segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
domingo, 2 de fevereiro de 2020
Zap Zap 1990
Por obra
divina, pequenos seres acharam de se reencontrar durante intensivos quatro ou
nove, até dez anos. Mesma escola, cidades diferentes, realidades diversas, mas
a mesma intenção de retribuir tantos momentos bons. Momentos outros que não
foram tão agradáveis, a princípio, mas que nos trouxeram grandes lições para a
eternidade. Atualmente, nós nos encontramos no Zap Zap: Carmelita 1990. Emoções todos os dias.
O dia em que
Dona Maria Caiçara foi me abordar na entrada da escola ficou marcado. Aprendi
mais ainda a respeitar o outro, as diferenças, os limites do ser humano.
Aprendi a lidar com o medo. Aprendi a pedir perdão. Aprendi que devemos sempre
estudar a História. Mas, calma. Era a vida no ensino fundamental apenas
começando.
Quando Dona
Fátima Lucena, de forma silenciosa, apreendeu meu questionário e o entregou à
coordenação da escola, meu coração palpitou. Que decepção para a grande tia e
proprietária da instituição. Chorei o resto do dia. Mãinha já sabia de tudo
quando cheguei em casa, mostrando que estamos falando de Escola Nossa Senhora
do Carmo. Lugar de aprumar o espinhaço moral dos alunos. O meu estava no lixo. Levei
tempo para me refazer diante de mim. Gente precoce merecia castigo.
Foi aí que a
arte tomou conta dos meus princípios e comecei a escrever. À tarde, a escola
parecia um centro cultural. Era um ritmo bem puxado, mas consegui fazer as
atividades do matutino e conciliar com as aulas práticas de tapeçaria. Meu
álbum está intacto. Não vendo, não troco nem dou. Sim. Igual àquela égua de
Luiz Gonzaga. Dona Marlônia Abreu Pessoa, a quem chamávamos, com carinho, de
Tia Marlônia, foi a nossa professora dos bordados. Eu e Melquisedeque, o filho
dela, estudávamos na mesma sala. Melque, o codinome.
Nessa
disciplina em forma de oficina, fui começando a compreender que eu me via
diante de novas possibilidades da narrativa. As minitelas são narrativas. São
imagens se abrindo ao leitor, com seus traçados, envolvidos em tramas de linhas
e cores. Cores. Eis aqui um item indispensável para a minha criação. Ora, se a
própria criação da Natureza nos faz enxergar novas resoluções da luz, temos um
prato bem apimentado para outras crônicas. O problema é que, no momento atual,
a pimenta está na minha LAP – Lista de Alimentos Proibidos. Para não dizer que
não, ontem, no almoço, fiz essa homenagem simbólica e silenciosa ao meu velho
Painho. Três gotas de um molho malagueta. Ele gostava de uma pimentinha lascada
e, ele mesmo, de produzir o molho, como um gurmê masterchefe. Eita. Saudade.
Entonces, se a
pimenta está no meu LAP, Painho não vai se zangar se eu der um tempo dela, para
viver melhor nesse plano terrestre. O restaurante onde almocei, ontem, estava
tocando samba. Muito alto, às vezes, mas deu para apreciar o genuíno samba dos
povos dos morros da Grande Vitória. Um luxo. Um dos sambas inesquecíveis para
mim, sempre, é entoado por Beth Carvalho, Coração Feliz: uma excelente
oportunidade para dizer que sou de paz. A escola ensinou isso bem direitinho e
ai de quem ousasse guerrear.
Aquela escola
não seria a mesma sem as mãos majestosas de Dona Margarida, Margô. Que delícia
aquele chazinho de qualquer coisa que curasse nossa eventual dor de barriga.
Morava perto da sede da Orquestra Santa Cecília. Servia água na hora do recreio:
as canequinhas eram de plástico azul. Cuidava da alimentação da amiga Carmé,
quando esta ficava horas na escola, ou seja, relativamente longe do aconchego
do lar. E Margô sempre com um sorriso aberto, sincero, vibrando com nossas
conquistas.
