sexta-feira, 26 de maio de 2023

Parada das Miudezas

 

 A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de idade, no entanto, essa entrada dependia de quem liderasse o roteiro. Certa vez, Titia Nina foi a condutora das minhas aventuras no Centro comercial. Passar no Mercado Público, procurar um produto, dar um recado, verificar preços, beber caldo de cana, comer pastel, conversar e conversar. Eu já fazia reportagens e nem sabia.

Na Rua Padre Manoel Mariano, a gostosa Rua dos Legumes, estava, então, a Parada. Era comum, perto da entrada, avistar um varal, às vezes com balões e fitas, expondo brinquedos. Todos convidativos. Todos à venda, com suas promoções, seus dizeres, suas etiquetas penduradas. Nesse dia, com minha tia materna, meu olhar fuzilou uma enorme bola de plástico. Hipnótica, linda, rosa-choque, pontilhada de outras cores e tons cintilantes. Meu ego desejava. Fiquei pensativa.

De forma racional, eu não teria onde brincar. Qualquer murro naquela nave espacial rechonchuda seria um incômodo para a vizinhança. Meu endereço era na Rua Coronel Justino Bezerra, a movimentada Feira das Galinhas, numa casa originada pelo talento da equipe de Seu João Gonçalves, João Abelhinha. O formato das casas era semelhante e os muros que separavam os quintais não eram tão altos. Incomodar vizinho, nem pensar. Só se eu quisesse levar carão. Nessa época, Seu Fransquinho e Dona Guida e filhos moravam do lado esquerdo; do outro, a família de Dona Neuza. E eu tinha que dar um jeito. Fui maquinando.

Minha tia, ao saber daquela ansiedade pelo consumo, propôs um exercício justo, mas muito doloroso. Terrível. Eu ganharia a bola, mas jogaria fora a chupeta. Gente, que martírio. Eu, na minha meninice profunda, aprendendo, num baque, o que era o poder da palavra. Sim, eu aceito. Sim. Sim. No dia seguinte, lá estava o brinquedo dos sonhos. Que alegria. Mas, na boca, ainda reinante a dita coisa salivada.

A repreensão veio num foguete. Baixei a cabeça, segurando o consolo, tremendo, tremendo. Uma tesourinha escolar foi cúmplice da cena. Cortei. Cortei devagarinho. Cada rasgão era um balanço na minha memória. Mais um ano com a geringonça, a mastigação estaria comprometida. A parte que sustentava o bico era meio alaranjada, com um adesivo bonito e chamativo, mostrando um lago com uns patinhos se divertindo. Adeus. Sumiram na lixeira.

A Parada das Miudezas, loja do meu amigo Willame Braga, fez um benefício à minha dentição e, sobretudo, ao meu caráter. Eu, a pequena consumidora, começava a lidar com uma das formas mais duras de sustentar uma promessa. Com o presente nas mãos, mudei na hierarquia, por minha conta. Com poucos centímetros de altura, fui me achando no direito e no dever de auxiliar as colegas que ainda não tinham se libertado da mania. Difícil. Faltava em mim a ciência didática.   

Para a espera de alguns adultos invejosos, a bola furou, em poucas semanas. Mas, confesso, eu nem sentia mais falta da moeda de troca. Estava ligada na preparação para a primeira série, uma nova etapa das letras e dos números. Abria-se o Primeiro Grau, período essencial para formar muito do que sou. Os mosaicos da Escola Nossa Senhora do Carmo indicavam outro momento do jogo. Sala maior. Uniforme diferente. Meu Conga azul e branco, um amuleto. E um plano secreto já estava traçado, rumo à próxima libertação: exterminar a colônia de piolhos da cabeleira brilhante. A coceira insistia em me denunciar, em todo canto.






Imagem adaptada do Freepik



    

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Serena de ideias

 


A tela mista faz nascer a vontade de estabelecer um diálogo ainda mais heterogêneo com quem vai receber a obra. Essa recepção não é somente para quem encomenda o quadro. Qualquer pessoa que estiver, em plena consciência, interpretando o que é exibido, passa a ser uma recepcionista do objeto. A partir do instante em que olha o que está criado, faz uma crítica, mesmo que não publique, mesmo que não conte ao vizinho.

Um dos pontos mais belos dessa viagem é saber que cada leitor interpreta de uma maneira. Algo positivo e natural. Algo único. Cada um analisa a mistura como puder. Chamo de tela mista o resultado de alguns elementos: tinta, tecido, linha, papel, miçanga, fita, botão, plástico e o que puder brotar com a inspiração. Certa vez, uma amiga me falou que não gostava desse tipo de intervenção, que achava pobre, que preferia somente as tintas. Outra vez, um amigo sugeriu que eu não pintasse mais com acrílica, que migrasse para óleo, argumentando que o produto final seria mais elegante.

Gosto de ouvir as críticas. Realizadas com cuidado, com certo carinho, noto um estopim para outros achados experimentais. O que faço com as telas é experimento, um teste prazeroso. Apesar de compreender certas técnicas, é a voz da intuição que chama mais forte. Foi depois de ouvir uma singela crítica, e examiná-la com paciência, que resolvi sair das minitelas. Quando comecei a pintar mais frequentemente, e com envolvimento mercadológico, não saía dos dez, quinze, vinte centímetros. Achava aquilo tão normal. Sugeriram que eu fosse aumentando o tamanho de forma gradativa, para que eu não me impactasse. Deu certo. Descobri, então, que a experimentação é também uma abordagem mental. Acreditei que podia avançar na metragem da criação. Acreditei e fiz. Veio um medinho bobo. Passou.

A concepção mista, contudo, ainda não chegou às telas maiores. É meu novo desafio nesse campo. Vale lembrar, até para mim mesma, urgente, que essa atividade é concomitante aos meus estudos acadêmicos. Os estudos são obrigatórios e obedecem a um prazo; as obras artísticas são livres e passam longe do calendário. Preciso dessas duas forças para manter um equilíbrio. As crônicas ficam na cola das duas vertentes, às vezes com cheiro de obrigação, às vezes mantendo um pacto com o espaço sideral da Literatura. Olho em mim, eu e o mundo, em cada palavra, cada vírgula, cada cor. Sou eu, Cristina. Pergunto. Respondo. Olho de novo.

Quando não consigo produzir muito bem uma coisa ou outra, sim, também sou eu. Poro a poro. Eu, aos pulos ou aos prantos, com uma extensa lista de painéis ainda brutos no cérebro, com pensamentos ainda nebulosos, com um coração manuscrito. É o eu dentro de vários eus. Pareço uma miniatura, eu, mais uma vez, numa enorme pausa, numa hibernação serena de ideias, numa sintonia com a correnteza. Comecei a respeitar esse intervalo, essa distância entre o pensar e o executar. Combinou.  

O material da tela mista em tamanho maior, por exemplo, faz tempo que está ali, me olhando. Diz, sorrindo: ei, criatura, precisamos surgir, precisamos de uma expressão, precisamos de uma vida, precisamos ser. É que o trabalho artístico torce para ser. Ser certificado, ser batizado, oferecer um título. Vence o que for mais adaptável. Na conclusão, aparece, então, um nome, um misto desse eu comigo. Não há dúvida. Sou eu, aos recortes, no quadro que se apresenta. Eu, acordada, em cada milímetro.






