domingo, 17 de março de 2013

Dona Tonha achou pouco




 

Fragmentos de cores, cores diversas, açúcares, azedumes, todas as cores. Não tão ácidas, mas como a cor da laranja que rendeu um suco. Um suco na casa de Dona Tonha, com direito a foto, com direito a ver e sentir aquela outra cor, a do céu, imediatamente cinza. O imediato se deu com outra cor, uma silenciosa por entre as leis de uma cor, a transparente. A água, a chuva. Sente aqui no terraço, disse ela, sente aqui para esperar a chuva passar. Tome um cafezinho. Ela achou pouco e me mostrou a cor de uma cadeira enferrujada. Também a cor de uma blusa manchada por suco de caju. Também a qualidade da cor dos tomates plantados por ela própria. Achou pouco e me mostrou toda a horta. 

Nas proximidades da casa, uma cor estranha, a do burro. Encostada numa ripa, a carroça, embaixo daquele céu cinza e de uma chuva que não dava trégua. Está trabalhando, perguntou. Um carro ia passando. Dona Tonha achou pouco e quis saber a origem do meu sobrenome. De quem, perguntou. Um cheiro de panela queimando, problema resolvido, desligue o fogo. Dona Tonha achou pouco e me ensinou a receita do doce de banana que estava no fogão. 

Ouvi aquele clássico escorrer d’água. O burro, amarrado num poste de madeira, umas latas de tinta por perto. Toda a agilidade de um formigueiro me entendia. Dona Tonha achou pouco e assanhou as formigas. Veneno. Chega de pestes, chega de pragas, foi espalhando o remédio. Operação de guerra no formigueiro: o comandante do exército determina desocupação da área. Urgente. Dona Tonha achou pouco e quis saber do meu cabelo. Ensinou-me um chá. Esse é batata, esse não engana, o cabelo não cai mais. 

Não sei se eu bebia o café de uma vez só ou se apreciava a cena chuvosa. A cidade sem chuva há um mês. O burro relinchava, paciente. E eu esperava o céu abrir, mudar de tom, migrar de cor. Meu relinchar se fazia quieto. Dona Tonha achou pouco e quis perguntar sobre meu silêncio, meu esperar.

Minha irmã trabalha no posto de saúde, faz limpeza, gosta de lá, não bebe café, mora do outro lado do outro quarteirão, fez uma cirurgia de catarata, é ainda jovem mas sofre das vistas, já foi mordida por uma coral, antes de dormir reza o rosário. Dona Tonha descreveu, descreveu. Achou pouco, repetiu. Ainda achando pouco e bem menos, contou sobre o irmão e repetiu.

A garrafa inteira havia acabado. Outro café, outra garrafa, outras cores. Lá vieram os tarecos. Um bolo de macaxeira. A chuva avançando, um trovão sendo temido. Era uma pequena tempestade com a função mística de sacudir a terra, os telhados, os cabelos, as galinhas. Passar um frio. Passar oitenta anos. Dona Tonha parecia velha, se achava também. Mostrou o bordado que ganhou da afilhada. O burro com olhar de aviso. Antônia dos Anjos, Tonha, explicou duas vezes seguidas. Tentou explicar sua aptidão para a música, coisa de nascença.

A cor do tareco impressionou mesmo. Duas vezes seguidas é um sinal, disse, ao falar do relincho. Mais café. E sentamos no alpendre. Queria se certificar do céu ficando azul claro de novo. Azul de lindo. Dona Tonha achou pouco e me levou até a porta.   







Texto publicado no jornal A União (João Pessoa-PB/2006)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Orientação


Felicidade é fruta madura
Ética da natureza, festejo, sinal:
Cajueiro florido. 
















Zona rural de Puxinanã-PB (jan/2012)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Recado de verão


Hoje acordei querendo fazer um poema. 
Hoje acordei querendo ouvir passarinhos 
mas foi o sol que senti 
no meu ouvido 
dizendo para eu acordar 
andar 
escrever o destino. 

Ele apareceu em tons dourados e fortes 
dizendo tudo. 

Um calor pulsante 
próprio da vida. 

Um sinal que respira 
pensa 
acalenta.

Ele apareceu 
me chamando nas palavras. 

Ele mesmo 
escrevendo 
sendo poesia. 




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O povo wiaóke II


 

Na minha frente, o mundo se abria, vertiginoso, dizendo aos meus olhos que tudo é um mistério voador. Um cheiro alegre e acolhedor me fez chorar pelas narinas. Era um espirro aos montes, rasgando e, ao mesmo tempo, abraçando-me por dentro. As cores eram gradativas: mel, coco-do-mato, algaroba.

Misturavam-se as vontades como o açúcar n’água e, à medida que se confundiam dentro do meu imaginário, ganhavam outros timbres alados: muçambê, erva-doce, ar-condicionado, papel novo... Eu ia ganhando sentidos também, pacíficos e ondulados, e nem notava a diferença de um para o outro. Certo segundo, aumentei de tamanho: acho que era de tristeza sólida. Não sei.

“É chorar e não poder”. Olhei para as descobertas, que eram cinco, e as estradas, que eram quatro. Um dos caminhos, sem começo ou trilha a ser seguida, foi estendendo as mãos. Foi aí que me assustei de curiosidade e arrepiei os dentes. Quando acordei, estava dentro de uma espécie de saco esponjoso, pendurado numa árvore imensa. Imensa, imensa, imensa: um desmantelo belo. Posso chamá-la até de gigante porque já era noite e vi estrelas de muito perto, quase cegando a minha euforia. De repente, atiraram no saco com um dardo cintilante. Caí numa superfície florida.

