possibilidades, sorvi o caminhar das mitológicas crateras: reli. Como explicar ao outro que a releitura é mais um cartão de embarque, como explicar ao outro que a imagem é texto etiquetado de conceitos e deflagrações, como explicar ao outro que a bula faz todo sentido místico, como explicar ao outro que a receita do brigadeiro carrega o dom da catequese histórica, como explicar ao outro que o penhasco surgiu naquele capítulo, como explicar ao outro que a montanha foi escalada inúmeras vezes somente naquele trecho, como explicar ao outro que sertões me ensinaram a ser forte, como explicar ao outro que os caetés e cariris marcham com seus maracás de forma perene.


Foi num bilhete sem data, invisível, que meu disco virtual começou a girar numa velocidade parecida com a dos dromedários, na areia quente, com um café coado para se acomodar e admirar o alpendre. Por entre os confetes de uma página e outra, ouvi um sussurro cifrado, pequenas vozes gregorianas. Por entre os ladrilhos de uma página e outra, os sermões me auxiliaram. Por entre os odores de uma página e outra, contei as moedas. As portas se abriram.      



  

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Exclamações e bolinhas ao vento






Um dos itens fundamentais para se dar bem numa redação de concurso é o cuidado com a pontuação. Isso nem é mais novidade. É apenas um lembrete. Não são poucos os textos em que me deparo com exclamações, uma chuva, uma ruma, um balaio. Se fosse somente o sinal conhecido, um traço na vertical com um ponto em cima da linha, até que eu conseguiria engolir. Mas, não. Há sinais inventados, aos montes.

É claro que a linguagem da internet é única, com regras próprias, que vão se modificando com intensa velocidade. Trata-se de uma área em plena ascensão, com estudos sérios e que não se deixam finalizar. Nesse poço de situações virtuais, a exclamação cresceu, migrou para um rumo exagerado. A utilidade do sinal, sabemos, serve para expressar um sentimento de espanto, alegria, surpresa, indignação. Podemos utilizar num aviso, num chamado, num pedido. Então, se estou alegre e quero demonstrar com uma ou tantas outras palavras, posso exclamar, sim. O sinal, somente um, revela o que quero no discurso. Pronto. Um. Basta um.

Vamos ao ambiente analógico. O autor do texto não se conforma, às vezes, e joga umas três exclamações. Outro tipo de autor, pode ser até o mesmo do primeiro exemplo, faz um desenho diferente: um triângulo isósceles com o vértice para baixo e uma bolinha em cima da linha do papel. Outro tipo de autor faz da trave um traçado sinuoso. Outro tipo de autor coloca um ponto ou uma bolinha abaixo da linha. Pois é. Na nossa língua, não me lembro desse sinal de pontuação no formato de uma bolinha, quase do tamanho de uma letra.

Quem já contou com redação por mim corrigida, percebeu meu olhar. Viu que não aliso. Circulo as exclamações desnecessárias ou repetidas. Preencho todas as bolinhas. Na cabeça de certo tipo de autor, bolinhas não são somente exclamáveis; também viajam nas letras i, jota e nos pontos finais, nas interrogações e nas reticências. O ponto-e-vírgula não escapa. Quando é aula em que se pode desenhar, aí vale qualquer forma geométrica e criativa possível. Tranquilo. Caso não esteja em foco essa ferramenta deliciosa da linguagem visual, vamos cumprir, portanto, o que manda o ritual do gênero pleiteado. Em se tratando de escrita para uma prova, teremos uma equipe treinada para apontar erros. A parte estética pesa para o candidato.

Certo dia, um texto enviado para vários blogs ou portais descrevia cenas exuberantes, personagens fortes. Não fosse pelo tanto de exclamação, eu teria me emocionado muito mais. Tudo bem, era uma crônica, algo mais descontraído. Mesmo assim, vi um milharal desidratado. Uma das cenas mais melancólicas. Acenei para comilanças que viriam a nascer, se o plantio estivesse saudável: pamonha, canjica, cuscuz, bolo, mingau. 

Numa das minhas primeiras aulas sobre dissertação, escrevo cinquenta dicas sobre o tema. Apenas palavras-chave. No decorrer de, pelo menos, três encontros, vou explicando: o que deve ser evitado; o que nem de longe deve ser elaborado; o que é importante fazer. Alguns falsos leitores ou preguiçosos de carteira reclamam na minha cara e consideram esse meu plano uma espécie de ensaio para o terrorismo. Respiro fundo, miro bem na pupila do sujeito e digo que são as regras e que eu não as inventei. E ainda falo assim: o bom aluno é aquele que copia o que o professor está falando, ou seja, escreve o que não necessariamente está escrito no quadro, no livro didático ou num arquivo compartilhado por e-mail.

