terça-feira, 7 de julho de 2020

Vau da Sarapalha









Teatro Íracles Pires lotado. Uma quarta-feira. O ano era 1993, minha tórrida atmosfera de preparo para o Vestibular. Colégio Objetivo. Ali mesmo, naquele casarão onde funcionava o Hotel Oriente. Um jovem rapaz, estudante de Direito na UFPB, em Sousa, e que trabalhava bem perto, no escritório de contabilidade de Seu João Meireles, chamou minha atenção. Melhor ainda saber que era neto de Dona Lourdes, do Hotel Cajazeiras, uma senhora a quem eu nutria de longe um certo carinho e admiração. O rapaz se chama Meilson Cunha. Foi um namoro rápido, poucos meses, mas suficientes para que mantivéssemos depois uma relação de amizade sincera. Lembro que ele disse que achava bonita a minha aproximação com a literatura. Falou que leria meus livros. Ótimo. Esse dia vem chegar. Sou grata a ele pelo presente de ter me levado àquela casa de espetáculos naquela noite.

Vau da Sarapalha, há anos em cartaz com o grupo paraibano Piolim, estava ali, na minha frente, descortinando um pedacinho do universo riquíssimo de João Guimarães Rosa. Mais tarde, demorei a dormir. Verdade. Fiquei horas lembrando de Escurinho, que com seu personagem fez gato e sapato da sonoplastia. Um show. Anos depois, comecei a entender essa monstruosidade de talento que é o percussionista e compositor. Grande Jonas.

No elenco também os irmãos cajazeirenses Soia Lira e Nanego Lira. Que personagens profundos. Sintonia pura. O chão se rasgava para meus olhos em camadas singelas de realidade. Junto com Everaldo Pontes, os diálogos escancaravam para o público as angústias da zona rural, carente de certezas e investimentos. Eis o talento do autor, ao contar um causo que parece simples, a construção de um vau na beira do rio e a luta psicológica de um personagem que se apaixona pela mulher do amigo. A malária como grande nebulizador da trama: febres, delírios, desilusões, ameaças, distanciamentos. A morte flertando o tempo todo.

Havia um elemento visual que me convidava a outros respiradouros lúdicos: o fogo. Podia ser interpretado de diversas maneiras: gerado na mata, esquentando a panela, ameaçando o grau de confiança dos dois amigos na narrativa. Quentura. Os bichos. Calafrio. Muitos contrastes que somente um diretor com o porte de Luiz Carlos Vasconcelos acertaria com sensibilidade. O sobrenatural foi algo bem planejado e executado. Um primor. A técnica em persuadir e envolver o leitor no teatro foi acertada, no alvo. Era um enorme texto que exibia seus contornos e se concretizava.

Daquele dia em diante, não li somente Sagarana, a obra que inspirou a peça, mas o que eu pude de Rosa. E ainda falta tudo o que dizem dele. Aí é infinito. Que bom. Continuemos a estudar esse médico e diplomata, mineiro do oco da natureza, que inaugurou um jeito diferente de escrever e transportou para o papel o jeito de falar, o jeito do habitante do interior do Brasil. Sempre há um quilate de mágico, de duvidoso ou temeroso. Nessa brecha, entram as nossas vontades de descobrir mais. Mais e mais.   









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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Lições eternizadas






A sorte me chegou diversas vezes e sou grata por isso. Um dos exemplos que lembrei, dia desses, foi ter sido aluna de Wellington Pereira, na UFPB. A disciplina foi Preparação e Revisão de Originais, em 1994. Wellington estava quase embarcando para a França, com o objetivo de cursar o seu merecido doutorado em Sociologia. Um dos primeiros ensaios que escrevi para a disciplina, O sabor da crônica, além de documentado pela instituição, está por mim guardado. Foi ensaio porque se colocava diferente de todo e qualquer trabalho acadêmico que eu fazia: um tom dissertativo, mas sem tantas amarras. O professor nos ensinou a lidar com certa liberdade, aos construirmos uma crônica, um artigo de opinião, uma crítica, e até mesmo numa grande reportagem, que nunca deixa de apresentar o tom pessoal de quem escreve. Vejamos bem: certa liberdade, não total. Eis a fórmula ética do bom produtor de textos.