Flores / 20 x 20 cm /  Painel




Uma das minhas telas com técnica mista (tinta acrílica e miçangas). Adquirida pela amiga Priscila Silva. 



    

terça-feira, 5 de abril de 2022

domingo, 20 de março de 2022

Meu pé-de-serra

 



Quem nunca foi a um forró na zona rural não sabe o que já perdeu. Ainda há tempo para saborear aquele vento da roça, aquele vento cheiroso, com um pedaço de esperança, mirando um céu estrelado que jamais vai se parecer com o mundo urbano. Jamais. Forró com esse selo também é feito de urbanoides, assim como eu. Estou na lista dos que realmente gostam da roça, têm um pezinho na terra molhada ou na terra pedindo chuva para o plantio.

As pessoas que se dirigem ao forró no sítio, podem ter certeza, são bem recebidas. Não falta animação. Não falta par para a dança. O calor é logo descartado, tamanha a ventilação natural do lugar. Claro que existem os participantes não muito intencionados com bons pensamentos e atitudes. Uma dose ou outra de álcool e a confusão se agiganta. Os anfitriões são preparados, chamam seguranças particulares e pedem a presença da polícia. Muitas vezes, nem é preciso tanto alarde. Quem estiver perto logo aparta a briga, expulsa o confuseiro ou bate um papo rápido para explicar que ali não cabe aquele tipo de insinuação.

O forró no sítio, todos sabemos, é a origem do chamado forró-pé-de-serra, um gênero do forró que enlaça multidões em inúmeras casas de shows e faz a fama de tantos artistas. Por mais consagrado que seja o grupo, no entanto, é naquela roça que o artista se acha, é naquela palhoça que ele se identifica com o próprio gênero. Cansei de ver bandas nascidas e criadas no seio urbano com essa propaganda de pé-de-serra, mas que, no frigir dos ovos, nunca pisaram num lajedo. Tudo bem. Vale a homenagem que o pessoal quer fazer aos pioneiros. Alguns arriscam dizer que o avô ou bisavô ou tetravô nasceu no sítio tal e qual.

No forrobodó da zona rural, o autêntico, a banda respira o que há de mais original. Basta um acorde da sanfona, uma batida da zabumba e o tilintar do triângulo para diagnosticar como será a festa. Se o sanfoneiro for bom cantor também, está garantido o ingresso. Nem sempre isso acontece. E isso não significa que o evento seja ruim. O povo se engalfinha e nem escuta a letra.

Contamos com a sorte, nós, brasileiros, de admirar um excelente tocador, Luiz Gonzaga. Sanfoneiro, na mais fina essência, de olhos fechados. Também excelente cantor. Com uma voz especial, encorpada, por vezes aveludada, fazia o que bem queria para emocionar e alegrar quem estivesse no salão. Como artista não morre, nunca, o salão sempre estará aberto. O Rei do Baião trafega com tranquilidade por outros gêneros associados ao forró. Sua obra é prova disso. Gonzagão é o símbolo do pé-de-serra, que ganha balanço de sobra com xaxado, maracatu, xote, coco, marcha, maxixe, tango. E os aboios, orações musicadas. Um universo de personagens. Para quem quiser rezar, de forma mais concentrada, é só fechar os olhos e ouvir a lindíssima Ave Maria Sertaneja.

Falo do nosso querido Gonzaga, mas são muitos e muitos os representantes desse pé-de-serra abençoado. Cada um aciona um causo, uma história, algo que tenha me marcado nas minhas andanças. É comum lembrar os anúncios dos forrós nos sítios, nas rádios AM. Sem essa propaganda, a ciranda não está tão completa. É preciso avisar, chamar o povo, causar rebuliço. Bora, minha gente. E começa logo que escurece. Às dezoito horas, pode chegar.     

     






Imagem: Freepik







quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Angola

 



Comecei a gostar de Chico Buarque de Hollanda sendo obrigada a estudar paroxítonas. Que obrigação dócil. Foi com a canção Mulheres de Atenas. Não bastava somente encontrar as palavras com as penúltimas sílabas tônicas. Tínhamos que descobrir quem eram essas gregas, que não tinham gosto ou vontade. Como eram essas Helenas, que não tinham sonhos, só presságios. Tecíamos, com elas, aqueles longos bordados, esperando nossos heróis.

Muitas canções de Chico me acompanham em tarefas de sala de aula. A obra dele tem quilômetros de assunto para problemas e soluções morfológicas, sintáticas ou semânticas. Em Morena de Angola, se tiver sambista no recinto, é hora de praticar. Tem menina e menino que é artista, há muito tempo. Canta, toca pandeiro, toca agogô, atabaque, tamborim, repique, tantan, timbal, reco-reco, violão, bandolim, cavaquinho, chocalho.

Chocalho. Um ótimo personagem. A canção, misto de samba e outros ritmos do batuque, vai brincando com a gente. Expõe a imitação do barulho do chocalho, que se destaca em quase todas as frases. Tudo por causa da sonoridade de um encontro de duas consoantes: c, h. É o mesmo som da letra xis, com o verbo mexer. E o autor diz: o chocalho é que mexe com ela. Esse sanduíche orgânico de figuras de linguagens merece outra crônica.  

Em termos pedagógicos, o chiado está garantido no espetáculo. Temos equipes montadas para todas as seções. O andamento das atividades deve ser animado, envolvente, sem chatice. Cada participante deve ficar no setor que mais sinta afinidade, com as equipes que tenham mais a ver com a sua sociabilidade. Aprende-se de maneira mais confortável e segura. Estou falando pelos meus. Oriento e me divirto também; aprendo e aprendo.

Se a morena é da Angola, vamos à História, saber de que maneira o povo angolano foi colonizado. Povo, inclusive, participante da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), portanto nosso irmão de idioma, com ricas particularidades geradas por dezenas de etnias. Povo que está nas entranhas do nosso país, pois é multiplicado ou miscigenado ao longo dos últimos trezentos anos, nos quatro cantos do mapa.   

Vamos também à Geografia, compreender que tipo de nação é a República de Angola. Podemos investigar como ocorre a interação com outros países da África e quais são as heranças políticas desse jovem lugar banhado pelo belo Atlântico. Vamos à Sociologia, investigar de que forma as classes sociais são distribuídas. Cabe-nos buscar a Filosofia, com seus questionamentos tão atuais. Há diversas possibilidades. Vamos falar sobre a arte angolana: pintura, literatura, dança, poesia, música. Vamos falar sobre a importância do esporte para aquele povo. Algumas ideias brotam para uma gincana.

Teremos guias em inglês e espanhol. Ideias brotam para outras disciplinas, como na Matemática, com seu trampolim a nos lançar ao mundo dos desafios lógicos, e podemos textualizá-los por meio de fábulas inspiradas na cultura angolana. Nossa parceira Estatística está pronta para auxiliar com dados, gráficos e porcentagens. Deliciosas operações.

    Toda a festa é supervisionada pelo corpo de jurados, composto por colegas professores, pedagogos, outros funcionários e convidados da escola. Temos direito de aplaudir um desfile da moda inspirada na costa oeste do continente africano. Não vamos esquecer, claro, os criativos quiosques com suas comidas típicas. Cabe sorteio, cabe campanha beneficente. E tem roda de capoeira. Tem. Tem sim. Salve. Salve, capoeira.







