quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Coisa pra curandeiros e raizeiros



















Aquele pedaço de folha desce na correnteza, brilhando, numa velocidade olímpica. Espetáculo, emoção: vamos prestigiar, temer, admirar, agradecer. Cinema, cinema mesmo, sem preço de ingresso ou cadeira marcada ou qualquer negócio para suavizar a interpretação. Balde do Açude Grande: exibição da sangria. Sangria para todos. Sem hora específica para finalizar. Sem quantidade determinada de espectadores. Apenas para ver a água, imensa, e toda a reverência a ela, e toda a capacidade de admitir sua grandeza e sua beleza essencial à vida.

Cinema gratuito, em movimento. Som associado ao barulho da rua, ao barulho das vozes e gritos e risos. Aquelas caras de espanto e dúvida, sem saber por quantos dias, se o filme será uma série, se o barulho tende a aumentar, se vai haver mais festa, se podemos falar em sangrando mesmo, se sangrando pode ser o mesmo que vazando ou extrapolando.

Aquele pedacinho de pneu não deveria estar ali, mas correu, foi flagrado, ultrapassou a vegetação, embolou-se com uma pedra. Participou do filme como intruso, desmereceu os atores de renome: sapos, jias, cururus, rãs, pererecas, cidadãos anfíbios. Aquela sacola plástica entrou, também burlou as regras, aproveitando-se da própria leveza. Estruturou, na surdina, seu criadouro de bactérias.

O público vira torcedor de um filme único. A força da água puxa e repuxa, com seu marrom inimitável, um chocolate barroso e mentolado com ramos de jiboia, a planta democrática, respira na água, respira na terra. Sessão livre. Sessão livre. Criança pode tentar entender tudo aquilo. Não há vigias, seguranças, zarabatanas, canhões, catapultas. Não temos certeza se o processo será indicado a prêmios internacionais. O roteiro é associado ao mistério: como medi-lo, não sei. Coisa pra curandeiros e raizeiros.

O picolezeiro está ali. O pipoqueiro está ali. O fã, o piadista, o bajulador, o gaiato, o cético. Todos. O importante é que não funciona o ano inteiro nem todo ano. Ainda não sabemos se amargo ou salgado, se competição ou atração, se xote ou miudinho, mas a plateia se agita. Um se diz corajoso, quer ir, quer se jogar, fazer parte, chegar ao canal, sentir o lodo, ser notícia.

Olha. Bem ali. Um tronco enorme, descendo, disparado. Vamos arriscar. Seria um pedaço de jurema, sem a sua espinheira defensora. Seria um pedaço de galho de castanhola, que se desprendeu com a ventania, veio remando, remando, remando, lá do Serrote. Seria um grande navio troiano, com colônias e colônias de fungos; num efeito supersônico, voaria pela região mesmo, nas pequenas galáxias invisíveis, somente alcançadas pela visão da fé. Seria um tronco de carnaúba, que atravessou os sertões todos e boiou até se esfacelar na força da corrente, num efeito estelar.

Uns peixes se aventuram um tanto aflitos, encapuzados, grogues, pinotando naquele tremendo parque de diversões. Os pescadores estão prontos, levam varas e redes, anzóis e iscas, baldes e desejos. Dívidas. Os bichinhos fogem, pegam carona nos tubos doces, surfam no túnel de esgoto para se livrar dos predadores humanos. Outros se desintegram, enxergando cores que só eles, no vão noturno, entre plânctons, pedregulhos e civilizações. Aparecem em sonho. Voam ou alcançam a plenitude. Peixificam-se para a História.   

E, de madrugada, ressurgem pequenos e minúsculos e microscópicos e incontestáveis insetos, bailando, sambando, sendo eles mesmos. Vaga-lumes, muriçocas, besouros, mariposas: todos a postos para a Corrida do Sereno. Mas, espere. Isso tem que ser contado noutra hora.      



quinta-feira, 15 de março de 2018

No alto do Horto









Qualquer viagem a Juazeiro do Norte era um acontecimento honroso, uma festa, uma aventura no meu mundinho de criança. Subir a ladeira do Horto, tirar foto, acender vela, pedir bênção a Padim, comer pipoca de arroz, chupar pirulito, rir com as presepadas das figuras encontradas ao longo do caminho. Tocadores, rezadores, benzedeiros e comerciantes. Turmas, levas, grupos, penitentes, pregadores e romeiros. Cada um clamando por dias melhores, pela própria cura física, por mais fé, pela reabilitação de algum parente ou amigo, pela paz no mundo. E em coro silencioso, essencialmente redundante: chuva, chuva, chuva.

Primeiro, íamos a Missão Velha.  O nosso primeiro ponto de pouso era a casa de Iraci Furtado, nossa querida amiga, desde quando morou em Conceição do Piancó. Costureira exemplar e feirante, proporcionava à nossa pequena caravana um certo conforto: era conhecedora de todos os cantos, recantos e entrelinhas do comércio juazeirense. Perambulávamos um tanto. Por toda parte, gente vestida de preto, para homenagear o fundador da cidade, Padre Cícero Romão Batista, líder religioso e político da região. No ruge-ruge dos caminhantes, aparecia um conhecido, um conterrâneo, uma criatura pra dizer algo ou soprar um verso de ladainha. Burburinho. Cochicho. Plantões de butuca.