Ouvi, de longe, muito longe:

- Viô carpê vonde viô! Viô! Aaaaa... – alguém de voz grave e pastosa. Dava medo.

- Viô! – respondi, sem querer. A minha voz foi saindo em fios.

A voz do outro se transformou num badalo, imitando um sino de mosteiro. Badalava cada vez mais forte, aumentava e me deixava sem medidas. Sussurrei:

- Alguém aí pode responder?

Num disparo ameaçador, um clarão foi se agarrando ao céu. Espalhava-se no ar, como uma fumaça ocre, que ganhava minha simpatia, aos pedaços. Não acreditava nem na metade do que estava vendo. Depois de dois anos de seca, a região inteira tomava o banho da felicidade. Foi chuva por todos os lados.







Texto publicado no jornal Gazeta do Alto Piranhas (maio/junho/1999), Cajazeiras-PB.

domingo, 16 de setembro de 2012

Vitrine




Estes são alguns elementos sedutores da feira de Campina Grande, Paraíba. Os bolos ficam numa vitrine instalada num simples quiosque de zinco e madeira. O lugar também vende pastel, caldo de cana e outras atrações. Na vitrine, viajei. Os bolos estavam ali me olhando. O primeiro à esquerda, na prateleira de cima, é de leite. Bolo de leite ou baêta. Não sei a origem da palavra baêta, mas já vi como sobrenome. Tem um aspecto mais português do que italiano. No sertão, o bolo chamado de leite consiste em repetir a receita básica de bolo fofo, com farinha de trigo, açúcar, manteiga ou margarina, fermento em pó, ovos e leite. O diferencial é o aumento na cota de leite. Se um fofo normal pede duas xícaras de leite, o bolo de leite ou baêta pedirá umas quatro ou cinco. Nunca fica esfarelado. É encorpado, grosso. O revestimento é uma casca marrom dourada e um pouco crocante. Não posso mentir, dizendo que não tem muita gordura. Tem, sim, bastante.

Fazia um bom tempo que eu não escrevia crônicas, muito menos sobre comida. Agora estou na fase de escrever sobre comida. Vi esta foto, tirada em janeiro deste ano, e imaginei as receitas. O bolo vizinho ao baêta é de chocolate. Junto com a receita básica, há uma quantidade de chocolate em pó. O recheio é variável, mas feito com chocolate e leite condensado. Há quem acrescente creme de leite. Dependendo do bolo desse tipo, caso seja bem doce, basta uma colher para me satisfazer. Não sou chocólatra.

Vamos à vitrine. Abaixo, à direita, com essa crosta queimadinha por passar mais tempo no forno, é o de milho, meu preferido dentre milhões. Bolos e mais bolos de milho, receitas e mais receitas são apreciadas por mim. Quando conheço a cozinheira ou a boleira, discuto a teoria e a prática. Se possível, passo vários minutos aprendendo a metodologia. O milho é algo milenarmente associado ao meu imaginário nordestino. O problema é que, caso exagerado no meu paladar, provoca um inchaço no estômago. Bolo de milho verde, molhadinho, com o gosto do milho verde mesmo, é uma realização. Broa de milho, mais enxuta, com toques de erva-doce, é uma satisfação. Café ou café com leite para acompanhar.

Bolo de milho feito com rapadura e pouquíssimo leite, pitadas de cravo e canela, é uma receita da minha família, do lado paterno. Talvez tenha vindo da bisavó, Isabel Correia. Depois, continuada por minha avó, Maria Félix. A receita é perpetuada atualmente pela filha, Tia Netinha. Agora estou tentando ser a quarta geração. Fiz esse bolo no mês de junho, o mês consagrado a comidas de milho. Ficou um pouco seco, mas não sobrou um só farelo na festa junina do sítio. Faltou, talvez, segundo minha tia, jogar na bacia o leite ainda morno, em cima do farelo de milho pré-cozido. O farelo é aquele de fazer cuzcuz. O farelo é colocado, junto com a rapadura derretida, para descansar, por isso um gosto diferente. Esse esquema de descansar, esperar ou reservar é fundamental em certas receitas. Eu tinha preconceito com isso, até que aprendi o mistério.

Mas, vamos voltar à foto. O outro bolo que aparece na vitrine é de coco, coberto com um creme de açúcar e limão e umas raspas de chocolate. Bolo de coco, assim de verdade, especificamente, pra valer, ainda não fiz. Até senti vontade, dia desses, mas só se fosse com coco verde, ralado, natural. Não quero aquele do pacote, do supermercado. Um dia comi um bolo de coco verde na casa de Tia Maria, tia da minha mãe. Ela fazia umas iguarias inesquecíveis. Agora deve estar bordando seus panos coloridos em algum lugar do além. Na casa dela, a geladeira branca e azul, arredondada nas pontas, tinha uma alça longa de metal vazado para abrir; em cima, um pinguim tocando pandeiro. Era difícil não olhar aquele monumento na cozinha. Que saudade. Na avaliação de Tia Maria Lima, frango, por exemplo, tinha que ser comido com as mãos, os ossos bem roídos, sem cerimônia ou qualquer regra de etiqueta e frescura. Aliás, frango é um prato que preciso empreender mais. Dia desses, troquei umas receitas com umas amigas: alecrim, azeite, molho shoyu e outras coisas diversificadas para saborear a ave. Hoje, porém, é dia de bolo.     

Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...