Na ENSC,
aprendi a dar mais valor ao estudo. Aprendi a dar mais valor ao sonho. Pois é
claro que aquelas monumentais paredes erguidas sobre um alicerce de boas pedras
nunca teriam existido se não fosse o sonho. Se não fosse o sonho terno de uma
jovem moça religiosa, que queria construir uma escola de qualidade e fincada no
caminho de Nossa Senhora, Maria, a mãe de Jesus. Caminho de servir ao próximo. Mais
saber para o sertão.
Há detalhes
naquele lugar, nos dez anos que por lá fiquei, que jamais seriam pagos com uma
simples mensalidade. São elementos eternizados. São elementos que me sacodem para
a vida. São elementos que estão em outra LAP – Lista das Atitudes Proibidas.
Uma delas é: não desvalorize seu sonho. Isso eu estou dizendo para mim, mas
pode servir pra algum leitor aí, que acha que tudo acabou.
Olha, Taiguara
se foi, mas a música eterna dele está aqui, quentinha no meu ouvido. Portanto,
amigo e amiga, a arte aproxima o que a gente menos imagina. Touchê. Saudação de
fechamento em homenagem a um leitor eremita e secreto. Beijos da coleguinha.
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Conexão com o limbo
E para quem acha que poesia não existe, não posso fazer nada. Posso respirar bem fundo e encontrar no próprio ar um poema flutuante. Posso encontrar no silêncio uma passarela de encantos, sentir a divinização das palavras. Posso, em cada pedaço de linha, costurar novas ideias, mesmo sabendo que não encontrarei onde estirar o tapete.
E para quem acha que natureza não é poesia, não posso fazer nada. Posso torcer para que cada gota de chuva molhe uma semente; a minha torcida será um mantra de versos que se conectam com o limbo. Posso parar de achar qualquer coisa e apenas compreender os meus cinco sentidos; agradecendo por eles existirem, corpo e mente misturados.
E para quem acha que poesia é razão, não posso fazer nada. Posso estudar um
tratado sobre o tema e, ao mesmo tempo, poetizar sobre o autor, sobre os
parágrafos, sobre os tópicos metodológicos. Posso desfiar o enredo com o Rio
São Francisco, com o almoço de amanhã, com o verão. Posso fazer tudo isso e
rasgar cada letra ou amontoar sonhos que, de leve, entram para outra esfera do
conhecimento.
E para quem acha que sonho não é poesia, não posso fazer nada. Sinto muito. Não
posso fazer nada agora. Pois é. Porque é assunto temperado para outra crônica.
Posso adicionar cebola, alho, pimenta, sal e segredos da vizinhança. Posso
regar com azeite ou apenas esperar a manhã aparecer. Posso apenas esperar.
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Calçadas (Papel sobre papel. 20 x 17 cm. Vitória, 2018.) |
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
Quinquilharias
Dentro das gavetas do pensamento
há aquela poeirinha esquisita de mágoa, que vai se amontoando com outras
poeirinhas que entraram com o vento. Sim, entraram. Entraram com o vento,
depois de abertas naquele dia propício a pequenos ranços enlatados em
suposições. Cada suposição mergulhou numa reclamação enrabichada em outros
pensamentos, de outras gavetas de ideias. Cada ideia conteve, em sua essência,
um fragmento de quase certeza, aspecto duvidoso de coisa pensada e polida com
garatujas de frases feitas. Chamemos os bombeiros.
O armário de sentimentos é
poluído, pouco a pouco, sem que a pessoa perceba que cada papel foi sucumbido à
colônia de traças enganosas, as mesmas que contaminaram os grandes planos que
ainda se construíam. Para articular o cemitério de bugigangas, o pensamento, se
não vigiado, vai se aglomerando num canto de parede, cujas aranhas em teias
recém-descobertas serão as próximas a confabular segredos. Se não vigiada, cada
cera de pensamento vai, de forma amalgamada com outras ceras, assando um bolo
de machucados, com feridas semiabertas, prontas para a apreciação dos
mosquitos.
Muitas vezes, se não vigiado, o
pensamento vem com os próprios mosquitos, estes com capacetes superpotentes,
capas heroificadas, e prontos para o ataque. Vêm, ainda, na mesma comitiva,
tabletes de ilusões. Caso não tenhamos o mínimo de cuidado, cada ferpa vai se
coisificando nas cortinas da memória e formando um alambrado de recordações que
nem deveriam ter sido erguidas.
