domingo, 30 de maio de 2021

Fontes ricas e silenciosas

 



 

    Cemitérios são excelentes locais para estudarmos História. São fontes de pesquisa constantes, pois recebem, quase todos os dias, moradores permanentes de seus túmulos. Não quero aqui estabelecer uma relação gótica com meu querido leitor. Nem quero incentivar lembranças dolorosas. É, sim, natural lembrarmos. Mas é tão natural também saber que todos iremos, um dia, morar por ali. Não há quem escape. Não estou pensando no meu dia nem quero que chegue logo. Na realidade, não tenho um pingo de moral para saber em qual dia será, como será, por que será. Isso é a chave do mistério que ronda todos nós.

    O que quero pensar é a riqueza de detalhes de um local, às vezes tão menosprezado pelas autoridades. Às vezes tão causador de temor à população que crê em aparições ou assombrações. Digo com certeza: o temor, se existir, é de quem está com os olhos bem abertos e as maldades pulsando. São espertos e muito espertos aqueles que passam no local, não para rezar ou visitar. Os vândalos são aqueles que destroem por satisfação. Herdaram a palavra do povo bárbaro de raiz germânica, que estraçalhou parte da Península Ibérica, no século V. Em muitas situações, aprontam para protestar e nem roubam: somente vandalizam. Sentem prazer em destruir. Talvez uma rasteira demonstração de força e audácia. Talvez não saibam que ali não é apenas um reduto de silêncio eterno dos moradores. É um centro forte de dados para pesquisas, as mais diversas.

    Podemos encontrar muitos exemplos, auxiliados pelas datas dos personagens que habitam aquelas construções. Podemos investigar em que época se construíram determinadas lápides; quais eram os materiais utilizados em certos períodos; de que forma são dispostas as fotografias dos falecidos; de que forma é a iluminação noturna; por que foram reservados pontos ecumênicos ou capelas; quais as famílias que exibem seus túmulos mais requintados; quais são as flores ou plantas que enfeitam os locais. Uma infinidade de temas. Lembrando, ainda, que é possível averiguar em que época e bairro foram construídos esses cemitérios e como era a cidade naquele momento. Temos mais um caso em que a História se irmana com outras áreas: Sociologia, Filosofia, Geografia. Veja que riqueza.

    Quanto mais o poder público se distancia da vigilância a esses locais, menos teremos dados para pesquisar. Menos teremos o respeito como item indispensável a qualquer cidadão. Menos os mais fiéis e devotos terão lugares para simples rezas ou solenes visitações. Não são raras as notícias de vandalismo. Não são raras as notícias de estragos ao patrimônio de qualquer natureza. Não nos restringimos às pequenas, médias ou grandes cidades ou metrópoles. Vândalo é vândalo em qualquer praça. Estão aí alguns causos que conhecemos ou ouvimos falar. Se é para ter medo, não sei. Mas, se houver, sim: dos vivos.   






Adaptado do Freepik



Meus apelidos




    Na minha família, existe um jeito especial de cada um se dirigir a mim. Em casa, não tenho apelido. Sou Cristina. Nasci como retrato físico fiel do meu pai, que tinha a cor da pele semelhante. Na família paterna, Titia Fransquinha gostava de me chamar de Nêga. Tia Netinha ainda chama. Acho ótimo. Sou mesmo. Meu padrinho João de Deus, antes de responder ao meu pedido de bênção, dizia: “Fala, Negona!” Sim, com aquele mesmo vozeirão que cantava tão bem a Ave Maria, de Charles Gounod.

    Ainda do lado dos Moura, Costa, Félix, Quirino, alguns primos mais chegados me chamam de Nêga. Lamare me chama de Nêga ou Cris. Afrânio me chama de Cris ou Preta. Lígia me chama de Jiraiya, assim como a chamo também, lembrando o herói japonês ninja, cheio de efeitos especiais, que nasceu com a missão de honrar o nome do clã. E assim a gente se diverte, pois ninguém é de ferro.

    Na família materna, do aconchego Oliveira, Lima, Ramos, tem Nêga também. Titia Nina me chamava, na infância, de alguns apelidos. Dia desses, eu e ela lembramos disso e rimos muito. Fulustreca era o mais falado, mais pela junção engraçada de sílabas e sonoridade do que pelo teor semântico. Na verdade, ela queria consertar minha célebre desorganização com os brinquedos. Se eu demorasse para tomar banho ou me arrumar, ganhava o nome de uma figura conhecida na cidade de Conceição, no Vale do Piancó. A moça, que não posso mencionar o nome, muito menos o sobrenome, é estranha, um tanto desmantelada.       

