quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Regra número um





Na TV, um comercial com uma nova cor: lilás. Era a Fanta Uva sendo lançada. O que seria aquele líquido colorido e fermentado, não sei. Doce, é certo. Açúcar, uma bomba de glicose. Mas criança por acaso quer saber de coisa que faz mal, manual de instruções, bulas, estatutos regimentos: sim. Sim. No meu caso, sabia que existiam as normas.

Sei que, no dia do aniversário de Révia Mara na escola, tínhamos garantida a Cajuína, bebida universal nordestina. Já era por nós suspeitado. Eis que, naquela manhã de setembro, chega uma grade com os refrigerantes. No meio deles, adivinhe: a Fanta Uva, a moda, a onda do momento, a sensação da praça.

Sentamos em círculo: regra número um. A número zero era manter a elegância e a boa educação. Depois do recreio, festa. A sala era nossa. O birô ficava enfeitado de sabonetes, cartões, desenhos, chocolates e flores: eram nossos singelos presentes à aniversariante. Que beleza. Colocávamos nosso papo de meninas em dia: brincadeiras, papeis de carta, viagens imaginárias, Histórias em Quadrinhos, músicas, artistas famosos.

Ao meu lado, no círculo, sentou-se Luciana Batista, a garota mais cotada da escola para fazer o papel de Nossa Senhora nas apresentações religiosas. A fama se espalhou para outras escolas e dioceses. Bom comportamento, sorriso sincero, olhos esverdeados, pele alva e cabelos longos e lisos eram os atributos da nossa jovem santa.

Na festa, Tia Telma começou a servir os refrigerantes. Cada aluno com seu copinho, esperando uma bebida que refrescasse o calor e fosse favorável à nossa obediência. Se eu fechar os olhos, pareço voltar no tempo; visualizo toda a cena. A última gota da última garrafa de Fanta Uva daquela manhã festiva, portanto a última daquele dia de setembro, caiu no copo de Luciana. Pois é. Como destratar nossa colega iluminada. Como fazer cara feia diante da nossa colega famosa.  

O que eu podia fazer, nada. Nada. Nada mesmo. Mas, confesso que minha torre de refrigerantes ruiu e, com ele, grande parte da minha ligação com a cor lilás. Fiz um treinamento comigo para parar de pensar no corante doce. Acostumei-me com o sabor laranja. Ao longo de muitos anos, a cabeça foi se aprumando e ficando menos densa, o coração menos trevoso, os ouvidos menos moucos aos bons conselhos. Ao experimentar a bebida depois, senti que um terço da graça se perdeu. Faltou o clima geral da novidade, a quentura da mídia, a linguagem publicitária em sua plena forma, a hipnose. Isso: fui hipnotizada. Esse povo da mídia é assim.   










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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Meu brinquedo platônico








Mercado Central: início dos anos de 1980. Eu procurava fazer tudo certinho, ser bem obediente e comportada nos lugares, sabendo que havia a possibilidade de ganhar um pão doce com garapa. Garapa, que eu digo, é caldo de cana. Claro. Pois é. Ir ao Mercado era um presente, uma premiação, algo que eu pudesse desfrutar, degustando cada compartimento daquele conjunto de informações para a minha cabecinha de criança. Parecia um parque de diversões. Luzes, cores, gente, música, conversa.

Chegávamos em Dona Lormina. Gente, o que era aquilo? Botões: centenas. Formatos diversos, texturas várias, finalidades combinadas. Um mundo. Cores, tantas, muitas, à distância. Isso mesmo. Eu observava a certa distância regulamentar, com mãos para trás. Olhos ligadíssimos. Acompanhava o funcionamento daquela complexa tecnologia de pregar botões com uma máquina, que parecia um brinquedo. Sim, era meu brinquedo platônico.

Pensando bem, o que eu faria em casa com tal engenhoca, não sei. Estou falando aqui de uma menina com seus seis anos de idade. Segundo a metragem da sujeita, pequena repórter, a máquina era gigante, objeto tão difícil de manipular quanto um trator. Quando eu chegava em casa, relatava minhas andanças para as minhas bonecas. Falava de uma banca de uma tal de Dona Losmina. Aí eu não entendia se era Losmina ou Lormina.