Outros insetos são ativados,
aqueles microscópicos, e as quinquilharias ganham voz. Quando pensamos que não,
já falamos. Pois é. Desse jeito é o universo dos pensamentos, os primeiros a
largar na corrida, querendo chegar a um pódio qualquer, a depender da direção
da nossa carreta. A cada vontade surrupiada pela mudança de tempo, o pensar
começa a ser governado por um besouro, daquele mesmo modelo que circula a
lâmpada. Voltas e voltas. Voltas e voltas.
Cada raspa de grude no coração é
um zíper se abrindo, lentamente. Abre em tom de suspense, para que bactérias do
além, montadas em dromedários do passado, possam operar num violento murmúrio. Esse
tipo de passado, que não volta ou auxilia, é feito datas mumificadas, que provocam
uma caravana de restos de sujeira, aqueles lixos que dependem de uma boa
vassourada com pinho e eucalipto. Cloro também, para inteirar o pacote de
lembranças. Quem estaria livre desses guardados. Quem estaria totalmente em dia
com as sensações. Quem. Pergunto.
Cada tablete de pensamento, em
camadas e camadas de desejos, flutua num silencioso cofre de sonhos. Sonhos que
podem até ser realizados. Sonhos que podem até favorecer um mundo mais
tranquilo. Sonhos que podem até ser compartilhados. Sonhos que podem até ser
trilhados num caminho mais pueril. Sim. Ao som de doces melodias, ao som de
sabiás, ao som de corais natalinos, ao som de crianças brincando na hora do
recreio. Sim. Pensamento é arte.
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quarta-feira, 27 de novembro de 2019
A turma do papel
Há
informações que só combinam mesmo ao vivo, cara a cara, olho no olho. Combinam
com aquela expressão francesa téte-a-téte ou tête-a-tête. É um tipo de conversa
que tem que ser conversa, da boa. E de dois: diálogo. E-mail não resolve. Um
tem que sentir o olhar do outro. Se possível, o cheiro. O corpo do outro
falando também. Muitos são os sinais nesse tipo de comunicação. Até mesmo os
porquês não intencionais podem surgir. O que a pessoa não quis dizer, acabou
dizendo. Pois é. Algum interlocutor é capaz de desvendar pela própria intuição
ou por treinamento mesmo, como profissional.
Há
informações escritas que são mais gélidas, mas essenciais para a burocracia
diária: ofícios, cheques, notas fiscais. Mesmo assim, tudo consegue ser
digitalizado. O jornal impresso está desaparecendo em alguns lugares, cedendo
aos impulsos da pós-modernidade. Mas os que continuam, de algum modo, sobrevivem
e se inscrevem na sociedade com um modelo, um verbo, uma rotina, um conjunto de
decisões.
Algumas
informações não conseguem ser resumidas em pequenos desenhos ou ícones. Apenas
sugerem um tipo de emoção ou objeto. Falo dos pictogramas, os desenhos
eletrônicos minimizados. No Japão, onde foram criados, recebem o nome de
emojis. A palavra é a junção de dois termos: e, que significa imagem, mais
moji, que significa letra. No final dos anos de 1990, o engenheiro
Shigetaka Kurita foi o responsável por criar esses tipos, para facilitar a
comunicação eletrônica, que depois foi aperfeiçoada por outros gênios da
lâmpada. O norte-americano Nicolas Loufrani foi um deles, criador dos emoticons,
combinando sinais do teclado para gerar outros ícones nas plataformas digitais.
Por mais
que existam ferramentas dessas e por mais que eu as utilize, nada vai
substituir uma frase. É claro que uso, aplico, gosto, até me empolgo e acho
tudo muito engraçadinho. Mas sou da turma do papel. Estudo História porque
gosto do movimento que não aparece de graça. Gosto do arquivo, do colecionismo,
do documento cheirando a mofo, do testemunho insubstituível. Daquele ritual
específico naquela comunidade, naquela data. Daquele filme que, mesmo em
versões posteriores e elaboradas com todos os efeitos possíveis, continua
fazendo efeito. Daquela rua que, mesmo com o asfalto em suas costas, carrega o
manto do barro e dos pedregulhos, e o suor dos seus primeiros moradores.