    Na escola, ganhei alguns apelidos. Tia Carmelita ainda me chama de Minha Preta ou Vaninha, este em referência ao meu primeiro nome, Ivânia. Quando representei Chiquinha, do seriado Chaves, muitos colegas passaram a me chamar pelo nome da personagem. Ali foi meu primeiro fã-clube de brincadeira.

    Cila Carneiro, sogra do meu irmão Christiano, foi quem inventou o nome Titia Cris e ensinou a minhas queridas sobrinhas, Marina e Camila. Foi instantâneo. Sou a Titia Cris delas, com muito amor. No meio radiofônico cajazeirense, os colegas Arnaldo Lima, Ivanildo Dunga e Petson Santos me chamam de Mourinha. Josival Pereira, de Cristininha. Gutemberg Cardoso, de Nêga, Moura ou Mourinha. O amigo Jackson Ricarte gosta de me chamar de Nêga, Preta ou Crioula. Os amigos Débia Souza e João Braz gostam de me chamar de Nêga ou Cris. O amigo Pepé Pires me presenteia com algumas alcunhas literárias, mas prefere Cris.

    Nas terras do Sudeste, meu ex-chefe Rogério Medeiros começou a me chamar de Paraíba ou Paraibinha. Como ele já rodou esse Brasil inteiro fazendo fotojornalismo e conviveu com diferentes gerações e sotaques, proibia-se de sentir preconceito. Tratava a coisa de forma carinhosa. E ai de quem mexesse com a filha adotiva nordestina dele.

    No centro religioso que frequento, sou Tia Cris, para as crianças. Para combinar, alguns adultos também me chamam assim. É o caso de Rodrigues Leal e de César Esquianti. Outros fazem graça, como Daniel Hoisel e Fábio Souza, que gostam de me chamar de Cri Cri. Alguns me chamam de Paraíba ou Cajazeiras. O amigo Max Félix é de um Félix do interior de Minas Gerais, mas me chama de Prima. Devolvo o codinome. Bom dia, Primo. Combinado.

    Poucos amigos me chamam de Tina. O capixaba Fabrício de Paula, cujo apelido é Pingo, é um deles. Um amigo mineiro querido, que já se foi, Fabiano Gonzaga, gostava de me chamar de Dona Cris. Poucas pessoas me chamam somente de Moura, assim como o amigo, professor e orientador acadêmico Carlos Vinícius Costa de Mendonça, conterrâneo, de João Pessoa. Fico feliz com todos os tratamentos. Continuo querendo ser eu mesma, mais amiga e mais paciente, no meio de toda essa gente boa.  





Adaptado do Freepik





 

domingo, 2 de maio de 2021

Conversa comprida

 


 

Há alguns tipos de conversa: a amigável, a brincalhona, a doutrinadora, a sorrateira, a sedutora. São tantos tipos, que nem cabem aqui nesta crônica de poucas linhas. A mais pegajosa de todas é a comprida. Pega, gruda, nodoa; se demorar mais, absorve. Uma conversa comprida é aquela que não é longa, em espaço e tempo. Para o bom nordestino, esse termo é associado a uma conversa enfadonha, que às vezes até deturpa o fator inicial, isto é, desvia o mote maior da prosa.

Como é isso, vou tentar explicar. É uma conversa até perigosa. Uma conversa que vai colando com outros temas, que sequer estavam planejados pelo falante que iniciou o assunto principal. O receptor, em vez de assimilar o sentido, quer bloquear o que está ouvindo e negar o que está entendendo.

Que conversa comprida: falamos de forma mental, sem querer diminuir o outro. Mas, parece algo tão bruto, que já chegamos à conclusão, antes mesmo da tentativa de finalização. Tenho medo de administrar, eu mesma, com minha voz e meus pensamentos, e vice-versa, uma conversa assim, tão enjoada. Não tenho o direito de chatear o outro com o comprimento das minhas definições.

O bom vendedor é aquele que jamais ousa executar uma conversa comprida. Se fizer qualquer ato parecido, perde a venda, perde o cliente, perde a vez, perde a comissão, perde o prumo. Deixei o feirante conversando de maneira insossa e comprida consigo mesmo. Perdeu a freguesa. Quero o produto, não quero o versículo.

