terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Calçadas 2











Calçadas 2 
Papel reciclado sobre papel couché
Colagem: cola branca acrílica
20 x 20 cm
Verão - 2017




domingo, 2 de fevereiro de 2020

Zap Zap 1990








Por obra divina, pequenos seres acharam de se reencontrar durante intensivos quatro ou nove, até dez anos. Mesma escola, cidades diferentes, realidades diversas, mas a mesma intenção de retribuir tantos momentos bons. Momentos outros que não foram tão agradáveis, a princípio, mas que nos trouxeram grandes lições para a eternidade. Atualmente, nós nos encontramos no Zap Zap: Carmelita 1990.  Emoções todos os dias.

O dia em que Dona Maria Caiçara foi me abordar na entrada da escola ficou marcado. Aprendi mais ainda a respeitar o outro, as diferenças, os limites do ser humano. Aprendi a lidar com o medo. Aprendi a pedir perdão. Aprendi que devemos sempre estudar a História. Mas, calma. Era a vida no ensino fundamental apenas começando.

Quando Dona Fátima Lucena, de forma silenciosa, apreendeu meu questionário e o entregou à coordenação da escola, meu coração palpitou. Que decepção para a grande tia e proprietária da instituição. Chorei o resto do dia. Mãinha já sabia de tudo quando cheguei em casa, mostrando que estamos falando de Escola Nossa Senhora do Carmo. Lugar de aprumar o espinhaço moral dos alunos. O meu estava no lixo. Levei tempo para me refazer diante de mim. Gente precoce merecia castigo.

Foi aí que a arte tomou conta dos meus princípios e comecei a escrever. À tarde, a escola parecia um centro cultural. Era um ritmo bem puxado, mas consegui fazer as atividades do matutino e conciliar com as aulas práticas de tapeçaria. Meu álbum está intacto. Não vendo, não troco nem dou. Sim. Igual àquela égua de Luiz Gonzaga. Dona Marlônia Abreu Pessoa, a quem chamávamos, com carinho, de Tia Marlônia, foi a nossa professora dos bordados. Eu e Melquisedeque, o filho dela, estudávamos na mesma sala. Melque, o codinome.

Nessa disciplina em forma de oficina, fui começando a compreender que eu me via diante de novas possibilidades da narrativa. As minitelas são narrativas. São imagens se abrindo ao leitor, com seus traçados, envolvidos em tramas de linhas e cores. Cores. Eis aqui um item indispensável para a minha criação. Ora, se a própria criação da Natureza nos faz enxergar novas resoluções da luz, temos um prato bem apimentado para outras crônicas. O problema é que, no momento atual, a pimenta está na minha LAP – Lista de Alimentos Proibidos. Para não dizer que não, ontem, no almoço, fiz essa homenagem simbólica e silenciosa ao meu velho Painho. Três gotas de um molho malagueta. Ele gostava de uma pimentinha lascada e, ele mesmo, de produzir o molho, como um gurmê masterchefe. Eita. Saudade.

Entonces, se a pimenta está no meu LAP, Painho não vai se zangar se eu der um tempo dela, para viver melhor nesse plano terrestre. O restaurante onde almocei, ontem, estava tocando samba. Muito alto, às vezes, mas deu para apreciar o genuíno samba dos povos dos morros da Grande Vitória. Um luxo. Um dos sambas inesquecíveis para mim, sempre, é entoado por Beth Carvalho, Coração Feliz: uma excelente oportunidade para dizer que sou de paz. A escola ensinou isso bem direitinho e ai de quem ousasse guerrear.   

Aquela escola não seria a mesma sem as mãos majestosas de Dona Margarida, Margô. Que delícia aquele chazinho de qualquer coisa que curasse nossa eventual dor de barriga. Morava perto da sede da Orquestra Santa Cecília. Servia água na hora do recreio: as canequinhas eram de plástico azul. Cuidava da alimentação da amiga Carmé, quando esta ficava horas na escola, ou seja, relativamente longe do aconchego do lar. E Margô sempre com um sorriso aberto, sincero, vibrando com nossas conquistas.

