Praia do Forte (Salvador-BA), janeiro/2015 |
terça-feira, 17 de março de 2015
quinta-feira, 12 de março de 2015
domingo, 8 de março de 2015
A sensacional giganteza
Um dia na Bica, dois cágados livres. A
velocidade deles, somente deles, naquele domingo com menos crianças do que o
previsível, debaixo de um céu nublado. Corremos todos, mas éramos poucos, para
ver outros dois cágados. Como se desvendassem alguma coisa, na terra, perto da
castanheira. Assustaram-se. Com o quê? Assustaram-se. Comunicaram-se por
olhares, um tônico, outro tácito. Na frente, um soluçando. O outro? Espirrando,
cremos.
Não sei se vou contar sobre o som daquele dia, na Bica, nublado,
cágados livres e assustados. Um enfezado, outro sonso. Um rabugento, outro
treteiro. De longe, um parecia pedra. Outro, besouro. De perto, um parecia
toca. Outro, folhagem. Assustaram-se. Ficamos todos assustados, éramos poucos,
tão assustados com o desenrolar daquela observação. Uma lagarta, logo ali,
alguém disse. Foi o suficiente.
Os cágados assustados, muito mais assustados,
não decidiam. Um agressivo, outro meticuloso. Um logo ali, espiando. Fingimos
não acreditar que passamos quase duas horas em conferência sobre o
comportamento dos quatro, um aparentemente robusto, outro aparentemente
franzino. Outro até simpático. Outro até nem tão hipocondríaco. Saber o que se
passa por entre a casca e o corpo? Um talvez incisivo, outro talvez paciente.
Sim, pois é, um biônico, a ponto de se heroificar. Outro, mais perto, ainda
mais rápido, tão rápido e chegando a um quase apelo. Estou falando de olhares.
Esqueçamos, por enquanto, os caminhares. Ali, vários temas para a nossa
conferência dominical, algo similar ao não ter realmente o que fazer de mais
estressante ou mais sério. Não é de fogo a lagarta, alguém gritou. Cada um que
queria ser mais biólogo do que outro. E sempre algum arriscava de conhecer o
ecossistema tal e plum. E sempre outro dizia que leu numa revista especializada
em xis e tchum. Ou viu em algum canal de TV, algo assim e coisa e rapadura com
côco. Ou alguém tinha visto algo inédito, surpreendente, magnífico ou
apocalipticamente supra e total da sensacional giganteza da informação, para
falar no mundo maravilhoso do bicho zê ou quê num cativeiro de não sei de quem.
Após tantas atrocidades com a nossa própria capacidade de pensar, um dos
cágados se escondeu. Não saía mais, para nada. Na própria casca, planejava. Não
esperamos para entender se o plano deu certo.
João Pessoa-PB, 2002
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Hera
Era a hera
o segredo
era ela
o novelo.
Era o silêncio
o cochicho
o bodejo.
Em plena hera
tudo existia.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Os mesmos papéis de carta
Ouvi dizer em algum lugar que não devemos esperar demais
dos outros. Por não seguir à risca esse argumento, eu acabo, às vezes, sofrendo
com reações de algumas pessoas ou me surpreendendo com lugares.
Certa vez, encontrei uma colega de infância numa agência
bancária. Estudamos pelo menos durante oito anos na mesma escola, na mesma sala.
Curtíamos as mesmas músicas, os mesmos livros, os mesmos ídolos, os mesmos gibis,
os mesmos papéis de carta.
Nossa condição social era um tanto diferente, mas nossa
formação moral e familiar continha os mesmos padrões rígidos de comportamento. Na
pré-adolescência, começamos a nos distanciar, o que era natural, devido à
mudança dela para outra cidade. Ainda não havia internet, mas poderíamos ter
trocado desenhos, cartões, bilhetes.
Eis que, no dia do reencontro, na agência, eu a vi, depois
de pelo menos seis anos. Talvez até mais. Quando meu coração se alegrava para
receber um temperado abraço, tive que me contentar com um aceno insosso e
solitário, com uma distância de dez metros. Para coroar o acontecimento, aquele
ar-condicionado gelado.
E o papo que eu esperava colocar em dia? Não aconteceu. Meu
castelinho de cartas foi desmoronando lentamente. Damas, copas, paus, espadas,
ases, valetes, reis, rainhas, angústias, trufas, pterodátilos, bolos de chocolate, ventanias,
velocípedes, ideias. Outro castelinho, o de marfim, foi acertado por mísseis
de expectativa, bombardeado com bolas de sorvete, triturado por serpentes,
coberto com caramelo e amendoim. Ainda outro castelinho, o de areia, sofreu uma
erosão repentina. O centro da Terra o engoliu.
Respirei fundo. A amizade é um tesouro tão precioso que
me pergunto também se éramos realmente merecedoras dessa honrosa tarefa ou
função fraternal. Imagino que, quando encontro os amigos velhos ou os velhos
amigos de verdade, a efusão é imediata. Podemos não ter nos visto há um mês ou
vinte anos, isso nem importa.
