quinta-feira, 12 de março de 2015

Baião







De dois, da gente 
Trabalho e força
Banquete certo. 





                                                      






domingo, 8 de março de 2015

A sensacional giganteza





Um dia na Bica, dois cágados livres. A velocidade deles, somente deles, naquele domingo com menos crianças do que o previsível, debaixo de um céu nublado. Corremos todos, mas éramos poucos, para ver outros dois cágados. Como se desvendassem alguma coisa, na terra, perto da castanheira. Assustaram-se. Com o quê? Assustaram-se. Comunicaram-se por olhares, um tônico, outro tácito. Na frente, um soluçando. O outro? Espirrando, cremos. 



Não sei se vou contar sobre o som daquele dia, na Bica, nublado, cágados livres e assustados. Um enfezado, outro sonso. Um rabugento, outro treteiro. De longe, um parecia pedra. Outro, besouro. De perto, um parecia toca. Outro, folhagem. Assustaram-se.  Ficamos todos assustados, éramos poucos, tão assustados com o desenrolar daquela observação. Uma lagarta, logo ali, alguém disse. Foi o suficiente. 



Os cágados assustados, muito mais assustados, não decidiam. Um agressivo, outro meticuloso. Um logo ali, espiando. Fingimos não acreditar que passamos quase duas horas em conferência sobre o comportamento dos quatro, um aparentemente robusto, outro aparentemente franzino. Outro até simpático. Outro até nem tão hipocondríaco. Saber o que se passa por entre a casca e o corpo? Um talvez incisivo, outro talvez paciente. Sim, pois é, um biônico, a ponto de se heroificar. Outro, mais perto, ainda mais rápido, tão rápido e chegando a um quase apelo. Estou falando de olhares. 



Esqueçamos, por enquanto, os caminhares. Ali, vários temas para a nossa conferência dominical, algo similar ao não ter realmente o que fazer de mais estressante ou mais sério. Não é de fogo a lagarta, alguém gritou. Cada um que queria ser mais biólogo do que outro. E sempre algum arriscava de conhecer o ecossistema tal e plum. E sempre outro dizia que leu numa revista especializada em xis e tchum. Ou viu em algum canal de TV, algo assim e coisa e rapadura com côco. Ou alguém tinha visto algo inédito, surpreendente, magnífico ou apocalipticamente supra e total da sensacional giganteza da informação, para falar no mundo maravilhoso do bicho zê ou quê num cativeiro de não sei de quem. 



Após tantas atrocidades com a nossa própria capacidade de pensar, um dos cágados se escondeu. Não saía mais, para nada. Na própria casca, planejava. Não esperamos para entender se o plano deu certo.  





João Pessoa-PB, 2002 














quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Hera


















Era a hera 
o segredo
era ela
o novelo.

Era o silêncio
o cochicho
o bodejo.

Em plena hera
tudo existia.



terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os mesmos papéis de carta



Ouvi dizer em algum lugar que não devemos esperar demais dos outros. Por não seguir à risca esse argumento, eu acabo, às vezes, sofrendo com reações de algumas pessoas ou me surpreendendo com lugares.

Certa vez, encontrei uma colega de infância numa agência bancária. Estudamos pelo menos durante oito anos na mesma escola, na mesma sala. Curtíamos as mesmas músicas, os mesmos livros, os mesmos ídolos, os mesmos gibis, os mesmos papéis de carta.

Nossa condição social era um tanto diferente, mas nossa formação moral e familiar continha os mesmos padrões rígidos de comportamento. Na pré-adolescência, começamos a nos distanciar, o que era natural, devido à mudança dela para outra cidade. Ainda não havia internet, mas poderíamos ter trocado desenhos, cartões, bilhetes.

Eis que, no dia do reencontro, na agência, eu a vi, depois de pelo menos seis anos. Talvez até mais. Quando meu coração se alegrava para receber um temperado abraço, tive que me contentar com um aceno insosso e solitário, com uma distância de dez metros. Para coroar o acontecimento, aquele ar-condicionado gelado.

E o papo que eu esperava colocar em dia? Não aconteceu. Meu castelinho de cartas foi desmoronando lentamente. Damas, copas, paus, espadas, ases, valetes, reis, rainhas, angústias, trufas, pterodátilos, bolos de chocolate, ventanias, velocípedes, ideias. Outro castelinho, o de marfim, foi acertado por mísseis de expectativa, bombardeado com bolas de sorvete, triturado por serpentes, coberto com caramelo e amendoim. Ainda outro castelinho, o de areia, sofreu uma erosão repentina. O centro da Terra o engoliu.

Respirei fundo. A amizade é um tesouro tão precioso que me pergunto também se éramos realmente merecedoras dessa honrosa tarefa ou função fraternal. Imagino que, quando encontro os amigos velhos ou os velhos amigos de verdade, a efusão é imediata. Podemos não ter nos visto há um mês ou vinte anos, isso nem importa.