Não sei se fui tão boa aluna assim, mas esse treinamento me aperfeiçoou na vida futura de repórter. Uma pena eu ter jogado no lixo tantos blocos e cadernetas; eles me diriam uma série de coisas, uma centena de cristinas.       








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quinta-feira, 2 de abril de 2020

Talvez os minutos surgissem


























Mesmo enfileirados, entendíamos o que se passava a trinta metros de distância. Entramos num meio de transporte. Não era ônibus, van, nave, nada que eu tivesse visto. Mas, de todos os meios, parecia um trem subterrâneo. Sentamos. Havia um ícone em cada poltrona, indicando nosso novo nome e nosso novo número. Nossas aparências mudavam gradativamente, a cada ponto de apoio. Embarcavam, nesses pontos, dezenas de outros seres, que já não eram mais pessoas, mas um misto de gente e luminosidade, bicho e centelha. Assim, de ponto em ponto, parecíamos nos confrontar com nosso mundo anterior. Paramos em pelo menos cem pontos. Não contei de verdade, pois adormeci. O sono era profundo e, ao mesmo tempo, real, pegajoso, intenso. Entramos noutro veículo, nos moldes parecidos com o trem de início. O mais recente, porém, trafegava de forma leve num terreno pantanoso. Por ali, víamos criaturas bem próximas do que nossa consciência avisava; em volta, todas caminhando naquele lodaçal característico, com aquelas plantas semiaquáticas, com aqueles anfíbios que se achavam os donos do pedaço. As criaturas pareciam satisfeitas. Apenas observávamos, em silêncio meditativo, pois éramos orientados a não sentir emoções perturbadoras da ordem. Um de nós, que havia entrado no ponto de apoio da planície, resolveu chorar. Foi, de maneira automática, eliminado. Desintegrou-se, em fiapos de luz. Continuamos firmes, sem dramas, sem perguntas, apenas observando cada trilha de acesso a um lugar ainda improvável. Num dos caminhos enlameados, paramos para obedecer a um sistema mínimo de trânsito. Por nós passou outro trem, multicor, barulhento. Era um barulho agradável, mas não posso classificar como música. Havia um ritmo, uma sequência lógica, uma harmonia que se guiava por alguns sinais do ambiente. Isso durou dois segundos. É o que eu imagino que seja, pois a noção de horas não existia ali. Um tempo indefinido. Algo a se pensar. Percebemos que existia uma fronteira a ser transposta. Alguns seres, que posavam como se fossem vigilantes, indicavam uma estrada de pedregulhos. Com esse comando, nosso trem saiu do pântano. Uma das criaturas, no entanto, resolveu seguir conosco. Aliás, resolveu cumprir uma determinação e grudar numa das portas. Não foi tão bizarro. Nossas mentes é que arquitetavam em progressão aritmética. Uma tela gigante apresentava nossos pensamentos, todos, de uma só ninhada. Trilhões de ideias, medos, estigmas, sombras e passaportes, vibrando num acorde desmedido, para que ninguém ousasse revelar o segredo. Um de nós tentou capturar outro pensamento. Foi enredado por uma névoa estranha, que imitava um fiscal de pátio. Nossa voz saía em canudos, por um cânion que aparecia a cada compartimento temporal. Talvez os minutos surgissem. Cada tubo ecoava noutro trem, que vinha tão lento, que adormecemos dentro do sonho. Tivemos certeza que era sonho e que não teríamos capacidade de sair dali sem que todos concordassem. Olhávamos uns para os outros de forma calorosa, animada, risonha. De forma esperançosa: recheada de chocolate. Não percebemos, porém, que todos estávamos noutro trem, mais festivo, mais convidativo. Pisamos no solo, velho conhecido. Éramos incapazes, por enquanto, de falar sobre o que sonhamos em conjunto. Mas sabíamos. No meio daquilo tudo, salvou-se um emaranhado de palavras e sentimentos. Saltitou. Brilhou. Bem na nossa frente, foi se erguendo. Tornou-se parte de tantos mundos. Combinou termos, sílabas, sons, apetrechos verbais. Combinou lembranças, personagens, sentidos. Nasceu o poema do dia. 




terça-feira, 17 de março de 2020

Tudo sobre o povo celta






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     Bom dia. Sabendo que meu público-leitor é sagaz, não preciso dizer que esse título é uma grande inverdade. Ainda estou analisando o vetor do problema, dentro do tema que trata sobre autores de livros com mania desse tudo. Tudo, tudo, tudo. Tudo sobre tal assunto. Tudo sobre tal pessoa. Tudo mesmo. Eles garantem e vendem, e muito.