Em Juazeiro, em determinado período, também visitamos Tia Maria Lima de Assis, que decidiu viver seus últimos dias naquela cidade, especialmente no bairro São Miguel, para cumprir um combinado com o saudoso marido, Tio Vicente. Eita, Tia... Muitas histórias, bordados, batuques, carambolas e melancias. Uma crônica à parte.

No verde da praça principal, no Centro, chegava uma brisa gostosa e úmida do cariri. Brisa que ainda hoje sobe, desce, assobia e volteia a Chapada do Araripe, desenhando o clima do lugar, mais agradável do que a secura sertaneja. Por ali, por acolá, pelas ruelas que invadem o percurso, sons diversos, entre eletrônicos e chamarizes para compras, choros, gritos, gaitadas e risos. Espaço coalhado de emboladores, violeiros, repentistas e cordelistas, compartilhando suas expectativas com os artesãos, sedentos para exibir a criatividade do povo, da cultura que nasce da raiz do coração.

Toda essa viagem escrita aqui e agora reacendeu durante a leitura de “Guerra ao fanatismo: a Diocese de Cajazeiras no cerco ao Padre Cícero”, do meu amigo escritor Francisco Sales Cartaxo Rolim. Além da rica bibliografia que serviu de base para o ensaio, coube na obra a visão crítica de um cajazeirense aplicado. A pesquisa se arquiteta num estudo cuidadoso sobre a transição do século XIX para o XX, com os detalhes da fronteira: Paraíba e Ceará, Ceará e Paraíba.

A narrativa provoca o leitor para estudos perpendiculares sobre fenômenos sociais, a exemplo do coronelismo, do banditismo, do cangaço, e questões de gênero, envolvendo a Escola Normal do Padre Rolim. Ainda podemos encontrar um prato quente sobre a imprensa católica e a nobre trajetória de Dom Moisés.

Um presente e tanto. Um convite para pensar.  Um convite para lembrar. Cada momento aboia nos meus ouvidos, bate no trinco da cancela de Olho D’Água do Melão pra dentro. Cada momento chega sem aperreio, na Rural de Seu Zé de Joca. Na trilha sonora, Gonzagão. Sempre.

  

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Mimo








Naquela enorme e suculenta floresta, era possível caminhar com cuidado, em fila, no maior silêncio possível, sem ilusões. Um gafanhoto quis assustar o exército. Não conseguiu. Virou ímã.  





quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Café quentinho com tapioca










As tradições folclóricas são saborosas com o povo do sertão. As festas juninas e julinas são sempre melhores no interior, preferencialmente na zona rural. Um pavilhão de significados, girando, girando. Vamos abrir a porta, vamos entrar na casa do caboclo, do caipira, do jeca, do sertanejo, do matuto, do implacável defensor da terra. Mais água no feijão, que tem visita. De sobremesa, rapadura, alfenim ou goiabada cascão.

Sertão aqui não se trata de lugar seco, semiárido. É o lugar que se distancia do povaréu metropolitano do litoral. É olhar para dentro, no umbigo. É garimpar um planeta de infinitos anéis e mistérios. Causos, assombrações, visagens, pifes, reisados, bingos, anedotas, mezinhas, benzeduras, ladainhas, novenas, promessas. Trabalho. Trabalho. Trabalho. O céu se abrindo.

A literatura é um prato colorido de culturas, confirmando que ler é uma viagem saudável. E quem sabe disso tem o poder de apresentar o ritual a quem ainda não sabe. Arrumar as malas, então, consiste em abrir um livro e se concentrar para compreender o que o autor tem a nos oferecer. Cada autor com seu repertório. Cada autor com seu sertão, seu âmago, seu crediário. Cada autor com suas inquietações, seus fuxicos, suas dores, seus infinitos sonhos.

O cenário conflituoso de Canudos é muito bem descrito pelo nosso primeiro grande repórter, Euclides da Cunha, em Os Sertões. Guimarães Rosa nos abraça com as veredas e os desafios do seu Grande Sertão. Os pampas mais gostosos no Sul em Érico Veríssimo estão no interior. Monteiro Lobato nos encanta com um sítio inteiro de presente, coroado com um pica-pau amarelo, no interior do Vale do Paraíba paulista. A morte ou a vida severina de João Cabral não começa dentro das fábricas, mas em cada lajedo avermelhado. Jorge Amado é muito mais Itabuna e Ilhéus do que Salvador. Os personagens pintados por Graciliano descortinam o máximo os costumes e as peripécias do rincão das Alagoas.

Estou falando do Brasil, mas isso pode ser em qualquer sertão do mundo. Gabriel García Márquez é genial porque fala na cidade de Macondo, nas entranhas imaginárias da sua Colômbia. Os primeiros romances de Agatha Christie são ambientados em cidades inglesas do interior. Antes de dar a volta ao mundo em oitenta dias ou se aventurar nas vinte mil léguas submarinas, Júlio Verne aproveitou sua criancice no interior da França. São tantos os exemplos. Cada autor com sua artimanha, seu dengo, seu segredo. Cada sertão com sua aquarela. Cada interior com seu traço. 