A característica metalinguística da disciplina dizia tudo sobre o professor. Na época, ele me presenteou com As possibilidades do Róseo, seu livro de contos. Poeta em tudo o que procurava dizer, ele foi fundamental para deixar clara a importância da técnica na escrita. Lembro da sua voz pastosa e risonha, dizendo sempre: talento sem técnica não adianta. Leia, dizia ele, para nós todos: leia e muito, muito mesmo. Esse muito, claro, com critérios estabelecidos pelo próprio leitor. Leia os clássicos, os escritores consagrados, os escritores premiados. Se o escritor foi premiado, por mais que o leitor não goste do estilo em questão, é importante ler e procurar compreender por que o prêmio. Caso o leitor não se conforme com apenas uma narrativa daquele autor, é salutar conhecer outros títulos.

Leia os best-sellers, pare de preconceito com os best-sellers, deixe o autor ganhar dinheiro em paz. A perenidade da obra, o tempo se encarrega de dizer e provar. Escreva. Escreva todos os dias: uma frase, um verso, uma estrofe, um parágrafo. Transforme a pressão cotidiana, os famosos prazos, em aliados: aproveite para aprimorar ou adaptar sua técnica. Por mais talentoso que você acha que seja ou que os outros dizem, invista na técnica. Seja o artesão que não se contenta, dia e noite, enquanto não admitir que seu texto está pronto para o editor. Leia a gramática, estude a gramática. Faça da gramática uma companheira de todas as horas, junto com o amigo dicionário.

E, assim, fui entendendo, aos poucos, os conselhos do bom mestre, com assento carimbado na literatura. Graças a essas aulas, decidi rápido o que seria meu Trabalho de Conclusão de Curso, em 1998: A tecla do tempo. Fiz um ensaio sobre a fusão do jornalismo e da literatura no gênero crônica. Não o considero maduro para ser publicado, mas pode crescer para outro ensaio, mais elaborado e recheado de novas ideias. O orientador do trabalho foi o professor Carmélio Reynaldo Ferreira, outro que me ensinou muito sobre o ato de escrever tecnicamente.

Durante a fase da pesquisa, tive a honra de entrevistar dois grandes cronistas que já se foram, para outra dimensão das palavras: Luiz Augusto Crispim e F. Pereira Nóbrega, o mesmo que tinha sido o Padre Chico Pereira, nas bandas do meu doce Vale do Piancó.  Cada um com sua lição prodigiosa em escrever. Todas as lições estão catalogadas no mesmo reino das subjetividades, o mesmo onde estão os sonhos, aqueles que, de vez em quando, relato aqui. A diferença é que beiram a realidade, quando encontram novas caras e letras. Mas isso já virou tema de outra conversa. Boa sorte.         









sexta-feira, 1 de maio de 2020

Trinta moedas de prata







Certas músicas aprontaram muitas na minha memória. Vivi nos acordes um realinhamento de ideias, uma carrumbamba de emoções com açúcar. Asa Branca está no tope dez das catarses. A primeira nota sinalizada na sanfona promove, de imediato, um olhar mais penetrante. O espetáculo está apenas começando, não somente para falar do fenômeno da seca. Fala da existência do ser humano, o qual, por ser humano mesmo, pergunta-se de forma diária e cansativa como ser gente. Nem todo humano é caracterizado por mim como gente. Tenho certeza de que muitos dos leitores entendem de outra forma: que todo ser humano é gente. Isso é saudável. Cabem as interpretações mais diversas.

A canção Asa Branca não cansa de ser interpretada. Isso acontece porque muitos seres humanos e gentes gostam de estudar. Há muito mesmo o que se estudar nela. Coincidência ou não, e não me incomodo se eu usar aqui lugares-comuns a rodo, a melodia começa com o acorde sol. Vamos considerar que o calor emanado pelo astro, se considerado o local árido em que visita, é ensurdecedor. Temos um rei que governa para todos. O acorde puxa uma colocação vocal brilhante de Luiz Gonzaga, casando a voz com o marejar do fole. Sem dúvida, é maravilhoso de se dançar.

A fala do sertanejo é lembrada na letra, com os cacoetes que constam na própria gramática da vida. É por isso que o verbo flexionado oiei não deveria ser olhei. Simples. Olhei, o verbo olhar no pretérito perfeito do modo indicativo, fugiria da narrativa, que também se assemelha a uma oração, um rito de passagem para um paraíso, dependendo da fé do caboclo. E, por falar em lugar onírico, ganhamos, de cara, a lembrança de São João Batista. Isso para o mundo todo ver que as fogueiras juninas são as histórias revividas, a cada milho assado, a cada rojão, a cada gafieira.