Trabalho da artista angolana Joana Taya


domingo, 30 de janeiro de 2022

Om

 






Acrílica sobre tela

Painel

30 x 30 cm 

2022 




                                                       

 Tela da amiga Silvana Leal. A primeira do ano. :) 





segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Ratos de jornal

 



    Ser rata de jornal foi uma honra. Aprendi muito com o factual, com a batida do cotidiano, a escrever o que eu via e ouvia na realidade. Comecei a compreender até onde o ser humano é capaz, tanto em prodígios quanto atrocidades. Os ratos, uma das gírias do mundo jornalístico, são os que saem com a vassoura, no lixo, no fechar das portas, com a coluna precisando de afago e os pés arrastando o dever cumprido. São os que produzem as matérias de última hora, as mais quentes, para fechar mesmo o barraco.

    Meu trabalho atual com revisão e assessoria e aula, além do estudo, não deixa espaço para essas ratices. Mas, sinto saudades boas desse aprendizado, que levo para a vida toda e quero compartilhar nesta crônica. Alguns sobreviventes ainda estão por lá, em alguma fenda do navio, incomodando muita gente. Um tipo de gente que não suporta ver suas imperfeições reveladas.

    Os episódios da rua, antes de se transformarem em textos, são contados com detalhes numa redação. Quase obrigatório. Chegou, contou. A turma escuta, com atenção. Silêncio total. Aí, comenta. Prevê. Julga. Prende. Demite. Solta. Elege. Expulsa. Chora. Comemora. Só ali, nos bastidores. Nem que seja num punhado de cinco ouvintes.        

    Redação é um espaço pequeno para tantas informações que saltam ao mesmo tempo. A convivência é quase diária. As lacunas são os dias de folga alternados. Não existe normalidade para sábado, domingo, feriado e família. Existe administração de horários. As faces se cansam, às vezes. O estresse é constante: cada cabeça com seu grau. Remédio para combater: piada. Música. Comida. Salgadinhos. Bala. Chiclete. Café. Barris e barris de café. Chá. Contêineres de paciência. Risadas sem fim.    

    Todos ganham apelidos. Um aperreia o outro com carinho, senão estraga. Os temas são os de sempre: a cor da pele, o peso, o bairro onde mora, o time do coração, a religião, a cidade onde nasceu. Gracejo com o que for possível. Com o corte ou a pintura do cabelo, com a roupa, com o bloco de anotações, com a caneta, com os óculos, com as unhas.

    Se é casado, se é solteiro, se é divorciado, se levou um fora, se anda a pé ou de ônibus, se come PF ou pede marmita, se vai ao self-service ou ao pastel com caldo de cana. Se compra fiado. Se anda de táxi. Se foi ao show. Se frequenta os Alcoólicos Anônimos. Se foi cantado pelo entrevistado, se foi agredido pelo entrevistado, se o entrevistado-candidato pediu voto. Uma máquina de perguntas.

    Gente, que escola boa. Os tímidos sofrem. Os bem chatos não duram. Os sonsos fingem que não entendem. O propósito do editor, o time único: cada integrante com sua tarefa; e, como soldado em missão, só sossegar quando cumprir todos os itens, à risca. Como o roedor escondido nas bordas das caixas empilhadas, saindo somente expulso, com o cansaço escrito na testa, dizendo graças a Deus por mais um dia, dando tchau ao pessoal da limpeza. Até amanhã. Até. 







Freepik

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Hora de pintar

 


    Uma das melhores ordens que eu cumpria na minha infância e assim perpetua, eu comigo mesma, é a que a professora dizia: hora de pintar. As portas do paraíso se abriam: meu estojo com lápis de cores. O caderno de desenho me olhando, pedindo para ser preenchido com alguma coisa, algum tracinho de mim.

    Outra ordem se fazia chegar aos meus ouvidos como uma hipnose. Era o tema do dia. E algo mágico porque era sempre surpresa. Que bom. Não precisávamos saber mesmo, naquela alturinha da vida, o que era planejamento de aula, temas perpendiculares, temas tangenciais, questões multidisciplinares, atividades paralelas, bibliografias. Nossa preocupação urgente, e muito urgente, era soltar a imaginação. Naquele momento, estávamos fazendo uma atividade.

    Com o tema lançado no ar, começávamos. Fazíamos gato e sapato, mas tudo em discrição, sem bagunça. Tudo no papel. Trocávamos ideias, eu e outros artistas mirins da pequena galeria, na primeira sala à direita. Lembro de sempre cuidar do material de trabalho. Importante. Apesar da caracterização lúdica, infantil e divertida, era um tipo de labor porque eu queria que o produto saísse belo, redondo, caprichado. Isso não parecia qualidade. Muitas vezes, era uma pincelada de sofrimento.    

    Desde esse tempo, compreendo que cada cor apresenta uma linguagem. Pinto, colo, repinto, costuro, reinvento. Escrevo. Reescrevo. Estudo. Reestudo. Leio. Releio. As pinturas são um misto de inspiração e experimentação. Toda tela conta com um quê de motivo, uma fagulha de começo, uma certeza de aprendizagem. Estou feliz porque minha amiga Wandneia Magdalon adquiriu a tela Amor de Maria. Emocionante como as pessoas descrevem o que sentem quando olham a imagem. Cada um sente de um modelo, de um tom, de um movimento. Isso é divino. Mais feliz ainda porque tenho outras encomendas. Cada dono com sua fina explicação para a futura aquisição. 

    A amiga baiana Silvana Mota quer o símbolo da ioga para colocar na porta da clínica de terapias ayurvédicas; Professor Celso, meu vizinho, quer um gato alaranjado para dar de presente à filha; Seu Juarez Neves, meu amigo alfaiate, peça rara na cidade, quer uma paisagem para relembrar a infância na roça; o leitor cajazeirense João Damasco Braga quer uma raposa, para lembrar seu time do coração na Rainha da Borborema. Todos os pedidos com aplicadas justificativas; cada intenção com seu tamanho, objetivo, método. Todos terão um pedaço da minha essência em suas casas. Quanta honra. Hora de pintar. Sim. Agora.     

 








domingo, 30 de maio de 2021

Fontes ricas e silenciosas

 



 

    Cemitérios são excelentes locais para estudarmos História. São fontes de pesquisa constantes, pois recebem, quase todos os dias, moradores permanentes de seus túmulos. Não quero aqui estabelecer uma relação gótica com meu querido leitor. Nem quero incentivar lembranças dolorosas. É, sim, natural lembrarmos. Mas é tão natural também saber que todos iremos, um dia, morar por ali. Não há quem escape. Não estou pensando no meu dia nem quero que chegue logo. Na realidade, não tenho um pingo de moral para saber em qual dia será, como será, por que será. Isso é a chave do mistério que ronda todos nós.