Para falar do sertão, não é preciso tanto apelo tecnológico. Para falar do sertão, não é preciso aprovar regimento. Para falar do sertão, basta sentar na calçada. Basta falar do açude pedindo mais água, do broto do feijão, da tamarineira florescendo, do tacho torrando a farinha, do menino ou da menina soltando coruja ou pipa. Basta ouvir os acordes da banda marcial. Basta saber que a chuva merece um poema.

Para pensar no sertão, basta andar descalço. Basta ouvir o galo cantar. Basta observar o João-de-barro arquitetando a morada. Basta ser menos monóxido de carbono, menos hipermercado, menos arranha-céu. Basta ser mais renda de bilro, mais alpendre, mais flor de marmeleiro. Mais café quentinho com tapioca. Mais bila, traque de sala e boneca de pano. Mais carrinho de flandres. Mais sombra na latada. Mais forró de fio a pavio.




quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A gramática da limpeza
















Estive pensando, pensando. Tomei algumas decisões que pareciam urgentes. Vou fazer uma limpeza gramatical de pensamentos. As figuras de linguagem me auxiliarão nessa viagem. Economizarei alguma coisa, eliminarei esforços, vou tangendo os burros da estrada. É eliminação e, ao mesmo tempo, perfume. Trata-se de uma daquelas faxinas que aproveitam alguma quinquilharia guardada, com cheiro de mofo, e que, se sacudida, expele algumas lembranças. No meu caso, ao tomar coragem para a tarefa, as bactérias já se inscreveram para participar.

Fui pensando e decidi que era uma daquelas limpezas que dependem de alguns dias, em momentos diferenciados. Algumas podem ocorrer até em sonho, em camadas. Vou me atirar na gramática do asseio, pois a gaveta da memória guarda figuras desnecessárias. Se possível, capturo um pleonasmo daquele pensamento trancafiado, que há muito não batia à porta. Ao mesmo tempo, vou hidratar umas prosopopeias, com seres que precisam de voz e vez, aspas, travessões, significados, expressividade. Não vejo problema em leitões falantes, como Marquês de Rabicó. Preste atenção no seu gato, na sua árvore, na sua ametista: todos falam. Tudo isso é provável, em se tratando da aldeia dos pensamentos. E se a preguiça bater? Silepse. Uma chinelada nas frases imaginadas. Silepse de gênero, número e pessoa: olimpíadas transmitidas pelos neurônios.

Posso até hibernar nas convicções, sem metáforas. Sim, porque algumas merecem ainda meu estacionamento inteiramente gratuito. Algumas têm cara de eternizadas. Ao cansar de ironias, vou ser mais simples, com postura de comparação. Farei uma limpeza pública, em certos casos. Quero ser mais clara e ágil no pensar, menos paranoica, menos entrevada de elipses, também menos recheada de paradoxos. Bem menos paradoxos. As figuras aqui estão libertas dos dicionaristas. Elas simplesmente entraram no texto com vassoura, pano, rodo, aspirador. Tudo bem.

Não reclame comigo, pois vou me jogar nas metonímias, nos polissíndetos, numa música sem fim, num concerto que será regido num florestal de culturas. Repetições para os pensamentos bons. Por que me limpar deles? Muitas repetições. Uma mistura de livros. Umas sequências bem permissivas com a palavra, que é gente. Gandaias de símbolos. Por que não um poema no prato? Para as hipérboles, para as catacreses, para os sucos de graviola, vou dar uma chance. Se for tudo muito árduo, paro. Respiro.  

Em dia marcado e bem intencionado, vou realizar um banquete para as antíteses. Quero saber se elas mesmas serão capazes de se olhar, de encarar essa brincadeira com seriedade. Quero saber se elas vão disputar mesmo no ringue. Em seguida, proponho uma dança com os eufemismos, todos os eufemismos, uma ciranda de eufemismos, para que não nos cansemos tanto, para que a realidade não esculache com as singelas festinhas de aniversário. Os eufemismos serão sempre um bálsamo depois da limpeza pesada.


Vou fazer aquela faxina mesmo. Meus desejos em aliteração saltitam. Minhas ideias em gradação: certo, tranquilo, concordo. Antes, porém, pausas. Pausas. Pausas. Darei uma larga chance à anáfora. Agora. Vamos limpar, vamos pensar, vamos organizar. Darei uma larga chance ao glúten. Darei uma larga chance àqueles prazos para começar a malhar. Darei uma larga chance aos derivados de suínos. Darei uma larga chance ao sertanejo universitário. E, após essas vacilações conscientes, já estarei em paz com a minha hora da faxina, com caneta, papel e desinfetante de eucalipto. Quilos e mais quilos de lições. Outras figuras de linguagem ficarão à espreita, querendo entrar aqui. Aguardem. Transformem-se. 




Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...