O Mercado guarda uns mistérios nos seus frequentadores. Não é possível que aquele teto fique silencioso ao tempo, sem ao menos esconder um segredo, uma treta, um enigma. Cada banca, uma parte do labirinto. Andando mais um pouco, lembro bem da família Mareco. Mais de um ponto comercial e sempre o mesmo sorriso e a forma anfitriã de tratar os visitantes. Às vezes, acontecia de me encontrar com Lucilândio, meu colega da Escola Nossa Senhora do Carmo. Lu é Mareco e Pereira.

Lembro com carinho de Auxiliadora Leite, Bia, na banca de Seu Geraldo. Bia me conhecia desde criança, andando no Mercado com minha mãe. Depois, Bia acompanhou minha morada no Alto Belo Horizonte, dos nove aos dezesseis. Sempre ao visitar meus familiares naquele bairro, era comum parar e tirar três dedos de prosa com Bia, Fátima, e outras tantas que me acompanham, como a família de Seu Casimiro. Edinaldo, Erivaldo, Neta, Neide, Neida e outro grupo pelas calçadas, a desejar boas-vindas aos velhos conhecidos. O povo do gesso, um vai e vem de trabalho, histórias e festas. Tem mais gente: deixemos para outra crônica. Bia agora está noutro mercado, com anjos celestes; lá não se negocia qualquer linha, fita, lã ou agulha; o local deve abrigar painéis flutuantes com milhares de cores, inclusive as que nem conhecemos.

Que alegria sorrir para as pessoas, no meu shopping center. Olha, como ela está grande. Hum, já teve piolho. Olha, ela sempre passa de ano na escola. Olha, ela gosta de estudar. Olha, ela vai ser anjinho de Nossa Senhora. Olha, parece com o povo das Melancias. Muito bem. Depois de andar à vontade, era hora de tomar garapa. Confesso que eu ficava esperando mais pelo pão doce do que pelo caldo. Mas eu traçava os dois, sem dó. A sobremesa era um picolé da Walmor ou um tubo de dropes.










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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Calçadas 2











Calçadas 2 
Papel reciclado sobre papel couché
Colagem: cola branca acrílica
20 x 20 cm
Verão - 2017




domingo, 2 de fevereiro de 2020

Zap Zap 1990








Por obra divina, pequenos seres acharam de se reencontrar durante intensivos quatro ou nove, até dez anos. Mesma escola, cidades diferentes, realidades diversas, mas a mesma intenção de retribuir tantos momentos bons. Momentos outros que não foram tão agradáveis, a princípio, mas que nos trouxeram grandes lições para a eternidade. Atualmente, nós nos encontramos no Zap Zap: Carmelita 1990.  Emoções todos os dias.

O dia em que Dona Maria Caiçara foi me abordar na entrada da escola ficou marcado. Aprendi mais ainda a respeitar o outro, as diferenças, os limites do ser humano. Aprendi a lidar com o medo. Aprendi a pedir perdão. Aprendi que devemos sempre estudar a História. Mas, calma. Era a vida no ensino fundamental apenas começando.

Quando Dona Fátima Lucena, de forma silenciosa, apreendeu meu questionário e o entregou à coordenação da escola, meu coração palpitou. Que decepção para a grande tia e proprietária da instituição. Chorei o resto do dia. Mãinha já sabia de tudo quando cheguei em casa, mostrando que estamos falando de Escola Nossa Senhora do Carmo. Lugar de aprumar o espinhaço moral dos alunos. O meu estava no lixo. Levei tempo para me refazer diante de mim. Gente precoce merecia castigo.