Sacerdotes de religiões diversas, se enxugam o discurso, promovem o verdadeiro contato com suas doutrinas. Caso contrário, o ouvinte se sente culpado, por ser ainda tão imperfeito, coitado; e a tendência será o desligamento progressivo. Médicos entram nessa singela lista do meu mundo literário: se o aconselhamento é técnico demais, portanto comprido, de dar voltas no quarteirão, o paciente triplica a causa emocional da doença; o ouvinte se sente um grão de areia, por não saber o que são aqueles termos científicos.   

Políticos eleitos, em suas tribunas: muitos com conversas tão compridas e desnecessárias; muitos com a exibição na ponta da língua. De cambalhota em cambalhota, derrapam e perdem seus fiéis. Fantasmas gargalham com os sanduíches de vaidades dançando nos salões. Professores, mestres da sala de aula, donos do quadro ou da tela: perdem pontos no jogo a cada conversa comprida; o conteúdo salta do décimo andar ou se esconde, como um mamífero subterrâneo.

Quanto mais comprida a conversa, menos atenção do público, seja de qual idade for. A síntese pode ser um truque, um dom, um aliado, uma peripécia, mas um método que precisa acontecer. É outro trabalho. Se sintético ao extremo, não adere à consciência. Vou até concluir por aqui, com medo de alugar o doce olhar do meu leitor. Com medo da minha légua tirana. Com medo da estrada de curvas e penhascos. Com medo de encompridar as coisas.    





Editada do Freepik


segunda-feira, 19 de abril de 2021

Bonito

 










        Venha, amiga chuva. Venha mesmo. Venha me dizer por que estamos merecendo a sua nobreza. Venha dizer por que dizemos, em idioma nordestino, que o céu está bonito. O céu: bonito para chover. O céu, o tempo, o clima, acordes de beleza no ar. Ei. Olha. Olha. Desenhos, miragens, infinitas orações.

       Lembremos que os tufos acinzentados, os que se formam com as nuvens, dizem algo da quantidade que vem. Mas há sempre um resultado com linhas não muito exatas. Mesmo anunciando o modo chuvoso em tons e sobretons de um azul mais sério e fechado, outros elementos contribuem para a performance. Lá, bem longe, colados na linha do horizonte, clarões adornam o número, sempre em contato permanente com o comando da natureza. Os raios cortam a plataforma que esconde estrelas e outros astros, mas se dissolvem nos nossos olhares. Não me garantem que encontraram, do lado de lá, outras luzes.

    Bonito, que é bonito, venha. Se está bonito para chover, estará bonito durante e depois. Olha: relampeando, relampeando, relampeando. Olha, moça. Ali. Vem do lado nascente. Bonito demais. Olha, moço, os passarinhos já estão procurando abrigo. Naquela tarde, pinceladas de laranja, às vezes, juntaram-se aos blocos de cinza. E é tão bonito que não entendemos, de imediato, como se faz essa pintura, que muda, que amedronta ou surpreende. Venha, neblina. Venha anunciar que vai chover.

    Cada fenda de lajedo agradece essa superdose de alívio. Cada gota se multiplica em bilhões de minúsculos pingos, respingos, pensamentos. Cada gotícula enche de esperança tantos jardins e melodias, tantos discursos e promessas, tantas gargalhadas e fantasias. Venha, pois está bonito. Se trovejar, não nos incomodamos. É o som da primeira canção, é a percussão divinizada, é o ritmo das certezas. Olha. Olha, como é a natureza: avisa, alerta, promove, enriquece, acalma.

        Do preparo, do bonito, viajamos. Mergulhamos nesse fenômeno que enche de brilho nossa horta, que vira assunto na feira, que transforma o cardápio, que aproxima os desejos. Não é culpa desse esplendor o entupimento das galerias, o deslizamento das barreiras, a confusão no trânsito. Se é esplendoroso o presente, é abençoado. Sim. Mas, olha. Olha. Vamos pensar somente no que está sendo enviado, em forma de água, em parceria com o vento. Vem ali. Vem caindo em síntese ou expansão; visita as expectativas; aborda os mais céticos; tempera a conversa. Olha. Olha. Olha, minha gente, está bonito. Como está bonito. Olha. Parece que vem daqui a um minuto.   

 


Imagem: Freepik


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Quase vegana

 


        Passei apenas seis meses seguidos sem comer carne. Quando falo a respeito de carne, é claro, falo de fragmentos de bichos, principalmente dos conhecidos boi, frango, porco e peixe. Essa minha saga ocorreu com um propósito: facilitar algumas posturas de ioga. E funcionou. O corpo, ao ficar mais leve, desenvolveu os movimentos com mais rapidez ou mais eficiência. Mas, o tempo de dedicação foi curto. Perdi a batalha, por enquanto.