Na ENSC, aprendi a dar mais valor ao estudo. Aprendi a dar mais valor ao sonho. Pois é claro que aquelas monumentais paredes erguidas sobre um alicerce de boas pedras nunca teriam existido se não fosse o sonho. Se não fosse o sonho terno de uma jovem moça religiosa, que queria construir uma escola de qualidade e fincada no caminho de Nossa Senhora, Maria, a mãe de Jesus. Caminho de servir ao próximo. Mais saber para o sertão.

Há detalhes naquele lugar, nos dez anos que por lá fiquei, que jamais seriam pagos com uma simples mensalidade. São elementos eternizados. São elementos que me sacodem para a vida. São elementos que estão em outra LAP – Lista das Atitudes Proibidas. Uma delas é: não desvalorize seu sonho. Isso eu estou dizendo para mim, mas pode servir pra algum leitor aí, que acha que tudo acabou.

Olha, Taiguara se foi, mas a música eterna dele está aqui, quentinha no meu ouvido. Portanto, amigo e amiga, a arte aproxima o que a gente menos imagina. Touchê. Saudação de fechamento em homenagem a um leitor eremita e secreto. Beijos da coleguinha.        










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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Conexão com o limbo







E para quem acha que poesia não existe, não posso fazer nada. Posso respirar bem fundo e encontrar no próprio ar um poema flutuante. Posso encontrar no silêncio uma passarela de encantos, sentir a divinização das palavras. Posso, em cada pedaço de linha, costurar novas ideias, mesmo sabendo que não encontrarei onde estirar o tapete.

E para quem acha que natureza não é poesia, não posso fazer nada. Posso torcer para que cada gota de chuva molhe uma semente; a minha torcida será um mantra de versos que se conectam com o limbo. Posso parar de achar qualquer coisa e apenas compreender os meus cinco sentidos; agradecendo por eles existirem, corpo e mente misturados.

E para quem acha que poesia é razão, não posso fazer nada. Posso estudar um tratado sobre o tema e, ao mesmo tempo, poetizar sobre o autor, sobre os parágrafos, sobre os tópicos metodológicos. Posso desfiar o enredo com o Rio São Francisco, com o almoço de amanhã, com o verão. Posso fazer tudo isso e rasgar cada letra ou amontoar sonhos que, de leve, entram para outra esfera do conhecimento.

E para quem acha que sonho não é poesia, não posso fazer nada. Sinto muito. Não posso fazer nada agora. Pois é. Porque é assunto temperado para outra crônica. Posso adicionar cebola, alho, pimenta, sal e segredos da vizinhança. Posso regar com azeite ou apenas esperar a manhã aparecer. Posso apenas esperar.










Calçadas (Papel sobre papel. 20 x 17 cm. Vitória, 2018.) 




segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Quinquilharias








Dentro das gavetas do pensamento há aquela poeirinha esquisita de mágoa, que vai se amontoando com outras poeirinhas que entraram com o vento. Sim, entraram. Entraram com o vento, depois de abertas naquele dia propício a pequenos ranços enlatados em suposições. Cada suposição mergulhou numa reclamação enrabichada em outros pensamentos, de outras gavetas de ideias. Cada ideia conteve, em sua essência, um fragmento de quase certeza, aspecto duvidoso de coisa pensada e polida com garatujas de frases feitas. Chamemos os bombeiros.

O armário de sentimentos é poluído, pouco a pouco, sem que a pessoa perceba que cada papel foi sucumbido à colônia de traças enganosas, as mesmas que contaminaram os grandes planos que ainda se construíam. Para articular o cemitério de bugigangas, o pensamento, se não vigiado, vai se aglomerando num canto de parede, cujas aranhas em teias recém-descobertas serão as próximas a confabular segredos. Se não vigiada, cada cera de pensamento vai, de forma amalgamada com outras ceras, assando um bolo de machucados, com feridas semiabertas, prontas para a apreciação dos mosquitos.