Quero um
dia, assinar e-books, claro. Não tenho animosidade com eles. Mas me sentirei
escritora mesmo quando vir meus filhotes em forma de brochura. Comprados,
emprestados, vendidos, reeditados, autografados, presenteados. Esses dias vêm
chegar. Sinto. Sinto que o vento está soprando. Para você, querido leitor,
deixo um sorriso. Deixo dois pontos e um sinal de parênteses com a abertura
para a esquerda. Sim. Um emoji.
domingo, 17 de novembro de 2019
Bate meu coração
No início da minha adolescência,
eu entendia como coletivo um ônibus que transportava pessoas de diversas
características. Tais características são inúmeras, mas a partir da perspectiva
de que o sujeito não optou ou não conseguiu ir com veículo próprio, carona ou
táxi. Num coletivo desse tipo cabem todos. Todos, mesmo. O povo vai entrando,
entrando, entrando e se apertando, até que o motorista, com a colaboração do
trocador, tenha a noção do limite.
Então, vamos. Vamos a alguns
antônimos. Pode passar pela borboleta ou catraca. Pular, não vale. Pode
cumprimentar as pessoas. Pode. Um sorriso vale. Simples. Vamos: gordos ou
magros, feios ou bonitos, carecas ou cabeludos, simpáticos ou carrancudos,
atléticos ou desengonçados. Também embarcam as particularidades do lado
psicológico, que está embutido: honestos ou desonestos, pacíficos ou brigões,
amuados ou amostrados, gastadores ou muquiranas, contidos ou exacerbados. Tem
de tudo.
Bem antes, na minha infância,
coletivo era lembrado por mim como um tipo de substantivo. Até hoje, é um dos
meus temas preferidos para trabalhar em sala de aula, quando estamos na área da
gramática. Nossa língua é o poço dos desejos. Jogo uma moedinha com a palavra
cáfila e saem os camelos. Jogo outra moedinha com a palavra enxame e vêm as
abelhas em movimento. Jogo outra moedinha com a palavra colmeia e aparecem as
abelhas operárias trabalhando, num lugar específico, sob o olhar fuzilante da
rainha. Jogo outra e outra e outra.
De uns temos para cá, posso
arriscar uns quinze anos, ouvimos a palavra coletivo ser destacada como a junção
de pessoas relacionadas a uma causa cultural. Um exercício intensivo e
benéfico. Não é exatamente uma turma, um grupo. Trata-se de uma reunião de
cabeças em prol de um produto que gere cultura. Trata-se de um empreendimento
muitas vezes invisível. Mas é uma empresa que promove um enorme capital
simbólico, em se tratando de sociedade.
Quando surge um coletivo desse
tipo, que enreda sonhos, que tece projetos transformados em fóruns, encontros,
palestras, exposições ou apresentações, meu coração palpita de felicidade.
Palpita porque ainda tem esperança. Palpita porque ainda tem gente que sabe que
pode utilizar seu potencial herdado de tantas gerações, para fazer o bem e
construir um mundo mais digno. Palpita porque sabe que somos inteligentes e
vamos continuar aprendendo, mesmo com os tropicões nas pedras do calçamento ou
das colinas. Palpita porque sabe que a educação salva muitas vidas.
Bate, bate meu coração, como
nosso amigo compositor registrou. Disse e ainda diz, por isso também dizemos,
que é raiz poderosa, aguada em verso e prosa. É isso. É isso e mais isso. Meu
coração palpita porque pede para que cada coletivo se coloque como força plena
de ação, como pulso firme e criativo, como aglutinador de presenças marcantes.
Palpita porque se lembra que cada representante tem seu dever de se inserir na
História. Palpita porque torce para que cada coletivo mostre sua raça, sua
tinta, seu novelo, seu barro, sua coreografia, seu atabaque, sua viola, seu
tempero. Que faça parte, sem medo, sem rancor. Um, dois, três: valendo.
Imagem: Freepik
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