    O que quero pensar é a riqueza de detalhes de um local, às vezes tão menosprezado pelas autoridades. Às vezes tão causador de temor à população que crê em aparições ou assombrações. Digo com certeza: o temor, se existir, é de quem está com os olhos bem abertos e as maldades pulsando. São espertos e muito espertos aqueles que passam no local, não para rezar ou visitar. Os vândalos são aqueles que destroem por satisfação. Herdaram a palavra do povo bárbaro de raiz germânica, que estraçalhou parte da Península Ibérica, no século V. Em muitas situações, aprontam para protestar e nem roubam: somente vandalizam. Sentem prazer em destruir. Talvez uma rasteira demonstração de força e audácia. Talvez não saibam que ali não é apenas um reduto de silêncio eterno dos moradores. É um centro forte de dados para pesquisas, as mais diversas.

    Podemos encontrar muitos exemplos, auxiliados pelas datas dos personagens que habitam aquelas construções. Podemos investigar em que época se construíram determinadas lápides; quais eram os materiais utilizados em certos períodos; de que forma são dispostas as fotografias dos falecidos; de que forma é a iluminação noturna; por que foram reservados pontos ecumênicos ou capelas; quais as famílias que exibem seus túmulos mais requintados; quais são as flores ou plantas que enfeitam os locais. Uma infinidade de temas. Lembrando, ainda, que é possível averiguar em que época e bairro foram construídos esses cemitérios e como era a cidade naquele momento. Temos mais um caso em que a História se irmana com outras áreas: Sociologia, Filosofia, Geografia. Veja que riqueza.

    Quanto mais o poder público se distancia da vigilância a esses locais, menos teremos dados para pesquisar. Menos teremos o respeito como item indispensável a qualquer cidadão. Menos os mais fiéis e devotos terão lugares para simples rezas ou solenes visitações. Não são raras as notícias de vandalismo. Não são raras as notícias de estragos ao patrimônio de qualquer natureza. Não nos restringimos às pequenas, médias ou grandes cidades ou metrópoles. Vândalo é vândalo em qualquer praça. Estão aí alguns causos que conhecemos ou ouvimos falar. Se é para ter medo, não sei. Mas, se houver, sim: dos vivos.   






Adaptado do Freepik



Meus apelidos




    Na minha família, existe um jeito especial de cada um se dirigir a mim. Em casa, não tenho apelido. Sou Cristina. Nasci como retrato físico fiel do meu pai, que tinha a cor da pele semelhante. Na família paterna, Titia Fransquinha gostava de me chamar de Nêga. Tia Netinha ainda chama. Acho ótimo. Sou mesmo. Meu padrinho João de Deus, antes de responder ao meu pedido de bênção, dizia: “Fala, Negona!” Sim, com aquele mesmo vozeirão que cantava tão bem a Ave Maria, de Charles Gounod.

    Ainda do lado dos Moura, Costa, Félix, Quirino, alguns primos mais chegados me chamam de Nêga. Lamare me chama de Nêga ou Cris. Afrânio me chama de Cris ou Preta. Lígia me chama de Jiraiya, assim como a chamo também, lembrando o herói japonês ninja, cheio de efeitos especiais, que nasceu com a missão de honrar o nome do clã. E assim a gente se diverte, pois ninguém é de ferro.

    Na família materna, do aconchego Oliveira, Lima, Ramos, tem Nêga também. Titia Nina me chamava, na infância, de alguns apelidos. Dia desses, eu e ela lembramos disso e rimos muito. Fulustreca era o mais falado, mais pela junção engraçada de sílabas e sonoridade do que pelo teor semântico. Na verdade, ela queria consertar minha célebre desorganização com os brinquedos. Se eu demorasse para tomar banho ou me arrumar, ganhava o nome de uma figura conhecida na cidade de Conceição, no Vale do Piancó. A moça, que não posso mencionar o nome, muito menos o sobrenome, é estranha, um tanto desmantelada.       

    Na escola, ganhei alguns apelidos. Tia Carmelita ainda me chama de Minha Preta ou Vaninha, este em referência ao meu primeiro nome, Ivânia. Quando representei Chiquinha, do seriado Chaves, muitos colegas passaram a me chamar pelo nome da personagem. Ali foi meu primeiro fã-clube de brincadeira.

    Cila Carneiro, sogra do meu irmão Christiano, foi quem inventou o nome Titia Cris e ensinou a minhas queridas sobrinhas, Marina e Camila. Foi instantâneo. Sou a Titia Cris delas, com muito amor. No meio radiofônico cajazeirense, os colegas Arnaldo Lima, Ivanildo Dunga e Petson Santos me chamam de Mourinha. Josival Pereira, de Cristininha. Gutemberg Cardoso, de Nêga, Moura ou Mourinha. O amigo Jackson Ricarte gosta de me chamar de Nêga, Preta ou Crioula. Os amigos Débia Souza e João Braz gostam de me chamar de Nêga ou Cris. O amigo Pepé Pires me presenteia com algumas alcunhas literárias, mas prefere Cris.

    Nas terras do Sudeste, meu ex-chefe Rogério Medeiros começou a me chamar de Paraíba ou Paraibinha. Como ele já rodou esse Brasil inteiro fazendo fotojornalismo e conviveu com diferentes gerações e sotaques, proibia-se de sentir preconceito. Tratava a coisa de forma carinhosa. E ai de quem mexesse com a filha adotiva nordestina dele.

    No centro religioso que frequento, sou Tia Cris, para as crianças. Para combinar, alguns adultos também me chamam assim. É o caso de Rodrigues Leal e de César Esquianti. Outros fazem graça, como Daniel Hoisel e Fábio Souza, que gostam de me chamar de Cri Cri. Alguns me chamam de Paraíba ou Cajazeiras. O amigo Max Félix é de um Félix do interior de Minas Gerais, mas me chama de Prima. Devolvo o codinome. Bom dia, Primo. Combinado.

    Poucos amigos me chamam de Tina. O capixaba Fabrício de Paula, cujo apelido é Pingo, é um deles. Um amigo mineiro querido, que já se foi, Fabiano Gonzaga, gostava de me chamar de Dona Cris. Poucas pessoas me chamam somente de Moura, assim como o amigo, professor e orientador acadêmico Carlos Vinícius Costa de Mendonça, conterrâneo, de João Pessoa. Fico feliz com todos os tratamentos. Continuo querendo ser eu mesma, mais amiga e mais paciente, no meio de toda essa gente boa.  





Adaptado do Freepik





 

domingo, 2 de maio de 2021

Conversa comprida

 


 

Há alguns tipos de conversa: a amigável, a brincalhona, a doutrinadora, a sorrateira, a sedutora. São tantos tipos, que nem cabem aqui nesta crônica de poucas linhas. A mais pegajosa de todas é a comprida. Pega, gruda, nodoa; se demorar mais, absorve. Uma conversa comprida é aquela que não é longa, em espaço e tempo. Para o bom nordestino, esse termo é associado a uma conversa enfadonha, que às vezes até deturpa o fator inicial, isto é, desvia o mote maior da prosa.

Como é isso, vou tentar explicar. É uma conversa até perigosa. Uma conversa que vai colando com outros temas, que sequer estavam planejados pelo falante que iniciou o assunto principal. O receptor, em vez de assimilar o sentido, quer bloquear o que está ouvindo e negar o que está entendendo.