Amigo verdadeiro se abraça, ri, chora, canta, pula,
brinca. Amigo verdadeiro não se contenta com um aperto de mão tímido ou sorrisos
padronizados. Com os amigos, faço um show de perguntas. Sim, pois eles também
fazem comigo. Nós nos damos esse direito carinhoso de traduzir uma saudade
recíproca. É a certeza de que estamos plantando flores. Cabe, no entanto, a
cada um, o trabalho de adubo e a alegria da polinização.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Extra
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Nossa turma do Chaves
Escola Nossa Senhora do Carmo. Na sexta série, aos
onze anos de idade, eu comecei a me soltar, a me envolver mais com música,
dança e teatro. Foi na escola que a timidez começou a ser vencida, com o
auxílio da nova morada, no Alto Belo Horizonte. No bairro, o convívio com uma
nova turma.
A cidade acabara de ganhar o sinal do SBT, com
algumas vinhetas ainda com a marca TVS. Um dos programas era a minha verdadeira
febre: Chaves. A criação do mexicano Roberto Bolaños foi decisiva para a minha
sociabilidade. Eu me divertia quando assistia aos episódios de toda a turma
criada por Bolaños e os personagens vividos por ele, além de Chaves, como
Chapolin Colorado e Doutor Chapatin. Munida desses elementos e com a cobertura
da escola, comecei a escrever uma peça numa caderneta.
O ano era 1988. Veio o Dia das Mães, uma data
comemorativa que ganhava ainda mais importância na escola. Nessa época, Dona
Hortência, mãe de Tia Carmelita, era sempre mencionada, com uma honra sutil e
religiosa.
Construí um texto, inspirada na turma do Chaves,
adaptando um pouco os diálogos para a nossa realidade cajazeirense, paraibana,
nordestina, brasileira, latino-americana. Eu achava que ia ser somente uma
apresentação teatral, nada mais. Não foi.
Começamos os ensaios. Tive que aprender a ser
paciente com meus colegas: os que faltavam, os que eram muito mais tímidos, os
que bagunçavam, os que tinham dificuldade em decorar o texto ou a marcação. Fui
diretora da peça, pois ninguém queria assumir a tarefa.
O figurino era coletivo. Cada um organizava o seu e
ainda auxiliava na indumentária dos outros. Todos sabiam que era uma atividade
que não valia nota, ponto ou qualquer outra bonificação nas aulas. O que valia
era nosso amor pela escola e nossa vontade de homenagear nossas mães.
Chegou, então, nossa vez de apresentar no pátio. No
roteiro das apresentações, o comando do microfone era sempre de Valéria Guedes,
que se sentia à vontade com o público, já que apresentava o programa Casa de
Brinquedos, na Difusora. Eu mesma era ouvinte assídua e me escalei para
participar numa das tardes.
Não pensei num título para a peça. Fomos anunciados
assim: “Agora, com vocês, a peça do Chaves!” Pensei em tantos detalhes, menos
no título. Éramos ainda muito crianças, cheios de fantasia. Eu, Tito,
Glayzianne, Regilânia, Érika, Andreicksa, Henry, Gerlúcio, Tárik, Fabiano e
Enilson. Révia e Sônia auxiliaram nos bastidores.
O sucesso foi tão grande que fomos convidados para
apresentar no Colégio Diocesano. Era uma gincana entre as turmas. Marcya Rejane
Trajano era a articuladora, como integrante da produção do evento. Nosso
camarim era o sótão do auditório. Três anos depois, eu era aluna daquele
colégio, mas terminantemente proibida de entrar no sótão para relembrar o acontecido.
Mais tarde, comecei a analisar a criação de Bolaños como
algo bastante presente em toda a cultura latina. A vila, onde se passam os
episódios, é o palco das diferenças sociais. Seu Madruga, o desempregado,
malandro, caloteiro. Chiquinha, carente de um olhar materno, propensa ao
atrapalho e à mentira. Dona Clotilde, a Bruxa do 71, desfrutando da terceira
idade e sempre à espera de um grande amor. Quico, o garoto esnobe, mimado, que
humilha os mais pobres. Chaves, o órfão, abandonado, marginalizado na escola e
em qualquer outro lugar. Seu Barriga, proprietário das casas da vila, mas
sofredor do preconceito por ser obeso. Professor Girafales e Dona Florinda, o
casal que poderia dar certo.
Fico pensando se tudo isso de Bolanõs é mesmo um
besteirol com dublagem tosca ou o nosso retrato de colonizados e historicamente
ainda buscando a identidade plena. Nossa latinidade é também nossa lembrança de
uma coleção de conflitos, um calhamaço de sorrisos, um punhado de gritos, um belo
caminhão de povos. Essa é a riqueza. A vila pode ser, na realidade, em qualquer
lugar do mundo.
E que alegria fazer teatro na escola! Por que não guardei minhas cadernetas? De vez em quando, eu me pergunto por que não conservei os rabiscos da peça e outros tantos rabiscos dessa fase. Seria o meu tesouro. Pode ser até que eu tenha rasgado de propósito. Ainda estou analisando. Ainda estou tentando descobrir, como diria Chaves, se foi sem querer, querendo.
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