     O que é, então, o tudo, pergunta o filósofo Parmênides a si mesmo, há mais de quinhentos anos antes de Cristo. Se Professor Raimundo estivesse diante de tal fato, perguntaria a Rolando Lero por que Parmênides se dedicou a discutir o abstrato. Rolando, com seu semblante risível de aluno preguiçoso e fraudulento, diria que o grego bebeu algumas doses a mais, durante uma festa com Zenão, numa taberna bastante disputada pela nata intelectual.  

    O abstrato é uma linguagem corriqueira, mas ainda acessível para poucos. Podemos considerar que sofre preconceito, por suas características não tão evidentes. Nossa mente muitas vezes processa o que está exposto com mais clareza, o que está mais burocraticamente revelado. O nosso cotidiano é o responsável por isso: a roda-viva nos instiga a querer o óbvio, a não enfrentar o que não está, de certa forma, perceptível. É assim que os títulos dos livros que citei como exemplo conquistam os que querem as respostas sem esforço, dispostas numa bandeja de prata. Se possível, em ordem alfabética.

   A linguagem abstrata nos oferece amplas possibilidades de análise. Quando produzo minhas colagens, gosto de pedir a alguém para avaliar, à primeira vista, o quadro. Depois, peço a mais alguém e mais alguéns. Não importa se fulano acerta ou cicrano erra ou beltrano se aproxima. Importa que cada um, com seu maquinário cognitivo, proporciona uma chance a si mesmo para entrar, com maestria, no túnel de significados. A leitura de uma obra de arte auxilia a descortinar nosso próprio olhar. É um exercício gostoso. Um treinamento diário.

    Então, diante disso tudo, fico imaginando o que dizer ao meu amigo Parmênides. Nas livrarias, físicas ou virtuais, estão lá os livros que dizem que falam tudo sobre determinado assunto. Não confundir, por favor, o que o cineasta Pedro Almodóvar fez em Tudo sobre minha mãe. Pedro não é bobo e fez o título de forma provocativa, forma que, aliás, paira sobre toda a sua produção.

    E esse tudo dos livros não está sozinho na fila do pão. Com ele, os que acham que contam a verdadeira história. A verdadeira história dos vikings, a verdadeira história de Cinderela, a verdadeira história de Dom Pedro II, a verdadeira história da Amazônia. Paremos um pouco para estudar, primeiro, a verdade. Sem dúvida, uma constelação se abre num céu de argumentos e certezas, conceitos e mistérios, fórmulas e tabelas.

    Procuro as estrelas. Enquanto isso, pego meu telescópio construído de açúcar e mergulho nas perguntas. No fundo do mar das inquietações, uma concha pede para ser aberta. A pérola está lá: um belíssimo ruído que invadiu um corpo estranho. Sua apresentação é mais do que concreta, mas o abstrato a tonifica, desde sempre. E ainda achamos tempo para dizer que o nada não existe.






sexta-feira, 6 de março de 2020

Com pimenta e tudo










Na crônica passada, cometi um erro duplo, de concordância nominal e de revisão. Eita. Ainda bem que existe uma alegria dupla também: leitores compreensivos e edição toda semana. No início do último parágrafo, escrevi: Mas confesso que minha torre de refrigerantes ruiu e, com ele, grande parte da minha ligação com a cor lilás. Correção: a torre de refrigerantes ruiu e, com ela. Ela: a torre. Eu poderia também concordar com eles, os refrigerantes. Mas, estou aqui remando.

Esse pronome masculino surgiu porque eu ia falar de mundo de refrigerantes. Quando mudei para a palavra torre, achando o termo mais apropriado, engoli a concordância com pimenta e tudo. Essa doeu. A torre desabou na minha estrada dos tijolos amarelos, cujo primeiro entroncamento desemboca na Terra do Nunca; de lá, há uma brecha para As Mil e Uma Noites – obra lida na sua língua original, em árabe. Meu sangue mouro ferveu. Deparei-me comigo mesma. Isso é segredo.  

Falando em livros, na crônica retrasada, ou seja, na crônica Lino e Leno, deixei transparecer minhas características de repórter. São características que se espalham em ramas. Não sei bem quando comecei na vida a fazer esse trabalho, mas pelo menos eu sinto que nunca vou deixar de ser. Talvez eu tenha iniciado quando tentei descobrir quais eram as versões reais das músicas tocadas no meu trenzinho. Eu nem sabia quem eu era, muito menos o que era música e o que era pesquisar. Talvez eu nem soubesse o que estava querendo. Sei que A Fonte do Itororó, canção folclórica e de domínio público, era um dos meus alvos de observação.  