        Não fui mais adiante porque me rendi a um ensopado saboroso de rabada com agrião. Gente, não resisti mesmo àqueles pedaços de cartilagem, com aquele caldo cheirando a pimenta, cebola, alho, coentro ou salsa. Aquilo, colorido e brilhante, que uma vez serviu para compor o final de um esqueleto, de pronto me servia, em porções generosas. Parecia sussurrar assim: eu avisei.

        Sim, continuei com a prática da ioga, que não foi mais a mesma. Passei a intercalar dias sem carne, comendo ovo ou queijo. Palmito também, como nobre opção. Mas, num breve período, fui vencida. Logo se vê que não posso dizer que sou tão evoluída no campo espiritual. Há o pecado da gula que me cerca, dias e noites. Luto contra ele, como numa partida de boxe. Caso eu esteja de frente a um bife acebolado, é nocaute: com certeza.

        Dizem que há tipos de pessoas que não comem carne. Que comem somente peixe. Ora, pois. Somente peixe. Eu mesma já me empanturrei com moquecas, as mais variadas, com aquele pirão acompanhando as postas. Dependendo do bicho aquático, é carne sim, da boa, e com gordura, por baixo do couro. Percebi, depois de muitas investidas de boca cheia, que meu estômago não reage bem a esses encourados. Não significa dizer que eu esteja livre.  

        Outros seres da água, mesmo não muito convidativos ao meu paladar, também estão aptos ao meu octógono, à luta clássica dentro de mim. Não sei se me pegam no primeiro ataque. Aquela pergunta aparece, com ares literários: pensar ou não pensar; comer ou não comer; ser ou não ser. Mas ninguém faça cerimônia se quiser me apresentar uma panela com camarão, polvo, sururu, caranguejo ou siri. Devoro tudo, em rocambolescos minutos.

        Com a gula, há um médio controle, mas que soa como um sino que me atormenta. Quando eu me encontro com a costela bovina com batata, presto minha inteira solidariedade a quem a preparou. Tento ficar somente na batata, mas, realmente, não posso. Ainda me perco nas trilhas. Se possível, vou à cozinha do lugar e dou os parabéns aos responsáveis.

        Quando o assunto é ave, não somente frango, pato, galo e galinha me chamam a atenção. Lembro que, algumas vezes, comi arribaçã frita. Outros passarinhos, coitados, já caíram na minha teia. Admito que nem lembro de quem cometeu o crime da matança, e se o ato foi com baladeira ou arapuca. Quero nem saber.

        E quando o tema é suíno, olha, até tento me segurar, mas um churrasco de linguiça é de salivar. Aquelas bolinhas gordurentas me inspiram, mas parece que me vigiam, dizendo: Cristina, você não é mais criança. Vá devagar. Aliás, toda carne que enfrenta a brasa guarda uma riqueza diferente. O cheiro convida.

        Outra produção que nasceu dos porcos: a calabresa. Na pizza, é de arrepiar. Pode ser no pão. Pode ser no cuscuz. Pode ser no arroz. Pode ser com bolacha. Difícil é me segurar ou adotar a consciência de analisar os riscos sobre uma vida que foi tirada. Quando a mente vem se aproximando dessa ideia, de imediato, crio a expressão em letras gigantes, em neon: cadeia alimentar. Cadeia alimentar. Cadeia alimentar. Nem ouço mugido, berro, piado, grunhido, cacarejo. Penso na minha limitação em não obedecer aos ritos meditativos. Penso no presunto. Penso no paio. Penso na mortadela. Penso no salame.

      Outras lascas porquinhas são irresistíveis junto com o feijão. O que seria da feijoada sem essas criaturas, que meus amigos veganos chamam de cadáveres, não sei. Experimentei, entretanto, essa iguaria típica do nosso Brasil, de diversas maneiras: com proteína de soja, champinhom, grão-de-bico. Não colou. Se alguém me convidar, lógico, comerei. Mas o prazer vem mesmo é daquele carré, daquele pé ou daquele bucho. O toucinho é algo que enfeita o momento, coloca um ritmo guloso na dança. Às vezes, vem para estralar mesmo, fazer barulho na cabeça.