Que conversa comprida: falamos de forma mental, sem querer diminuir o outro. Mas, parece algo tão bruto, que já chegamos à conclusão, antes mesmo da tentativa de finalização. Tenho medo de administrar, eu mesma, com minha voz e meus pensamentos, e vice-versa, uma conversa assim, tão enjoada. Não tenho o direito de chatear o outro com o comprimento das minhas definições.

O bom vendedor é aquele que jamais ousa executar uma conversa comprida. Se fizer qualquer ato parecido, perde a venda, perde o cliente, perde a vez, perde a comissão, perde o prumo. Deixei o feirante conversando de maneira insossa e comprida consigo mesmo. Perdeu a freguesa. Quero o produto, não quero o versículo.

Sacerdotes de religiões diversas, se enxugam o discurso, promovem o verdadeiro contato com suas doutrinas. Caso contrário, o ouvinte se sente culpado, por ser ainda tão imperfeito, coitado; e a tendência será o desligamento progressivo. Médicos entram nessa singela lista do meu mundo literário: se o aconselhamento é técnico demais, portanto comprido, de dar voltas no quarteirão, o paciente triplica a causa emocional da doença; o ouvinte se sente um grão de areia, por não saber o que são aqueles termos científicos.   

Políticos eleitos, em suas tribunas: muitos com conversas tão compridas e desnecessárias; muitos com a exibição na ponta da língua. De cambalhota em cambalhota, derrapam e perdem seus fiéis. Fantasmas gargalham com os sanduíches de vaidades dançando nos salões. Professores, mestres da sala de aula, donos do quadro ou da tela: perdem pontos no jogo a cada conversa comprida; o conteúdo salta do décimo andar ou se esconde, como um mamífero subterrâneo.

Quanto mais comprida a conversa, menos atenção do público, seja de qual idade for. A síntese pode ser um truque, um dom, um aliado, uma peripécia, mas um método que precisa acontecer. É outro trabalho. Se sintético ao extremo, não adere à consciência. Vou até concluir por aqui, com medo de alugar o doce olhar do meu leitor. Com medo da minha légua tirana. Com medo da estrada de curvas e penhascos. Com medo de encompridar as coisas.    





Editada do Freepik


segunda-feira, 19 de abril de 2021

Bonito

 










        Venha, amiga chuva. Venha mesmo. Venha me dizer por que estamos merecendo a sua nobreza. Venha dizer por que dizemos, em idioma nordestino, que o céu está bonito. O céu: bonito para chover. O céu, o tempo, o clima, acordes de beleza no ar. Ei. Olha. Olha. Desenhos, miragens, infinitas orações.

       Lembremos que os tufos acinzentados, os que se formam com as nuvens, dizem algo da quantidade que vem. Mas há sempre um resultado com linhas não muito exatas. Mesmo anunciando o modo chuvoso em tons e sobretons de um azul mais sério e fechado, outros elementos contribuem para a performance. Lá, bem longe, colados na linha do horizonte, clarões adornam o número, sempre em contato permanente com o comando da natureza. Os raios cortam a plataforma que esconde estrelas e outros astros, mas se dissolvem nos nossos olhares. Não me garantem que encontraram, do lado de lá, outras luzes.

    Bonito, que é bonito, venha. Se está bonito para chover, estará bonito durante e depois. Olha: relampeando, relampeando, relampeando. Olha, moça. Ali. Vem do lado nascente. Bonito demais. Olha, moço, os passarinhos já estão procurando abrigo. Naquela tarde, pinceladas de laranja, às vezes, juntaram-se aos blocos de cinza. E é tão bonito que não entendemos, de imediato, como se faz essa pintura, que muda, que amedronta ou surpreende. Venha, neblina. Venha anunciar que vai chover.

    Cada fenda de lajedo agradece essa superdose de alívio. Cada gota se multiplica em bilhões de minúsculos pingos, respingos, pensamentos. Cada gotícula enche de esperança tantos jardins e melodias, tantos discursos e promessas, tantas gargalhadas e fantasias. Venha, pois está bonito. Se trovejar, não nos incomodamos. É o som da primeira canção, é a percussão divinizada, é o ritmo das certezas. Olha. Olha, como é a natureza: avisa, alerta, promove, enriquece, acalma.

        Do preparo, do bonito, viajamos. Mergulhamos nesse fenômeno que enche de brilho nossa horta, que vira assunto na feira, que transforma o cardápio, que aproxima os desejos. Não é culpa desse esplendor o entupimento das galerias, o deslizamento das barreiras, a confusão no trânsito. Se é esplendoroso o presente, é abençoado. Sim. Mas, olha. Olha. Vamos pensar somente no que está sendo enviado, em forma de água, em parceria com o vento. Vem ali. Vem caindo em síntese ou expansão; visita as expectativas; aborda os mais céticos; tempera a conversa. Olha. Olha. Olha, minha gente, está bonito. Como está bonito. Olha. Parece que vem daqui a um minuto.   

 


Imagem: Freepik


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Quase vegana

 


        Passei apenas seis meses seguidos sem comer carne. Quando falo a respeito de carne, é claro, falo de fragmentos de bichos, principalmente dos conhecidos boi, frango, porco e peixe. Essa minha saga ocorreu com um propósito: facilitar algumas posturas de ioga. E funcionou. O corpo, ao ficar mais leve, desenvolveu os movimentos com mais rapidez ou mais eficiência. Mas, o tempo de dedicação foi curto. Perdi a batalha, por enquanto.

        Não fui mais adiante porque me rendi a um ensopado saboroso de rabada com agrião. Gente, não resisti mesmo àqueles pedaços de cartilagem, com aquele caldo cheirando a pimenta, cebola, alho, coentro ou salsa. Aquilo, colorido e brilhante, que uma vez serviu para compor o final de um esqueleto, de pronto me servia, em porções generosas. Parecia sussurrar assim: eu avisei.

        Sim, continuei com a prática da ioga, que não foi mais a mesma. Passei a intercalar dias sem carne, comendo ovo ou queijo. Palmito também, como nobre opção. Mas, num breve período, fui vencida. Logo se vê que não posso dizer que sou tão evoluída no campo espiritual. Há o pecado da gula que me cerca, dias e noites. Luto contra ele, como numa partida de boxe. Caso eu esteja de frente a um bife acebolado, é nocaute: com certeza.

        Dizem que há tipos de pessoas que não comem carne. Que comem somente peixe. Ora, pois. Somente peixe. Eu mesma já me empanturrei com moquecas, as mais variadas, com aquele pirão acompanhando as postas. Dependendo do bicho aquático, é carne sim, da boa, e com gordura, por baixo do couro. Percebi, depois de muitas investidas de boca cheia, que meu estômago não reage bem a esses encourados. Não significa dizer que eu esteja livre.  

        Outros seres da água, mesmo não muito convidativos ao meu paladar, também estão aptos ao meu octógono, à luta clássica dentro de mim. Não sei se me pegam no primeiro ataque. Aquela pergunta aparece, com ares literários: pensar ou não pensar; comer ou não comer; ser ou não ser. Mas ninguém faça cerimônia se quiser me apresentar uma panela com camarão, polvo, sururu, caranguejo ou siri. Devoro tudo, em rocambolescos minutos.