Asa Branca nasce em 1947, quando se usava pó de arroz como um dos elementos femininos mais cobiçados do pedaço. Vitalina tanto acreditou que insistiu no cosmético, como explicou Jackson do Pandeiro. E, por estamos perto do dia primeiro de maio, lembraremos ao som da mesma canção, que o Comando Geral dos Trabalhadores foi extinto na mesma época do pó de arroz. Trabalhador sindicalizado era uma ameaça constante, um ninho de subversivos. O militar Eurico Gaspar Dutra era o comandante do navio. 

Em seguida, temos uma construção do português clássico, utilizando o pronome relativo qual, em vez do pronome relativo que. E me perguntei, com meus olhinhos de criança, a olhar praquele céu azul e muito azul da plataforma celestial: por que uma palavra que não está no meu dicionário da escola e, logo adiante, outra em profunda sintonia com as leis gramaticais. O azul não respondeu como eu gostaria, deixando para depois. Mas continuei perguntando. É aquele azul para não esquecer. É aquele azul que nunca uma tela minha alcançará, e somente tentará se aproximar, como um gato se aproxima do dono.

A primeira estrofe fecha com a pergunta a Deus do céu, por sinal o mesmo céu nordestino que conhecemos. E, para quem ainda não conhece, imagine um tapete limpo, com uma nuvem ou outra passando pelos passarinhos. O verso termina com uma interjeição, que pode parecer um recurso estético para imitar o ritmo. Talvez tenha essa intenção também. Mas o ai é a primeira palavra que falamos ao sentirmos alguma dor. A lágrima é por dentro do corpo.

A terra arde e a música pergunta por que tamanha judiação. Judas, a origem do termo. Judas Iscariotes, um ser ainda pouco estudado e compreendido. Sem as trinta moedas de prata recebidas pelo tesoureiro, não sei se hoje seria dia trinta de abril de dois mil e vinte no meu calendário. Sem as trinta moedas, meus livros didáticos não estariam coalhados de romanos. Sem aquelas moedas, o cinema não teria lucrado. Sem aquele beijo, nada de coelho. Nada de chocolate. 









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terça-feira, 14 de abril de 2020

Sangue negro e cheiroso














     










Por entre uma página e outra, acertei meus ponteiros, num relógio mental descoberto pelas lavadeiras, fadas do cotidiano. Pelos cantos da brochura, embrenhei-me nas plantações de cana-de-açúcar, assisti a todas as possíveis lamentações do doidinho em seu mundo de perguntas, raspei incontáveis tachos, derramei meu sangue negro e cheiroso. Por entre uma e outra, senti a chibata, mas também assinei decretos e autorizei demolições; por entre uma e outra, as correntes doeram, mas apertei gatilhos. Por entre uma e outra, roí as unhas, mas vesti a echarpe.

Sem esperar, por certo, mas parte de mim poderia prever, senti cada batuque baiano, em outras plantações, as de cacau. Senti cada amargoso daqueles diálogos construídos por um amado, uma sentinela do seu povo, um alçador de desejos, um degustador de canela. Por entre uma página e outra, meu passaporte nem havia sido carimbado de forma oficial, mas comemorei os desafios românticos de uma moça de lábios de mel, infiltrando-me naqueles ipês floridos, devagar, ao passo que ousava conhecer as macabéas.

Nem era preciso pedir licença. Senti o maravilhamento daquilo, dada a minha natureza intrometida, de gente que necessita de fontes, fontes com pisadas sobrenaturais, fontes que mastigam o passado, fontes límpidas e sedosas, fontes barrosas de diálogos efervescentes, fontes a pensar a partir de anéis saturnianos ou aqueles da sociedade nórdica.

Por entre um suspiro e outro, meu senso mochileiro nem se tocou que tudo poderia mudar, tudo poderia renascer a cada linha completa ou livre, a cada rima ou a cada parágrafo, a cada tenda ou ramalhete. As pontas dos meus dedos dedilhavam uma febre de querer uma compreensão imediata, mas, por graça divina, cada degrau conduzia a um compartimento do cérebro, cada degrau me ensimesmava ou me expandia.