Muitas vezes, se não vigiado, o pensamento vem com os próprios mosquitos, estes com capacetes superpotentes, capas heroificadas, e prontos para o ataque. Vêm, ainda, na mesma comitiva, tabletes de ilusões. Caso não tenhamos o mínimo de cuidado, cada ferpa vai se coisificando nas cortinas da memória e formando um alambrado de recordações que nem deveriam ter sido erguidas.

Outros insetos são ativados, aqueles microscópicos, e as quinquilharias ganham voz. Quando pensamos que não, já falamos. Pois é. Desse jeito é o universo dos pensamentos, os primeiros a largar na corrida, querendo chegar a um pódio qualquer, a depender da direção da nossa carreta. A cada vontade surrupiada pela mudança de tempo, o pensar começa a ser governado por um besouro, daquele mesmo modelo que circula a lâmpada. Voltas e voltas. Voltas e voltas.

Cada raspa de grude no coração é um zíper se abrindo, lentamente. Abre em tom de suspense, para que bactérias do além, montadas em dromedários do passado, possam operar num violento murmúrio. Esse tipo de passado, que não volta ou auxilia, é feito datas mumificadas, que provocam uma caravana de restos de sujeira, aqueles lixos que dependem de uma boa vassourada com pinho e eucalipto. Cloro também, para inteirar o pacote de lembranças. Quem estaria livre desses guardados. Quem estaria totalmente em dia com as sensações. Quem. Pergunto.   

Cada tablete de pensamento, em camadas e camadas de desejos, flutua num silencioso cofre de sonhos. Sonhos que podem até ser realizados. Sonhos que podem até favorecer um mundo mais tranquilo. Sonhos que podem até ser compartilhados. Sonhos que podem até ser trilhados num caminho mais pueril. Sim. Ao som de doces melodias, ao som de sabiás, ao som de corais natalinos, ao som de crianças brincando na hora do recreio. Sim. Pensamento é arte.









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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A turma do papel







Há informações que só combinam mesmo ao vivo, cara a cara, olho no olho. Combinam com aquela expressão francesa téte-a-téte ou tête-a-tête. É um tipo de conversa que tem que ser conversa, da boa. E de dois: diálogo. E-mail não resolve. Um tem que sentir o olhar do outro. Se possível, o cheiro. O corpo do outro falando também. Muitos são os sinais nesse tipo de comunicação. Até mesmo os porquês não intencionais podem surgir. O que a pessoa não quis dizer, acabou dizendo. Pois é. Algum interlocutor é capaz de desvendar pela própria intuição ou por treinamento mesmo, como profissional.

Há informações escritas que são mais gélidas, mas essenciais para a burocracia diária: ofícios, cheques, notas fiscais. Mesmo assim, tudo consegue ser digitalizado. O jornal impresso está desaparecendo em alguns lugares, cedendo aos impulsos da pós-modernidade. Mas os que continuam, de algum modo, sobrevivem e se inscrevem na sociedade com um modelo, um verbo, uma rotina, um conjunto de decisões.

Algumas informações não conseguem ser resumidas em pequenos desenhos ou ícones. Apenas sugerem um tipo de emoção ou objeto. Falo dos pictogramas, os desenhos eletrônicos minimizados. No Japão, onde foram criados, recebem o nome de emojis. A palavra é a junção de dois termos: e, que significa imagem, mais moji, que significa letra. No final dos anos de 1990, o engenheiro Shigetaka Kurita foi o responsável por criar esses tipos, para facilitar a comunicação eletrônica, que depois foi aperfeiçoada por outros gênios da lâmpada. O norte-americano Nicolas Loufrani foi um deles, criador dos emoticons, combinando sinais do teclado para gerar outros ícones nas plataformas digitais.

Por mais que existam ferramentas dessas e por mais que eu as utilize, nada vai substituir uma frase. É claro que uso, aplico, gosto, até me empolgo e acho tudo muito engraçadinho. Mas sou da turma do papel. Estudo História porque gosto do movimento que não aparece de graça. Gosto do arquivo, do colecionismo, do documento cheirando a mofo, do testemunho insubstituível. Daquele ritual específico naquela comunidade, naquela data. Daquele filme que, mesmo em versões posteriores e elaboradas com todos os efeitos possíveis, continua fazendo efeito. Daquela rua que, mesmo com o asfalto em suas costas, carrega o manto do barro e dos pedregulhos, e o suor dos seus primeiros moradores.