Talvez eu tenha iniciado de verdade, e com consciência, quando editei um dos jornais da sala de aula, na sexta série. Tínhamos três edições. Éramos fortes. Aos onze anos de idade, nosso repertório intelectual já discernia o que era brincadeira ou piada daquilo que era concorrência acirrada ou campanha para presidente de alguma repartição imaginária. Entendíamos, sobretudo, que nosso ritmo era uma festa: foi com tal pensamento que solidificamos as nossas amizades.

Anos depois, tornei-me repórter de fato e de direito. Continuarei, seja em que vertente do conhecimento estiver. No atual dia a dia de professora, assisto a uma reportagem diária. É um assistir participante. Daquelas dezenas de olhares frenéticos, surgem personagens diversos, que se misturam aos contos, aos minicontos, aos ensaios, aos romances, aos poemas, pois se consagram como pontes para o alvorecer das ideias.

Percebo uma variedade de jogos, enlaces, entraves, comemorações, flertes, recomeços, viagens, acordos. Percebo o menino que está a fim da menina, a menina gótica, o tímido sofredor, o gago quase disfarçado, a religiosa combativa, o líder nato, o malandro agulha, o capitão-do-mato, o menino do interior, o garoto do shopping. Percebo quem não me percebe. Não há como fugir. Não quero que você, querido leitor, considere que estou com rompantes de vaidade. Lembre-se que nem tudo é confortável. Há situações em que eu rezaria para não perceber a poeira subindo, mas acontecem.

Olhares esperançosos, olhares aflitos, olhares perdidos, talentos reprimidos, dores enrustidas, vitórias tantas: um celeiro de histórias. Com isso, percebo a mim mesma. Percebo-me, com as minhas pessoas dentro da mesma. Dentro da mesma pessoa. Falo das muitas pessoas que somos, cada uma com seu balanço, dentro da pessoa principal. Exprimi, em algum rápido exemplo, um pedaço de uma das minhas pessoas, a repórter. Sim, pois dentro da pessoa repórter existem inúmeras outras pessoas e repórteres.

Há quem diga que o faro seja nato do repórter; há quem diga que existam técnicas para despertar essa argúcia. Mas, pelo que provavelmente disseram as minhas tetravós, noutros linguajares, para cada linha existe um ponto. Repórteres dependem de datas, testemunhos, lugares, imagens, pormenores. Um caminhão de pormenores. Eis a chave para toda a questão da alma de um repórter. É o pormenor que se torna grande, por ser um acontecimento ou um dado fundamental para o desenrolar de um caso. É o detalhe que faz a manchete, é o detalhe que derruba a muralha, é o detalhe que embeleza o bolo. É do detalhe que o povo quer saber. Bora.










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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Regra número um





Na TV, um comercial com uma nova cor: lilás. Era a Fanta Uva sendo lançada. O que seria aquele líquido colorido e fermentado, não sei. Doce, é certo. Açúcar, uma bomba de glicose. Mas criança por acaso quer saber de coisa que faz mal, manual de instruções, bulas, estatutos regimentos: sim. Sim. No meu caso, sabia que existiam as normas.

Sei que, no dia do aniversário de Révia Mara na escola, tínhamos garantida a Cajuína, bebida universal nordestina. Já era por nós suspeitado. Eis que, naquela manhã de setembro, chega uma grade com os refrigerantes. No meio deles, adivinhe: a Fanta Uva, a moda, a onda do momento, a sensação da praça.

Sentamos em círculo: regra número um. A número zero era manter a elegância e a boa educação. Depois do recreio, festa. A sala era nossa. O birô ficava enfeitado de sabonetes, cartões, desenhos, chocolates e flores: eram nossos singelos presentes à aniversariante. Que beleza. Colocávamos nosso papo de meninas em dia: brincadeiras, papeis de carta, viagens imaginárias, Histórias em Quadrinhos, músicas, artistas famosos.

Ao meu lado, no círculo, sentou-se Luciana Batista, a garota mais cotada da escola para fazer o papel de Nossa Senhora nas apresentações religiosas. A fama se espalhou para outras escolas e dioceses. Bom comportamento, sorriso sincero, olhos esverdeados, pele alva e cabelos longos e lisos eram os atributos da nossa jovem santa.