Que magia seria essa, tão nobre e avassaladora, não pude saber de imediato. Por entre um painel adocicado e outro, aparecia o navio de imigrantes, apareciam as geadas e apareciam os milhões de olhares e apareciam as bonecas de pano, os viscondes, os sacis, as cucas. Lembrei-me, ainda, que a viagem não é finita, que entre uma página e outra há uma pausa profunda e etérea, que entre um espaço e outro há uma passarela de realismos, de fantásticos, de lamentações e felicidades, de passaredos e passarinhos.

Como explicar ao outro o que senti quando entrei naquela vila, como explicar ao outro que me perdi naquela selva, como explicar ao outro o que vi quando naveguei naquele edifício no centro do oceano. Como explicar que, a cada virada de página, um som saía pelas costuras do papel; como explicar que, a cada cheiro de celulose processada, viria também o cheiro daquelas ruas cariocas, com Policarpo me escoltando.

Por entre uma lágrima e outra, até gargalhei e refiz meus redemoinhos, molhei a horta de ideias tontas, aprumei a coluna, mirei o alvo de possibilidades, sorvi o caminhar das mitológicas crateras: reli. Como explicar ao outro que a releitura é mais um cartão de embarque, como explicar ao outro que a imagem é texto etiquetado de conceitos e deflagrações, como explicar ao outro que a bula faz todo sentido místico, como explicar ao outro que a receita do brigadeiro carrega o dom da catequese histórica, como explicar ao outro que o penhasco surgiu naquele capítulo, como explicar ao outro que a montanha foi escalada inúmeras vezes somente naquele trecho, como explicar ao outro que sertões me ensinaram a ser forte, como explicar ao outro que os caetés e cariris marcham com seus maracás de forma perene.


Foi num bilhete sem data, invisível, que meu disco virtual começou a girar numa velocidade parecida com a dos dromedários, na areia quente, com um café coado para se acomodar e admirar o alpendre. Por entre os confetes de uma página e outra, ouvi um sussurro cifrado, pequenas vozes gregorianas. Por entre os ladrilhos de uma página e outra, os sermões me auxiliaram. Por entre os odores de uma página e outra, contei as moedas. As portas se abriram.      



  

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Exclamações e bolinhas ao vento






Um dos itens fundamentais para se dar bem numa redação de concurso é o cuidado com a pontuação. Isso nem é mais novidade. É apenas um lembrete. Não são poucos os textos em que me deparo com exclamações, uma chuva, uma ruma, um balaio. Se fosse somente o sinal conhecido, um traço na vertical com um ponto em cima da linha, até que eu conseguiria engolir. Mas, não. Há sinais inventados, aos montes.

É claro que a linguagem da internet é única, com regras próprias, que vão se modificando com intensa velocidade. Trata-se de uma área em plena ascensão, com estudos sérios e que não se deixam finalizar. Nesse poço de situações virtuais, a exclamação cresceu, migrou para um rumo exagerado. A utilidade do sinal, sabemos, serve para expressar um sentimento de espanto, alegria, surpresa, indignação. Podemos utilizar num aviso, num chamado, num pedido. Então, se estou alegre e quero demonstrar com uma ou tantas outras palavras, posso exclamar, sim. O sinal, somente um, revela o que quero no discurso. Pronto. Um. Basta um.

Vamos ao ambiente analógico. O autor do texto não se conforma, às vezes, e joga umas três exclamações. Outro tipo de autor, pode ser até o mesmo do primeiro exemplo, faz um desenho diferente: um triângulo isósceles com o vértice para baixo e uma bolinha em cima da linha do papel. Outro tipo de autor faz da trave um traçado sinuoso. Outro tipo de autor coloca um ponto ou uma bolinha abaixo da linha. Pois é. Na nossa língua, não me lembro desse sinal de pontuação no formato de uma bolinha, quase do tamanho de uma letra.

Quem já contou com redação por mim corrigida, percebeu meu olhar. Viu que não aliso. Circulo as exclamações desnecessárias ou repetidas. Preencho todas as bolinhas. Na cabeça de certo tipo de autor, bolinhas não são somente exclamáveis; também viajam nas letras i, jota e nos pontos finais, nas interrogações e nas reticências. O ponto-e-vírgula não escapa. Quando é aula em que se pode desenhar, aí vale qualquer forma geométrica e criativa possível. Tranquilo. Caso não esteja em foco essa ferramenta deliciosa da linguagem visual, vamos cumprir, portanto, o que manda o ritual do gênero pleiteado. Em se tratando de escrita para uma prova, teremos uma equipe treinada para apontar erros. A parte estética pesa para o candidato.