        Com a gula, há um médio controle, mas que soa como um sino que me atormenta. Quando eu me encontro com a costela bovina com batata, presto minha inteira solidariedade a quem a preparou. Tento ficar somente na batata, mas, realmente, não posso. Ainda me perco nas trilhas. Se possível, vou à cozinha do lugar e dou os parabéns aos responsáveis.

        Quando o assunto é ave, não somente frango, pato, galo e galinha me chamam a atenção. Lembro que, algumas vezes, comi arribaçã frita. Outros passarinhos, coitados, já caíram na minha teia. Admito que nem lembro de quem cometeu o crime da matança, e se o ato foi com baladeira ou arapuca. Quero nem saber.

        E quando o tema é suíno, olha, até tento me segurar, mas um churrasco de linguiça é de salivar. Aquelas bolinhas gordurentas me inspiram, mas parece que me vigiam, dizendo: Cristina, você não é mais criança. Vá devagar. Aliás, toda carne que enfrenta a brasa guarda uma riqueza diferente. O cheiro convida.

        Outra produção que nasceu dos porcos: a calabresa. Na pizza, é de arrepiar. Pode ser no pão. Pode ser no cuscuz. Pode ser no arroz. Pode ser com bolacha. Difícil é me segurar ou adotar a consciência de analisar os riscos sobre uma vida que foi tirada. Quando a mente vem se aproximando dessa ideia, de imediato, crio a expressão em letras gigantes, em neon: cadeia alimentar. Cadeia alimentar. Cadeia alimentar. Nem ouço mugido, berro, piado, grunhido, cacarejo. Penso na minha limitação em não obedecer aos ritos meditativos. Penso no presunto. Penso no paio. Penso na mortadela. Penso no salame.

      Outras lascas porquinhas são irresistíveis junto com o feijão. O que seria da feijoada sem essas criaturas, que meus amigos veganos chamam de cadáveres, não sei. Experimentei, entretanto, essa iguaria típica do nosso Brasil, de diversas maneiras: com proteína de soja, champinhom, grão-de-bico. Não colou. Se alguém me convidar, lógico, comerei. Mas o prazer vem mesmo é daquele carré, daquele pé ou daquele bucho. O toucinho é algo que enfeita o momento, coloca um ritmo guloso na dança. Às vezes, vem para estralar mesmo, fazer barulho na cabeça.

        Quando penso na família dos saltitantes caprinos, a gula triplica. Que bela festa. Cozido, assado, frito, costurado: bode, cabra, carneiro. Saia da frente, por favor. Nem cabrito escapa. Querido leitor, veja a minha dificuldade em ser vegana ou vegetariana. Peço desculpas pela decepção. Caso queiramos nos remeter aos miúdos, sem problema: fígado, coração, rim, moela. A brincadeira está valendo. A miudeza, o detalhe ou o pormenor sempre serão intensos objetos de estudo. Com louvor.   




Imagem: Vecteezy


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Verdade verdadeira






 








        É, comadre, como eu ia dizendo, a verdade é verdadeira. Disse que ontem ouviram um vulto. E como se escuta vulto, não sei. Mas sei que se pode ver. Um compadre da vizinha disse que podia escutar, de tão estrondosa que era a clareza da luz. Pois, então. É isso mesmo. Disse que lá longe, por trás do sítio Esperança, indo mais para o lado do sítio Concórdia, eles avistam tudo o que é de vulto. E que tem toda semana. E é verdade verdadeira. Pois é.

        Não é querendo dizer que acredito em tudo, mas outra comadre minha, a senhora se lembra, aquela que foi para São Paulo, pois é, filha dos meus primos por parte de pai, disse que ela via. Disse que era. Sim. Disse que era. E era verdade limpinha, verdade verdadeira. Como o dia vem depois da noite, como aquele juazeiro não seca de jeito nenhum.

      Comadre, esse negócio de assombração é fato, o povo garante. Disse que é realidade, da boa. Verdade verdadeira. Não se assuste. Nem é para se assombrar. Nem era para ter esse sentido. Escute. Um conhecido meu, que trabalhava de entregador de leite, lá nas bandas do rio Verde, achou de se admirar com uma visagem. Não entendi. Ora, se ele viu, não sei por que se assustou. Disse que ele até desmaiou, comadre, de tão forte que era a visagem. Disse que era uma coisa enorme, que tomava mais de vinte metros de altura. Sufocava as vistas de tão brilhosa que era a situação. Daí que meu conhecido veio a ficar sem chão. Quem o socorreu, não sei. É possível que ele tenha se levantado sozinho porque naquele meio do mato não passa gente de hora em hora. É difícil. E era no amanhecer, no início, na boca do vento, com os primeiros raios de Sol, com os primeiros passarinhos cantarolando.

        Mas está aí ele para contar. Ele conta em tudo o que é estrada, boteco, pouso. Vai contando e destrinchando como foi. Eu mesma, comadre, não sei se acredito. Mas disse que é verdade verdadeira. Coisa da mais pura realidade. Coisa fina. Coisa que só quem vê é quem sabe contar direito. Quem não viu, assim como eu, fica fantasiando, desenhando na cabeça.

        Torço até para um dia me encontrar com uma imagem, uma cena desse tipo, uma inquietação próxima a que chegou na vista do meu conhecido. Pelo menos de cor parecida. Pelo menos para procurar, de mansinho, entender o que ele conta. Sim. Pois é isso.

        Aquele meu outro conhecido, parente daquele moço, Seu João, que vendia rifa, sim, aquele, jura de mão junta que, numa noite de inverno, viu. Disse que outro conhecido, que atende pelo apelido de Zinho, nunca mais foi a mesma pessoa. Como pode, podendo. Pode sim. Disse que ele viu e gritou de susto, comadre. Nem imagino como é esse susto porque penso que é uma luz que contenha certa beleza. Não vejo por que se espantar, como quem vê uma monstruosidade. Pois é. Disse que ele passou quinze dias sem dar uma palavra. Só fazia beber água, comadre. Pense numa novela.

        Mas, olha, aqui entre nós, eu acredito, de algum jeito. Sei que dizem que é verdade. Firme como uma rocha. Verdade, verdade, da mais profunda afirmação da história. E ele é um rapaz trabalhador. Não ia sair por aí mentindo, contando lorota com uma visagem. Fique sabendo, comadre, que eu, se me deparar com uma luminosidade que pode até tirar minha fala por alguns dias, não vou contar. Não conto a seu ninguém. Por quê? Ora, nem toda verdade verdadeira é assim, contada. Pode ser silenciada. Tem segredo que é a prova mais viva de uma coisa e que nem por isso é revelado. Guarda no seu íntimo, comadre, o caroço da verdade.

        E, como eu ia dizendo, esse assunto de visão fora do tempo, visão de repente, tem algum fundo de exagero. Sei lá se aquele meu conhecido viu coisa tão alta. Sei lá se foram tantos metros. Pode ser que ele mesmo tenha se enganado. Não estou dizendo, com isso, que o rapaz mentiu. Não. Quem sou eu. Mas o rapaz, no susto, pode ter aumentado a forma, pode ter caprichado na intensidade, pode ter carregado na ideia da ilusão. Pois é. Mas se eu disser isso a outra pessoa, diferente da senhora, comadre, que é da minha confiança, é sujeito eu ser interpretada com outro olhar.