Na festa, Tia Telma começou a servir os refrigerantes. Cada aluno com seu copinho, esperando uma bebida que refrescasse o calor e fosse favorável à nossa obediência. Se eu fechar os olhos, pareço voltar no tempo; visualizo toda a cena. A última gota da última garrafa de Fanta Uva daquela manhã festiva, portanto a última daquele dia de setembro, caiu no copo de Luciana. Pois é. Como destratar nossa colega iluminada. Como fazer cara feia diante da nossa colega famosa.  

O que eu podia fazer, nada. Nada. Nada mesmo. Mas, confesso que minha torre de refrigerantes ruiu e, com ele, grande parte da minha ligação com a cor lilás. Fiz um treinamento comigo para parar de pensar no corante doce. Acostumei-me com o sabor laranja. Ao longo de muitos anos, a cabeça foi se aprumando e ficando menos densa, o coração menos trevoso, os ouvidos menos moucos aos bons conselhos. Ao experimentar a bebida depois, senti que um terço da graça se perdeu. Faltou o clima geral da novidade, a quentura da mídia, a linguagem publicitária em sua plena forma, a hipnose. Isso: fui hipnotizada. Esse povo da mídia é assim.   










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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Meu brinquedo platônico








Mercado Central: início dos anos de 1980. Eu procurava fazer tudo certinho, ser bem obediente e comportada nos lugares, sabendo que havia a possibilidade de ganhar um pão doce com garapa. Garapa, que eu digo, é caldo de cana. Claro. Pois é. Ir ao Mercado era um presente, uma premiação, algo que eu pudesse desfrutar, degustando cada compartimento daquele conjunto de informações para a minha cabecinha de criança. Parecia um parque de diversões. Luzes, cores, gente, música, conversa.

Chegávamos em Dona Lormina. Gente, o que era aquilo? Botões: centenas. Formatos diversos, texturas várias, finalidades combinadas. Um mundo. Cores, tantas, muitas, à distância. Isso mesmo. Eu observava a certa distância regulamentar, com mãos para trás. Olhos ligadíssimos. Acompanhava o funcionamento daquela complexa tecnologia de pregar botões com uma máquina, que parecia um brinquedo. Sim, era meu brinquedo platônico.

Pensando bem, o que eu faria em casa com tal engenhoca, não sei. Estou falando aqui de uma menina com seus seis anos de idade. Segundo a metragem da sujeita, pequena repórter, a máquina era gigante, objeto tão difícil de manipular quanto um trator. Quando eu chegava em casa, relatava minhas andanças para as minhas bonecas. Falava de uma banca de uma tal de Dona Losmina. Aí eu não entendia se era Losmina ou Lormina.

O Mercado guarda uns mistérios nos seus frequentadores. Não é possível que aquele teto fique silencioso ao tempo, sem ao menos esconder um segredo, uma treta, um enigma. Cada banca, uma parte do labirinto. Andando mais um pouco, lembro bem da família Mareco. Mais de um ponto comercial e sempre o mesmo sorriso e a forma anfitriã de tratar os visitantes. Às vezes, acontecia de me encontrar com Lucilândio, meu colega da Escola Nossa Senhora do Carmo. Lu é Mareco e Pereira.

Lembro com carinho de Auxiliadora Leite, Bia, na banca de Seu Geraldo. Bia me conhecia desde criança, andando no Mercado com minha mãe. Depois, Bia acompanhou minha morada no Alto Belo Horizonte, dos nove aos dezesseis. Sempre ao visitar meus familiares naquele bairro, era comum parar e tirar três dedos de prosa com Bia, Fátima, e outras tantas que me acompanham, como a família de Seu Casimiro. Edinaldo, Erivaldo, Neta, Neide, Neida e outro grupo pelas calçadas, a desejar boas-vindas aos velhos conhecidos. O povo do gesso, um vai e vem de trabalho, histórias e festas. Tem mais gente: deixemos para outra crônica. Bia agora está noutro mercado, com anjos celestes; lá não se negocia qualquer linha, fita, lã ou agulha; o local deve abrigar painéis flutuantes com milhares de cores, inclusive as que nem conhecemos.

Que alegria sorrir para as pessoas, no meu shopping center. Olha, como ela está grande. Hum, já teve piolho. Olha, ela sempre passa de ano na escola. Olha, ela gosta de estudar. Olha, ela vai ser anjinho de Nossa Senhora. Olha, parece com o povo das Melancias. Muito bem. Depois de andar à vontade, era hora de tomar garapa. Confesso que eu ficava esperando mais pelo pão doce do que pelo caldo. Mas eu traçava os dois, sem dó. A sobremesa era um picolé da Walmor ou um tubo de dropes.










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Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...