Amigo verdadeiro se abraça, ri, chora, canta, pula, brinca. Amigo verdadeiro não se contenta com um aperto de mão tímido ou sorrisos padronizados. Com os amigos, faço um show de perguntas. Sim, pois eles também fazem comigo. Nós nos damos esse direito carinhoso de traduzir uma saudade recíproca. É a certeza de que estamos plantando flores. Cabe, no entanto, a cada um, o trabalho de adubo e a alegria da polinização.  










sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Extra



Uma placa dizia:
acredita-se em ET
tomei um susto
êta
eita
edição extra
extra-tudo
extra-Terra
extra-terra
flutuando, era 
um pensamento fujão
androide
com um traço 
estreito
assim como esse
poemeto. 






Desenho no PowerPoint

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nossa turma do Chaves











Escola Nossa Senhora do Carmo. Na sexta série, aos onze anos de idade, eu comecei a me soltar, a me envolver mais com música, dança e teatro. Foi na escola que a timidez começou a ser vencida, com o auxílio da nova morada, no Alto Belo Horizonte. No bairro, o convívio com uma nova turma.

A cidade acabara de ganhar o sinal do SBT, com algumas vinhetas ainda com a marca TVS. Um dos programas era a minha verdadeira febre: Chaves. A criação do mexicano Roberto Bolaños foi decisiva para a minha sociabilidade. Eu me divertia quando assistia aos episódios de toda a turma criada por Bolaños e os personagens vividos por ele, além de Chaves, como Chapolin Colorado e Doutor Chapatin. Munida desses elementos e com a cobertura da escola, comecei a escrever uma peça numa caderneta.

O ano era 1988. Veio o Dia das Mães, uma data comemorativa que ganhava ainda mais importância na escola. Nessa época, Dona Hortência, mãe de Tia Carmelita, era sempre mencionada, com uma honra sutil e religiosa.

Construí um texto, inspirada na turma do Chaves, adaptando um pouco os diálogos para a nossa realidade cajazeirense, paraibana, nordestina, brasileira, latino-americana. Eu achava que ia ser somente uma apresentação teatral, nada mais. Não foi.

Começamos os ensaios. Tive que aprender a ser paciente com meus colegas: os que faltavam, os que eram muito mais tímidos, os que bagunçavam, os que tinham dificuldade em decorar o texto ou a marcação. Fui diretora da peça, pois ninguém queria assumir a tarefa.

O figurino era coletivo. Cada um organizava o seu e ainda auxiliava na indumentária dos outros. Todos sabiam que era uma atividade que não valia nota, ponto ou qualquer outra bonificação nas aulas. O que valia era nosso amor pela escola e nossa vontade de homenagear nossas mães.

Chegou, então, nossa vez de apresentar no pátio. No roteiro das apresentações, o comando do microfone era sempre de Valéria Guedes, que se sentia à vontade com o público, já que apresentava o programa Casa de Brinquedos, na Difusora. Eu mesma era ouvinte assídua e me escalei para participar numa das tardes.

Não pensei num título para a peça. Fomos anunciados assim: “Agora, com vocês, a peça do Chaves!” Pensei em tantos detalhes, menos no título. Éramos ainda muito crianças, cheios de fantasia. Eu, Tito, Glayzianne, Regilânia, Érika, Andreicksa, Henry, Gerlúcio, Tárik, Fabiano e Enilson. Révia e Sônia auxiliaram nos bastidores.

O sucesso foi tão grande que fomos convidados para apresentar no Colégio Diocesano. Era uma gincana entre as turmas. Marcya Rejane Trajano era a articuladora, como integrante da produção do evento. Nosso camarim era o sótão do auditório. Três anos depois, eu era aluna daquele colégio, mas terminantemente proibida de entrar no sótão para relembrar o acontecido.

Mais tarde, comecei a analisar a criação de Bolaños como algo bastante presente em toda a cultura latina. A vila, onde se passam os episódios, é o palco das diferenças sociais. Seu Madruga, o desempregado, malandro, caloteiro. Chiquinha, carente de um olhar materno, propensa ao atrapalho e à mentira. Dona Clotilde, a Bruxa do 71, desfrutando da terceira idade e sempre à espera de um grande amor. Quico, o garoto esnobe, mimado, que humilha os mais pobres. Chaves, o órfão, abandonado, marginalizado na escola e em qualquer outro lugar. Seu Barriga, proprietário das casas da vila, mas sofredor do preconceito por ser obeso. Professor Girafales e Dona Florinda, o casal que poderia dar certo.

Fico pensando se tudo isso de Bolanõs é mesmo um besteirol com dublagem tosca ou o nosso retrato de colonizados e historicamente ainda buscando a identidade plena. Nossa latinidade é também nossa lembrança de uma coleção de conflitos, um calhamaço de sorrisos, um punhado de gritos, um belo caminhão de povos. Essa é a riqueza. A vila pode ser, na realidade, em qualquer lugar do mundo.

E que alegria fazer teatro na escola! Por que não guardei minhas cadernetas? De vez em quando, eu me pergunto por que não conservei os rabiscos da peça e outros tantos rabiscos dessa fase. Seria o meu tesouro. Pode ser até que eu tenha rasgado de propósito. Ainda estou analisando. Ainda estou tentando descobrir, como diria Chaves, se foi sem querer, querendo. 






Parada das Miudezas

    A hipnose era certa. A Parada das Miudezas, no meu regimento, seria sempre uma visita obrigatória. Para uma criança de cinco anos de ida...