        Quando penso na família dos saltitantes caprinos, a gula triplica. Que bela festa. Cozido, assado, frito, costurado: bode, cabra, carneiro. Saia da frente, por favor. Nem cabrito escapa. Querido leitor, veja a minha dificuldade em ser vegana ou vegetariana. Peço desculpas pela decepção. Caso queiramos nos remeter aos miúdos, sem problema: fígado, coração, rim, moela. A brincadeira está valendo. A miudeza, o detalhe ou o pormenor sempre serão intensos objetos de estudo. Com louvor.   




Imagem: Vecteezy


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Verdade verdadeira






 








        É, comadre, como eu ia dizendo, a verdade é verdadeira. Disse que ontem ouviram um vulto. E como se escuta vulto, não sei. Mas sei que se pode ver. Um compadre da vizinha disse que podia escutar, de tão estrondosa que era a clareza da luz. Pois, então. É isso mesmo. Disse que lá longe, por trás do sítio Esperança, indo mais para o lado do sítio Concórdia, eles avistam tudo o que é de vulto. E que tem toda semana. E é verdade verdadeira. Pois é.

        Não é querendo dizer que acredito em tudo, mas outra comadre minha, a senhora se lembra, aquela que foi para São Paulo, pois é, filha dos meus primos por parte de pai, disse que ela via. Disse que era. Sim. Disse que era. E era verdade limpinha, verdade verdadeira. Como o dia vem depois da noite, como aquele juazeiro não seca de jeito nenhum.

      Comadre, esse negócio de assombração é fato, o povo garante. Disse que é realidade, da boa. Verdade verdadeira. Não se assuste. Nem é para se assombrar. Nem era para ter esse sentido. Escute. Um conhecido meu, que trabalhava de entregador de leite, lá nas bandas do rio Verde, achou de se admirar com uma visagem. Não entendi. Ora, se ele viu, não sei por que se assustou. Disse que ele até desmaiou, comadre, de tão forte que era a visagem. Disse que era uma coisa enorme, que tomava mais de vinte metros de altura. Sufocava as vistas de tão brilhosa que era a situação. Daí que meu conhecido veio a ficar sem chão. Quem o socorreu, não sei. É possível que ele tenha se levantado sozinho porque naquele meio do mato não passa gente de hora em hora. É difícil. E era no amanhecer, no início, na boca do vento, com os primeiros raios de Sol, com os primeiros passarinhos cantarolando.

        Mas está aí ele para contar. Ele conta em tudo o que é estrada, boteco, pouso. Vai contando e destrinchando como foi. Eu mesma, comadre, não sei se acredito. Mas disse que é verdade verdadeira. Coisa da mais pura realidade. Coisa fina. Coisa que só quem vê é quem sabe contar direito. Quem não viu, assim como eu, fica fantasiando, desenhando na cabeça.

        Torço até para um dia me encontrar com uma imagem, uma cena desse tipo, uma inquietação próxima a que chegou na vista do meu conhecido. Pelo menos de cor parecida. Pelo menos para procurar, de mansinho, entender o que ele conta. Sim. Pois é isso.

        Aquele meu outro conhecido, parente daquele moço, Seu João, que vendia rifa, sim, aquele, jura de mão junta que, numa noite de inverno, viu. Disse que outro conhecido, que atende pelo apelido de Zinho, nunca mais foi a mesma pessoa. Como pode, podendo. Pode sim. Disse que ele viu e gritou de susto, comadre. Nem imagino como é esse susto porque penso que é uma luz que contenha certa beleza. Não vejo por que se espantar, como quem vê uma monstruosidade. Pois é. Disse que ele passou quinze dias sem dar uma palavra. Só fazia beber água, comadre. Pense numa novela.

        Mas, olha, aqui entre nós, eu acredito, de algum jeito. Sei que dizem que é verdade. Firme como uma rocha. Verdade, verdade, da mais profunda afirmação da história. E ele é um rapaz trabalhador. Não ia sair por aí mentindo, contando lorota com uma visagem. Fique sabendo, comadre, que eu, se me deparar com uma luminosidade que pode até tirar minha fala por alguns dias, não vou contar. Não conto a seu ninguém. Por quê? Ora, nem toda verdade verdadeira é assim, contada. Pode ser silenciada. Tem segredo que é a prova mais viva de uma coisa e que nem por isso é revelado. Guarda no seu íntimo, comadre, o caroço da verdade.

        E, como eu ia dizendo, esse assunto de visão fora do tempo, visão de repente, tem algum fundo de exagero. Sei lá se aquele meu conhecido viu coisa tão alta. Sei lá se foram tantos metros. Pode ser que ele mesmo tenha se enganado. Não estou dizendo, com isso, que o rapaz mentiu. Não. Quem sou eu. Mas o rapaz, no susto, pode ter aumentado a forma, pode ter caprichado na intensidade, pode ter carregado na ideia da ilusão. Pois é. Mas se eu disser isso a outra pessoa, diferente da senhora, comadre, que é da minha confiança, é sujeito eu ser interpretada com outro olhar.