Foi aí que a arte tomou conta dos meus princípios e comecei a escrever. À tarde, a escola parecia um centro cultural. Era um ritmo bem puxado, mas consegui fazer as atividades do matutino e conciliar com as aulas práticas de tapeçaria. Meu álbum está intacto. Não vendo, não troco nem dou. Sim. Igual àquela égua de Luiz Gonzaga. Dona Marlônia Abreu Pessoa, a quem chamávamos, com carinho, de Tia Marlônia, foi a nossa professora dos bordados. Eu e Melquisedeque, o filho dela, estudávamos na mesma sala. Melque, o codinome.

Nessa disciplina em forma de oficina, fui começando a compreender que eu me via diante de novas possibilidades da narrativa. As minitelas são narrativas. São imagens se abrindo ao leitor, com seus traçados, envolvidos em tramas de linhas e cores. Cores. Eis aqui um item indispensável para a minha criação. Ora, se a própria criação da Natureza nos faz enxergar novas resoluções da luz, temos um prato bem apimentado para outras crônicas. O problema é que, no momento atual, a pimenta está na minha LAP – Lista de Alimentos Proibidos. Para não dizer que não, ontem, no almoço, fiz essa homenagem simbólica e silenciosa ao meu velho Painho. Três gotas de um molho malagueta. Ele gostava de uma pimentinha lascada e, ele mesmo, de produzir o molho, como um gurmê masterchefe. Eita. Saudade.

Entonces, se a pimenta está no meu LAP, Painho não vai se zangar se eu der um tempo dela, para viver melhor nesse plano terrestre. O restaurante onde almocei, ontem, estava tocando samba. Muito alto, às vezes, mas deu para apreciar o genuíno samba dos povos dos morros da Grande Vitória. Um luxo. Um dos sambas inesquecíveis para mim, sempre, é entoado por Beth Carvalho, Coração Feliz: uma excelente oportunidade para dizer que sou de paz. A escola ensinou isso bem direitinho e ai de quem ousasse guerrear.   

Aquela escola não seria a mesma sem as mãos majestosas de Dona Margarida, Margô. Que delícia aquele chazinho de qualquer coisa que curasse nossa eventual dor de barriga. Morava perto da sede da Orquestra Santa Cecília. Servia água na hora do recreio: as canequinhas eram de plástico azul. Cuidava da alimentação da amiga Carmé, quando esta ficava horas na escola, ou seja, relativamente longe do aconchego do lar. E Margô sempre com um sorriso aberto, sincero, vibrando com nossas conquistas.

Na ENSC, aprendi a dar mais valor ao estudo. Aprendi a dar mais valor ao sonho. Pois é claro que aquelas monumentais paredes erguidas sobre um alicerce de boas pedras nunca teriam existido se não fosse o sonho. Se não fosse o sonho terno de uma jovem moça religiosa, que queria construir uma escola de qualidade e fincada no caminho de Nossa Senhora, Maria, a mãe de Jesus. Caminho de servir ao próximo. Mais saber para o sertão.

Há detalhes naquele lugar, nos dez anos que por lá fiquei, que jamais seriam pagos com uma simples mensalidade. São elementos eternizados. São elementos que me sacodem para a vida. São elementos que estão em outra LAP – Lista das Atitudes Proibidas. Uma delas é: não desvalorize seu sonho. Isso eu estou dizendo para mim, mas pode servir pra algum leitor aí, que acha que tudo acabou.

Olha, Taiguara se foi, mas a música eterna dele está aqui, quentinha no meu ouvido. Portanto, amigo e amiga, a arte aproxima o que a gente menos imagina. Touchê. Saudação de fechamento em homenagem a um leitor eremita e secreto. Beijos da coleguinha.        










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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Conexão com o limbo







E para quem acha que poesia não existe, não posso fazer nada. Posso respirar bem fundo e encontrar no próprio ar um poema flutuante. Posso encontrar no silêncio uma passarela de encantos, sentir a divinização das palavras. Posso, em cada pedaço de linha, costurar novas ideias, mesmo sabendo que não encontrarei onde estirar o tapete.

E para quem acha que natureza não é poesia, não posso fazer nada. Posso torcer para que cada gota de chuva molhe uma semente; a minha torcida será um mantra de versos que se conectam com o limbo. Posso parar de achar qualquer coisa e apenas compreender os meus cinco sentidos; agradecendo por eles existirem, corpo e mente misturados.