Quero um dia, assinar e-books, claro. Não tenho animosidade com eles. Mas me sentirei escritora mesmo quando vir meus filhotes em forma de brochura. Comprados, emprestados, vendidos, reeditados, autografados, presenteados. Esses dias vêm chegar. Sinto. Sinto que o vento está soprando. Para você, querido leitor, deixo um sorriso. Deixo dois pontos e um sinal de parênteses com a abertura para a esquerda. Sim. Um emoji.  















domingo, 17 de novembro de 2019

Bate meu coração












No início da minha adolescência, eu entendia como coletivo um ônibus que transportava pessoas de diversas características. Tais características são inúmeras, mas a partir da perspectiva de que o sujeito não optou ou não conseguiu ir com veículo próprio, carona ou táxi. Num coletivo desse tipo cabem todos. Todos, mesmo. O povo vai entrando, entrando, entrando e se apertando, até que o motorista, com a colaboração do trocador, tenha a noção do limite.

Então, vamos. Vamos a alguns antônimos. Pode passar pela borboleta ou catraca. Pular, não vale. Pode cumprimentar as pessoas. Pode. Um sorriso vale. Simples. Vamos: gordos ou magros, feios ou bonitos, carecas ou cabeludos, simpáticos ou carrancudos, atléticos ou desengonçados. Também embarcam as particularidades do lado psicológico, que está embutido: honestos ou desonestos, pacíficos ou brigões, amuados ou amostrados, gastadores ou muquiranas, contidos ou exacerbados. Tem de tudo.

Bem antes, na minha infância, coletivo era lembrado por mim como um tipo de substantivo. Até hoje, é um dos meus temas preferidos para trabalhar em sala de aula, quando estamos na área da gramática. Nossa língua é o poço dos desejos. Jogo uma moedinha com a palavra cáfila e saem os camelos. Jogo outra moedinha com a palavra enxame e vêm as abelhas em movimento. Jogo outra moedinha com a palavra colmeia e aparecem as abelhas operárias trabalhando, num lugar específico, sob o olhar fuzilante da rainha. Jogo outra e outra e outra. 

De uns temos para cá, posso arriscar uns quinze anos, ouvimos a palavra coletivo ser destacada como a junção de pessoas relacionadas a uma causa cultural. Um exercício intensivo e benéfico. Não é exatamente uma turma, um grupo. Trata-se de uma reunião de cabeças em prol de um produto que gere cultura. Trata-se de um empreendimento muitas vezes invisível. Mas é uma empresa que promove um enorme capital simbólico, em se tratando de sociedade.

Quando surge um coletivo desse tipo, que enreda sonhos, que tece projetos transformados em fóruns, encontros, palestras, exposições ou apresentações, meu coração palpita de felicidade. Palpita porque ainda tem esperança. Palpita porque ainda tem gente que sabe que pode utilizar seu potencial herdado de tantas gerações, para fazer o bem e construir um mundo mais digno. Palpita porque sabe que somos inteligentes e vamos continuar aprendendo, mesmo com os tropicões nas pedras do calçamento ou das colinas. Palpita porque sabe que a educação salva muitas vidas.

Bate, bate meu coração, como nosso amigo compositor registrou. Disse e ainda diz, por isso também dizemos, que é raiz poderosa, aguada em verso e prosa. É isso. É isso e mais isso. Meu coração palpita porque pede para que cada coletivo se coloque como força plena de ação, como pulso firme e criativo, como aglutinador de presenças marcantes. Palpita porque se lembra que cada representante tem seu dever de se inserir na História. Palpita porque torce para que cada coletivo mostre sua raça, sua tinta, seu novelo, seu barro, sua coreografia, seu atabaque, sua viola, seu tempero. Que faça parte, sem medo, sem rancor. Um, dois, três: valendo.   







Imagem: Freepik

Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...