      Disse que Donana, aquela minha conhecida lá do Pajeú, embarcou numa conversa assim, colocando algumas passadas na estrada do contador. Não deu certo. Foi moído para mais de ano. Inventaram que ela mentia e dizia, além disso, que o acontecimento nunca havia existido. Sinceramente. Isso mesmo. É melhor, acho, sentir a verdade com todo o seu universo. Sim. Porque é isso, comadre. A verdade, quando domina, é a verdade verdadeira.   


A montanha

 










        Uma das posturas mais ensinadas na ioga, para quem está começando, é a da montanha. Segundo a origem da prática, escrita em sânscrito, chama-se Tadasana. A pronúncia mais difundida é a tônica na antepenúltima sílaba, tomando como base nossa leitura aportuguesada: Tadássana. Para os mais ortodoxos, Yoga deve ser escrito assim, iniciando com ípsilon maiúsculo, com pronúncia fechada na segunda letra. E seria uma palavra masculina. Mas, as adaptações no nosso canteiro fazem da ioga um nome feminino, com pronúncia aberta. Não depende de letra maiúscula para se mostrar importante.

        A postura citada, que se coloca simples para quem inicia, trata apenas de ficar de pé. Apenas. Uma das versões é deixar os braços estendidos ao longo do corpo e olhar para a frente. Não é tão fácil passar alguns minutos sem se render à ansiedade ou aos barulhos internos e externos. Com o decorrer das atividades, percebemos que a respiração será a principal fonte da concentração, para que os pés se sintam firmes, a coluna esteja alinhada e o pensamento flua como um rio em tempo de primavera.

        Pensamento. Pensamento. Está aqui um discreto contrariador da ioga. Se não for bem articulado, torna a postura sofrida e o praticante irritadiço. Eu mesma já fui vítima do pensamento atravessado, desconsiderei o ritual e vi colegas desestabilizados com o tamanho do corpo. Na realidade, é o tamanho das próprias limitações, das desconfianças, das dúvidas, das intolerâncias, das bombas de açúcar no sangue, dos pratos deliciosos de costela ensopada. Tem gente que desiste logo na montanha.

       Ao imaginar a elevação, penso numa excursão diária, num grupo de desportistas, cujo líder recomenda cautela. Vamos escalar com cuidado, diria ele. Vamos, ao menos, contemplar. Ao menos sentir uma porção da natureza, disponibilizada para nós mesmos. Ao menos, sentir. Ao menos, pois a montanha traz uma série de simbologias. Se o corpo estiver ereto, firme, seguro no exercício, pensar significa não pensar. Sim. Significa não elaborar, não se preocupar com o que a mente apresenta e deixar o ato de respirar sintonizado com o ambiente.

          A montanha ganhou tal nome na ioga porque indica justamente o estado de firmeza, de equilíbrio, de exatidão. No nosso lado ocidental, pensamos parecido. Não é à toa que está incorporada, na nossa fala, a certeza de que a fé remove montanhas. Não é à toa que existe aquela música, que fala da montanha, que nos lembra o ato de agradecer. E o agradecimento é límpido quando compreendemos seu verdadeiro sentido. A montanha será sempre aquele lugar alto, representativo da beleza e da imponência. Nos meus desenhos de criança, a paisagem, para ser completa, tinha uma montanha. Um risco no fundo da composição, combinado com outros traços, com retoques de cores e algumas plantas. Para ficar ainda mais emocionante, percebi, no meu mundo, que da montanha poderia surgir uma cadeia, uma cordilheira, um conglomerado de montes, figuras naturais em pedras a serem escaladas.

        É por tudo isso que a postura da montanha é como se fosse a postura da verdade. A partir dela, percebemos como está nossa quietude, ou seja, nossa capacidade de parar, mesmo com tanto alarme tocando. Essa pausa é intencional e se torna complexa, à primeira vista. Quando lembro de montanha, também lembro de uma dificuldade que pode ser vencida. Lembro de uma suntuosidade geográfica. Um destaque. Um ser que é vivo, alto e bem alto. Com finalidades múltiplas. Finalidades que se auxiliam. Finalidades que nos convidam. Sim, vamos lá.  

  



Imagem: Freepik

Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...