E para quem acha que poesia é razão, não posso fazer nada. Posso estudar um tratado sobre o tema e, ao mesmo tempo, poetizar sobre o autor, sobre os parágrafos, sobre os tópicos metodológicos. Posso desfiar o enredo com o Rio São Francisco, com o almoço de amanhã, com o verão. Posso fazer tudo isso e rasgar cada letra ou amontoar sonhos que, de leve, entram para outra esfera do conhecimento.

E para quem acha que sonho não é poesia, não posso fazer nada. Sinto muito. Não posso fazer nada agora. Pois é. Porque é assunto temperado para outra crônica. Posso adicionar cebola, alho, pimenta, sal e segredos da vizinhança. Posso regar com azeite ou apenas esperar a manhã aparecer. Posso apenas esperar.










Calçadas (Papel sobre papel. 20 x 17 cm. Vitória, 2018.) 




segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Quinquilharias








Dentro das gavetas do pensamento há aquela poeirinha esquisita de mágoa, que vai se amontoando com outras poeirinhas que entraram com o vento. Sim, entraram. Entraram com o vento, depois de abertas naquele dia propício a pequenos ranços enlatados em suposições. Cada suposição mergulhou numa reclamação enrabichada em outros pensamentos, de outras gavetas de ideias. Cada ideia conteve, em sua essência, um fragmento de quase certeza, aspecto duvidoso de coisa pensada e polida com garatujas de frases feitas. Chamemos os bombeiros.

O armário de sentimentos é poluído, pouco a pouco, sem que a pessoa perceba que cada papel foi sucumbido à colônia de traças enganosas, as mesmas que contaminaram os grandes planos que ainda se construíam. Para articular o cemitério de bugigangas, o pensamento, se não vigiado, vai se aglomerando num canto de parede, cujas aranhas em teias recém-descobertas serão as próximas a confabular segredos. Se não vigiada, cada cera de pensamento vai, de forma amalgamada com outras ceras, assando um bolo de machucados, com feridas semiabertas, prontas para a apreciação dos mosquitos.

Muitas vezes, se não vigiado, o pensamento vem com os próprios mosquitos, estes com capacetes superpotentes, capas heroificadas, e prontos para o ataque. Vêm, ainda, na mesma comitiva, tabletes de ilusões. Caso não tenhamos o mínimo de cuidado, cada ferpa vai se coisificando nas cortinas da memória e formando um alambrado de recordações que nem deveriam ter sido erguidas.

Outros insetos são ativados, aqueles microscópicos, e as quinquilharias ganham voz. Quando pensamos que não, já falamos. Pois é. Desse jeito é o universo dos pensamentos, os primeiros a largar na corrida, querendo chegar a um pódio qualquer, a depender da direção da nossa carreta. A cada vontade surrupiada pela mudança de tempo, o pensar começa a ser governado por um besouro, daquele mesmo modelo que circula a lâmpada. Voltas e voltas. Voltas e voltas.

Cada raspa de grude no coração é um zíper se abrindo, lentamente. Abre em tom de suspense, para que bactérias do além, montadas em dromedários do passado, possam operar num violento murmúrio. Esse tipo de passado, que não volta ou auxilia, é feito datas mumificadas, que provocam uma caravana de restos de sujeira, aqueles lixos que dependem de uma boa vassourada com pinho e eucalipto. Cloro também, para inteirar o pacote de lembranças. Quem estaria livre desses guardados. Quem estaria totalmente em dia com as sensações. Quem. Pergunto.   

Cada tablete de pensamento, em camadas e camadas de desejos, flutua num silencioso cofre de sonhos. Sonhos que podem até ser realizados. Sonhos que podem até favorecer um mundo mais tranquilo. Sonhos que podem até ser compartilhados. Sonhos que podem até ser trilhados num caminho mais pueril. Sim. Ao som de doces melodias, ao som de sabiás, ao som de corais natalinos, ao som de crianças brincando na hora do recreio. Sim. Pensamento é arte.









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Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...