      Disse que Donana, aquela minha conhecida lá do Pajeú, embarcou numa conversa assim, colocando algumas passadas na estrada do contador. Não deu certo. Foi moído para mais de ano. Inventaram que ela mentia e dizia, além disso, que o acontecimento nunca havia existido. Sinceramente. Isso mesmo. É melhor, acho, sentir a verdade com todo o seu universo. Sim. Porque é isso, comadre. A verdade, quando domina, é a verdade verdadeira.   


A montanha

 










        Uma das posturas mais ensinadas na ioga, para quem está começando, é a da montanha. Segundo a origem da prática, escrita em sânscrito, chama-se Tadasana. A pronúncia mais difundida é a tônica na antepenúltima sílaba, tomando como base nossa leitura aportuguesada: Tadássana. Para os mais ortodoxos, Yoga deve ser escrito assim, iniciando com ípsilon maiúsculo, com pronúncia fechada na segunda letra. E seria uma palavra masculina. Mas, as adaptações no nosso canteiro fazem da ioga um nome feminino, com pronúncia aberta. Não depende de letra maiúscula para se mostrar importante.

        A postura citada, que se coloca simples para quem inicia, trata apenas de ficar de pé. Apenas. Uma das versões é deixar os braços estendidos ao longo do corpo e olhar para a frente. Não é tão fácil passar alguns minutos sem se render à ansiedade ou aos barulhos internos e externos. Com o decorrer das atividades, percebemos que a respiração será a principal fonte da concentração, para que os pés se sintam firmes, a coluna esteja alinhada e o pensamento flua como um rio em tempo de primavera.

        Pensamento. Pensamento. Está aqui um discreto contrariador da ioga. Se não for bem articulado, torna a postura sofrida e o praticante irritadiço. Eu mesma já fui vítima do pensamento atravessado, desconsiderei o ritual e vi colegas desestabilizados com o tamanho do corpo. Na realidade, é o tamanho das próprias limitações, das desconfianças, das dúvidas, das intolerâncias, das bombas de açúcar no sangue, dos pratos deliciosos de costela ensopada. Tem gente que desiste logo na montanha.

       Ao imaginar a elevação, penso numa excursão diária, num grupo de desportistas, cujo líder recomenda cautela. Vamos escalar com cuidado, diria ele. Vamos, ao menos, contemplar. Ao menos sentir uma porção da natureza, disponibilizada para nós mesmos. Ao menos, sentir. Ao menos, pois a montanha traz uma série de simbologias. Se o corpo estiver ereto, firme, seguro no exercício, pensar significa não pensar. Sim. Significa não elaborar, não se preocupar com o que a mente apresenta e deixar o ato de respirar sintonizado com o ambiente.

          A montanha ganhou tal nome na ioga porque indica justamente o estado de firmeza, de equilíbrio, de exatidão. No nosso lado ocidental, pensamos parecido. Não é à toa que está incorporada, na nossa fala, a certeza de que a fé remove montanhas. Não é à toa que existe aquela música, que fala da montanha, que nos lembra o ato de agradecer. E o agradecimento é límpido quando compreendemos seu verdadeiro sentido. A montanha será sempre aquele lugar alto, representativo da beleza e da imponência. Nos meus desenhos de criança, a paisagem, para ser completa, tinha uma montanha. Um risco no fundo da composição, combinado com outros traços, com retoques de cores e algumas plantas. Para ficar ainda mais emocionante, percebi, no meu mundo, que da montanha poderia surgir uma cadeia, uma cordilheira, um conglomerado de montes, figuras naturais em pedras a serem escaladas.

        É por tudo isso que a postura da montanha é como se fosse a postura da verdade. A partir dela, percebemos como está nossa quietude, ou seja, nossa capacidade de parar, mesmo com tanto alarme tocando. Essa pausa é intencional e se torna complexa, à primeira vista. Quando lembro de montanha, também lembro de uma dificuldade que pode ser vencida. Lembro de uma suntuosidade geográfica. Um destaque. Um ser que é vivo, alto e bem alto. Com finalidades múltiplas. Finalidades que se auxiliam. Finalidades que nos convidam. Sim, vamos lá.  

  



Imagem: Freepik

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Manda-Chuva e sua turma

 


 

        Minha ligação com William Hanna e Joseph Barbera não é pouca. Sou fã da dupla norte-americana, desde que comecei a entender que estou no mundo. Não me canso de aplaudir o talento dos desenhistas, que certamente não criaram seus personagens somente para as crianças. Estou falando de uma trajetória que começou nos anos de 1940 e tomou conta do imaginário de muitos, não somente da minha geração.  

        Ao estudar alguns autores de produtos literários para a meninada, encontro recados para os adultos. Algumas mensagens subliminares, aos poucos, fizeram e ainda fazem total sentido. É por isso que a obra de Hanna e Barbera tende a ser lembrada durante muito tempo. Na verdade, atravessa o tempo, pois crescer é estar diante desse painel de possibilidades, e as escolhas fazem parte do jogo. Não, não é decepcionante: é o clareamento da interpretação.

        Um exemplo do que estou falando é o inigualável Manda-Chuva, o original Top Cat. Que turma perfeita para discutir a realidade. Os gatos do beco são os malandros de sempre. O chefe deles é a representação de um cidadão que ainda percebemos nos dias atuais. É o mandante folgado, oportunista, que gosta de se dar bem em tudo. Para coroar suas vontades, conta com os parceiros, os aliados, os cúmplices. Agora, diga, caro leitor, se isso não é real. Não é difícil encontrarmos esses tipos num momento parecido com o que estamos vivendo, de campanha eleitoral. É lógico que, num desenho animado, é tudo alegria. Diversão garantida. As trilhas sonoras são um espetáculo, um rico elemento à parte. O acesso a uma cultura diferente também.

        Ao analisarmos de forma mais fria e objetiva os personagens, vemos que são muito próximos, muito reais, muito presentes. Hanna e Barbera traduziram, em muitas de suas obras, a essência do ser humano e do que este é capaz de fazer ou pensar. As maracutaias de Manda-Chuva, que é auxiliado por Espeto, Bacana, Chuchu, Gênio e Batatinha, podem conter o exagero típico dos cartoons, mas são bastante conhecidas.

        É a cara do gato gatuno fazer o possível para levar vantagem, junto com seus comparsas. O chefe, com certeza, leva ainda mais vantagem do que seus amigos, para que se estabeleça uma noção hierárquica mesmo. Quem manda é o mais astuto. Sem dúvida, o malandro é inteligente. O malandro sabe articular, elogiar, ordenar. Seus súditos, os discípulos devotos ou fidelíssimos seguidores, são hipnotizados todos os dias. Adoram obedecer. Com o rei gato em pleno exercício, os subordinados aprendem que o trabalho é algo cansativo e até desnecessário. O melhor, então, é fazer um plano para utilizar o que já está pronto. Vejamos se tudo isso não é bem familiar à nossa sociedade.  