Certo dia, um texto enviado para vários blogs ou portais descrevia cenas exuberantes, personagens fortes. Não fosse pelo tanto de exclamação, eu teria me emocionado muito mais. Tudo bem, era uma crônica, algo mais descontraído. Mesmo assim, vi um milharal desidratado. Uma das cenas mais melancólicas. Acenei para comilanças que viriam a nascer, se o plantio estivesse saudável: pamonha, canjica, cuscuz, bolo, mingau. 

Numa das minhas primeiras aulas sobre dissertação, escrevo cinquenta dicas sobre o tema. Apenas palavras-chave. No decorrer de, pelo menos, três encontros, vou explicando: o que deve ser evitado; o que nem de longe deve ser elaborado; o que é importante fazer. Alguns falsos leitores ou preguiçosos de carteira reclamam na minha cara e consideram esse meu plano uma espécie de ensaio para o terrorismo. Respiro fundo, miro bem na pupila do sujeito e digo que são as regras e que eu não as inventei. E ainda falo assim: o bom aluno é aquele que copia o que o professor está falando, ou seja, escreve o que não necessariamente está escrito no quadro, no livro didático ou num arquivo compartilhado por e-mail.

Não sei se fui tão boa aluna assim, mas esse treinamento me aperfeiçoou na vida futura de repórter. Uma pena eu ter jogado no lixo tantos blocos e cadernetas; eles me diriam uma série de coisas, uma centena de cristinas.       








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quinta-feira, 2 de abril de 2020

Talvez os minutos surgissem


























Mesmo enfileirados, entendíamos o que se passava a trinta metros de distância. Entramos num meio de transporte. Não era ônibus, van, nave, nada que eu tivesse visto. Mas, de todos os meios, parecia um trem subterrâneo. Sentamos. Havia um ícone em cada poltrona, indicando nosso novo nome e nosso novo número. Nossas aparências mudavam gradativamente, a cada ponto de apoio. Embarcavam, nesses pontos, dezenas de outros seres, que já não eram mais pessoas, mas um misto de gente e luminosidade, bicho e centelha. Assim, de ponto em ponto, parecíamos nos confrontar com nosso mundo anterior. Paramos em pelo menos cem pontos. Não contei de verdade, pois adormeci. O sono era profundo e, ao mesmo tempo, real, pegajoso, intenso. Entramos noutro veículo, nos moldes parecidos com o trem de início. O mais recente, porém, trafegava de forma leve num terreno pantanoso. Por ali, víamos criaturas bem próximas do que nossa consciência avisava; em volta, todas caminhando naquele lodaçal característico, com aquelas plantas semiaquáticas, com aqueles anfíbios que se achavam os donos do pedaço. As criaturas pareciam satisfeitas. Apenas observávamos, em silêncio meditativo, pois éramos orientados a não sentir emoções perturbadoras da ordem. Um de nós, que havia entrado no ponto de apoio da planície, resolveu chorar. Foi, de maneira automática, eliminado. Desintegrou-se, em fiapos de luz. Continuamos firmes, sem dramas, sem perguntas, apenas observando cada trilha de acesso a um lugar ainda improvável. Num dos caminhos enlameados, paramos para obedecer a um sistema mínimo de trânsito. Por nós passou outro trem, multicor, barulhento. Era um barulho agradável, mas não posso classificar como música. Havia um ritmo, uma sequência lógica, uma harmonia que se guiava por alguns sinais do ambiente. Isso durou dois segundos. É o que eu imagino que seja, pois a noção de horas não existia ali. Um tempo indefinido. Algo a se pensar. Percebemos que existia uma fronteira a ser transposta. Alguns seres, que posavam como se fossem vigilantes, indicavam uma estrada de pedregulhos. Com esse comando, nosso trem saiu do pântano. Uma das criaturas, no entanto, resolveu seguir conosco. Aliás, resolveu cumprir uma determinação e grudar numa das portas. Não foi tão bizarro. Nossas mentes é que arquitetavam em progressão aritmética. Uma tela gigante apresentava nossos pensamentos, todos, de uma só ninhada. Trilhões de ideias, medos, estigmas, sombras e passaportes, vibrando num acorde desmedido, para que ninguém ousasse revelar o segredo. Um de nós tentou capturar outro pensamento. Foi enredado por uma névoa estranha, que imitava um fiscal de pátio. Nossa voz saía em canudos, por um cânion que aparecia a cada compartimento temporal. Talvez os minutos surgissem. Cada tubo ecoava noutro trem, que vinha tão lento, que adormecemos dentro do sonho. Tivemos certeza que era sonho e que não teríamos capacidade de sair dali sem que todos concordassem. Olhávamos uns para os outros de forma calorosa, animada, risonha. De forma esperançosa: recheada de chocolate. Não percebemos, porém, que todos estávamos noutro trem, mais festivo, mais convidativo. Pisamos no solo, velho conhecido. Éramos incapazes, por enquanto, de falar sobre o que sonhamos em conjunto. Mas sabíamos. No meio daquilo tudo, salvou-se um emaranhado de palavras e sentimentos. Saltitou. Brilhou. Bem na nossa frente, foi se erguendo. Tornou-se parte de tantos mundos. Combinou termos, sílabas, sons, apetrechos verbais. Combinou lembranças, personagens, sentidos. Nasceu o poema do dia. 




terça-feira, 17 de março de 2020

Tudo sobre o povo celta






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     Bom dia. Sabendo que meu público-leitor é sagaz, não preciso dizer que esse título é uma grande inverdade. Ainda estou analisando o vetor do problema, dentro do tema que trata sobre autores de livros com mania desse tudo. Tudo, tudo, tudo. Tudo sobre tal assunto. Tudo sobre tal pessoa. Tudo mesmo. Eles garantem e vendem, e muito.

     O que é, então, o tudo, pergunta o filósofo Parmênides a si mesmo, há mais de quinhentos anos antes de Cristo. Se Professor Raimundo estivesse diante de tal fato, perguntaria a Rolando Lero por que Parmênides se dedicou a discutir o abstrato. Rolando, com seu semblante risível de aluno preguiçoso e fraudulento, diria que o grego bebeu algumas doses a mais, durante uma festa com Zenão, numa taberna bastante disputada pela nata intelectual.  

    O abstrato é uma linguagem corriqueira, mas ainda acessível para poucos. Podemos considerar que sofre preconceito, por suas características não tão evidentes. Nossa mente muitas vezes processa o que está exposto com mais clareza, o que está mais burocraticamente revelado. O nosso cotidiano é o responsável por isso: a roda-viva nos instiga a querer o óbvio, a não enfrentar o que não está, de certa forma, perceptível. É assim que os títulos dos livros que citei como exemplo conquistam os que querem as respostas sem esforço, dispostas numa bandeja de prata. Se possível, em ordem alfabética.

   A linguagem abstrata nos oferece amplas possibilidades de análise. Quando produzo minhas colagens, gosto de pedir a alguém para avaliar, à primeira vista, o quadro. Depois, peço a mais alguém e mais alguéns. Não importa se fulano acerta ou cicrano erra ou beltrano se aproxima. Importa que cada um, com seu maquinário cognitivo, proporciona uma chance a si mesmo para entrar, com maestria, no túnel de significados. A leitura de uma obra de arte auxilia a descortinar nosso próprio olhar. É um exercício gostoso. Um treinamento diário.

    Então, diante disso tudo, fico imaginando o que dizer ao meu amigo Parmênides. Nas livrarias, físicas ou virtuais, estão lá os livros que dizem que falam tudo sobre determinado assunto. Não confundir, por favor, o que o cineasta Pedro Almodóvar fez em Tudo sobre minha mãe. Pedro não é bobo e fez o título de forma provocativa, forma que, aliás, paira sobre toda a sua produção.

    E esse tudo dos livros não está sozinho na fila do pão. Com ele, os que acham que contam a verdadeira história. A verdadeira história dos vikings, a verdadeira história de Cinderela, a verdadeira história de Dom Pedro II, a verdadeira história da Amazônia. Paremos um pouco para estudar, primeiro, a verdade. Sem dúvida, uma constelação se abre num céu de argumentos e certezas, conceitos e mistérios, fórmulas e tabelas.

    Procuro as estrelas. Enquanto isso, pego meu telescópio construído de açúcar e mergulho nas perguntas. No fundo do mar das inquietações, uma concha pede para ser aberta. A pérola está lá: um belíssimo ruído que invadiu um corpo estranho. Sua apresentação é mais do que concreta, mas o abstrato a tonifica, desde sempre. E ainda achamos tempo para dizer que o nada não existe.






Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...