        O Guarda Belo, que é a figura do oponente nas narrativas, é importante. Provoca nossa consciência sobre o que é certo e errado. Questiona, de forma direta ou indireta, se o que estamos vendo merece um final feliz para a malandragem. Em alguns casos, até Belo é envolvido pela teia antiética, ficando em dúvida se está punindo de forma correta. Não sei quando a crítica dos cartunistas perderá a validade. Não tenho ideia. Não sei. Nem vou arriscar. Quem souber, por favor, me avise. São tantas gangues, tantos becos e tantos gatos, que nem imagino. 








terça-feira, 7 de julho de 2020

Vau da Sarapalha









Teatro Íracles Pires lotado. Uma quarta-feira. O ano era 1993, minha tórrida atmosfera de preparo para o Vestibular. Colégio Objetivo. Ali mesmo, naquele casarão onde funcionava o Hotel Oriente. Um jovem rapaz, estudante de Direito na UFPB, em Sousa, e que trabalhava bem perto, no escritório de contabilidade de Seu João Meireles, chamou minha atenção. Melhor ainda saber que era neto de Dona Lourdes, do Hotel Cajazeiras, uma senhora a quem eu nutria de longe um certo carinho e admiração. O rapaz se chama Meilson Cunha. Foi um namoro rápido, poucos meses, mas suficientes para que mantivéssemos depois uma relação de amizade sincera. Lembro que ele disse que achava bonita a minha aproximação com a literatura. Falou que leria meus livros. Ótimo. Esse dia vem chegar. Sou grata a ele pelo presente de ter me levado àquela casa de espetáculos naquela noite.

Vau da Sarapalha, há anos em cartaz com o grupo paraibano Piolim, estava ali, na minha frente, descortinando um pedacinho do universo riquíssimo de João Guimarães Rosa. Mais tarde, demorei a dormir. Verdade. Fiquei horas lembrando de Escurinho, que com seu personagem fez gato e sapato da sonoplastia. Um show. Anos depois, comecei a entender essa monstruosidade de talento que é o percussionista e compositor. Grande Jonas.

No elenco também os irmãos cajazeirenses Soia Lira e Nanego Lira. Que personagens profundos. Sintonia pura. O chão se rasgava para meus olhos em camadas singelas de realidade. Junto com Everaldo Pontes, os diálogos escancaravam para o público as angústias da zona rural, carente de certezas e investimentos. Eis o talento do autor, ao contar um causo que parece simples, a construção de um vau na beira do rio e a luta psicológica de um personagem que se apaixona pela mulher do amigo. A malária como grande nebulizador da trama: febres, delírios, desilusões, ameaças, distanciamentos. A morte flertando o tempo todo.

Havia um elemento visual que me convidava a outros respiradouros lúdicos: o fogo. Podia ser interpretado de diversas maneiras: gerado na mata, esquentando a panela, ameaçando o grau de confiança dos dois amigos na narrativa. Quentura. Os bichos. Calafrio. Muitos contrastes que somente um diretor com o porte de Luiz Carlos Vasconcelos acertaria com sensibilidade. O sobrenatural foi algo bem planejado e executado. Um primor. A técnica em persuadir e envolver o leitor no teatro foi acertada, no alvo. Era um enorme texto que exibia seus contornos e se concretizava.

Daquele dia em diante, não li somente Sagarana, a obra que inspirou a peça, mas o que eu pude de Rosa. E ainda falta tudo o que dizem dele. Aí é infinito. Que bom. Continuemos a estudar esse médico e diplomata, mineiro do oco da natureza, que inaugurou um jeito diferente de escrever e transportou para o papel o jeito de falar, o jeito do habitante do interior do Brasil. Sempre há um quilate de mágico, de duvidoso ou temeroso. Nessa brecha, entram as nossas vontades de descobrir mais. Mais e mais.   









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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Lições eternizadas






A sorte me chegou diversas vezes e sou grata por isso. Um dos exemplos que lembrei, dia desses, foi ter sido aluna de Wellington Pereira, na UFPB. A disciplina foi Preparação e Revisão de Originais, em 1994. Wellington estava quase embarcando para a França, com o objetivo de cursar o seu merecido doutorado em Sociologia. Um dos primeiros ensaios que escrevi para a disciplina, O sabor da crônica, além de documentado pela instituição, está por mim guardado. Foi ensaio porque se colocava diferente de todo e qualquer trabalho acadêmico que eu fazia: um tom dissertativo, mas sem tantas amarras. O professor nos ensinou a lidar com certa liberdade, aos construirmos uma crônica, um artigo de opinião, uma crítica, e até mesmo numa grande reportagem, que nunca deixa de apresentar o tom pessoal de quem escreve. Vejamos bem: certa liberdade, não total. Eis a fórmula ética do bom produtor de textos.

A característica metalinguística da disciplina dizia tudo sobre o professor. Na época, ele me presenteou com As possibilidades do Róseo, seu livro de contos. Poeta em tudo o que procurava dizer, ele foi fundamental para deixar clara a importância da técnica na escrita. Lembro da sua voz pastosa e risonha, dizendo sempre: talento sem técnica não adianta. Leia, dizia ele, para nós todos: leia e muito, muito mesmo. Esse muito, claro, com critérios estabelecidos pelo próprio leitor. Leia os clássicos, os escritores consagrados, os escritores premiados. Se o escritor foi premiado, por mais que o leitor não goste do estilo em questão, é importante ler e procurar compreender por que o prêmio. Caso o leitor não se conforme com apenas uma narrativa daquele autor, é salutar conhecer outros títulos.

Leia os best-sellers, pare de preconceito com os best-sellers, deixe o autor ganhar dinheiro em paz. A perenidade da obra, o tempo se encarrega de dizer e provar. Escreva. Escreva todos os dias: uma frase, um verso, uma estrofe, um parágrafo. Transforme a pressão cotidiana, os famosos prazos, em aliados: aproveite para aprimorar ou adaptar sua técnica. Por mais talentoso que você acha que seja ou que os outros dizem, invista na técnica. Seja o artesão que não se contenta, dia e noite, enquanto não admitir que seu texto está pronto para o editor. Leia a gramática, estude a gramática. Faça da gramática uma companheira de todas as horas, junto com o amigo dicionário.

E, assim, fui entendendo, aos poucos, os conselhos do bom mestre, com assento carimbado na literatura. Graças a essas aulas, decidi rápido o que seria meu Trabalho de Conclusão de Curso, em 1998: A tecla do tempo. Fiz um ensaio sobre a fusão do jornalismo e da literatura no gênero crônica. Não o considero maduro para ser publicado, mas pode crescer para outro ensaio, mais elaborado e recheado de novas ideias. O orientador do trabalho foi o professor Carmélio Reynaldo Ferreira, outro que me ensinou muito sobre o ato de escrever tecnicamente.

Durante a fase da pesquisa, tive a honra de entrevistar dois grandes cronistas que já se foram, para outra dimensão das palavras: Luiz Augusto Crispim e F. Pereira Nóbrega, o mesmo que tinha sido o Padre Chico Pereira, nas bandas do meu doce Vale do Piancó.  Cada um com sua lição prodigiosa em escrever. Todas as lições estão catalogadas no mesmo reino das subjetividades, o mesmo onde estão os sonhos, aqueles que, de vez em quando, relato aqui. A diferença é que beiram a realidade, quando encontram novas caras e letras. Mas isso já virou tema de outra conversa. Boa sorte.         









Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...