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Acrílica sobre tela 20 x 50 cm 2022 Tela da amiga Rejane Maurício de Oliveira :) |
terça-feira, 5 de abril de 2022
domingo, 20 de março de 2022
Meu pé-de-serra
Quem nunca foi
a um forró na zona rural não sabe o que já perdeu. Ainda há tempo para saborear
aquele vento da roça, aquele vento cheiroso, com um pedaço de esperança, mirando
um céu estrelado que jamais vai se parecer com o mundo urbano. Jamais. Forró com
esse selo também é feito de urbanoides, assim como eu. Estou na lista dos que
realmente gostam da roça, têm um pezinho na terra molhada ou na terra pedindo
chuva para o plantio.
As pessoas que
se dirigem ao forró no sítio, podem ter certeza, são bem recebidas. Não falta
animação. Não falta par para a dança. O calor é logo descartado, tamanha a
ventilação natural do lugar. Claro que existem os participantes não muito
intencionados com bons pensamentos e atitudes. Uma dose ou outra de álcool e a
confusão se agiganta. Os anfitriões são preparados, chamam seguranças
particulares e pedem a presença da polícia. Muitas vezes, nem é preciso tanto
alarde. Quem estiver perto logo aparta a briga, expulsa o confuseiro ou bate um
papo rápido para explicar que ali não cabe aquele tipo de insinuação.
O forró no
sítio, todos sabemos, é a origem do chamado forró-pé-de-serra, um gênero do
forró que enlaça multidões em inúmeras casas de shows e faz a fama de tantos artistas.
Por mais consagrado que seja o grupo, no entanto, é naquela roça que o artista
se acha, é naquela palhoça que ele se identifica com o próprio gênero. Cansei
de ver bandas nascidas e criadas no seio urbano com essa propaganda de
pé-de-serra, mas que, no frigir dos ovos, nunca pisaram num lajedo. Tudo bem.
Vale a homenagem que o pessoal quer fazer aos pioneiros. Alguns arriscam dizer
que o avô ou bisavô ou tetravô nasceu no sítio tal e qual.
No forrobodó
da zona rural, o autêntico, a banda respira o que há de mais original. Basta um
acorde da sanfona, uma batida da zabumba e o tilintar do triângulo para
diagnosticar como será a festa. Se o sanfoneiro for bom cantor também, está
garantido o ingresso. Nem sempre isso acontece. E isso não significa que o
evento seja ruim. O povo se engalfinha e nem escuta a letra.
Contamos com a
sorte, nós, brasileiros, de admirar um excelente tocador, Luiz Gonzaga. Sanfoneiro,
na mais fina essência, de olhos fechados. Também excelente cantor. Com uma voz
especial, encorpada, por vezes aveludada, fazia o que bem queria para emocionar
e alegrar quem estivesse no salão. Como artista não morre, nunca, o salão
sempre estará aberto. O Rei do Baião trafega com tranquilidade por outros
gêneros associados ao forró. Sua obra é prova disso. Gonzagão é o símbolo do
pé-de-serra, que ganha balanço de sobra com xaxado, maracatu, xote, coco,
marcha, maxixe, tango. E os aboios, orações musicadas. Um universo de
personagens. Para quem quiser rezar, de forma mais concentrada, é só fechar os
olhos e ouvir a lindíssima Ave Maria Sertaneja.
Falo do nosso
querido Gonzaga, mas são muitos e muitos os representantes desse pé-de-serra
abençoado. Cada um aciona um causo, uma história, algo que tenha me marcado nas
minhas andanças. É comum lembrar os anúncios dos forrós nos sítios, nas rádios
AM. Sem essa propaganda, a ciranda não está tão completa. É preciso avisar,
chamar o povo, causar rebuliço. Bora, minha gente. E começa logo que escurece.
Às dezoito horas, pode chegar.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
Angola
Comecei a
gostar de Chico Buarque de Hollanda sendo obrigada a estudar paroxítonas. Que
obrigação dócil. Foi com a canção Mulheres de Atenas. Não bastava
somente encontrar as palavras com as penúltimas sílabas tônicas. Tínhamos que
descobrir quem eram essas gregas, que não tinham gosto ou vontade. Como eram
essas Helenas, que não tinham sonhos, só presságios. Tecíamos, com elas, aqueles
longos bordados, esperando nossos heróis.
Muitas canções
de Chico me acompanham em tarefas de sala de aula. A obra dele tem quilômetros
de assunto para problemas e soluções morfológicas, sintáticas ou semânticas. Em
Morena de Angola, se tiver sambista no recinto, é hora de praticar. Tem
menina e menino que é artista, há muito tempo. Canta, toca pandeiro, toca
agogô, atabaque, tamborim, repique, tantan, timbal, reco-reco, violão,
bandolim, cavaquinho, chocalho.
Chocalho. Um
ótimo personagem. A canção, misto de samba e outros ritmos do batuque, vai brincando
com a gente. Expõe a imitação do barulho do chocalho, que se destaca em quase
todas as frases. Tudo por causa da sonoridade de um encontro de duas
consoantes: c, h. É o mesmo som da letra xis, com o verbo mexer. E o autor diz:
o chocalho é que mexe com ela. Esse sanduíche orgânico de figuras de linguagens
merece outra crônica.
Em termos
pedagógicos, o chiado está garantido no espetáculo. Temos equipes montadas para
todas as seções. O andamento das atividades deve ser animado, envolvente, sem
chatice. Cada participante deve ficar no setor que mais sinta afinidade, com as
equipes que tenham mais a ver com a sua sociabilidade. Aprende-se de maneira
mais confortável e segura. Estou falando pelos meus. Oriento e me divirto
também; aprendo e aprendo.
Se a morena é
da Angola, vamos à História, saber de que maneira o povo angolano foi
colonizado. Povo, inclusive, participante da Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa (CPLP), portanto nosso irmão de idioma, com ricas particularidades geradas
por dezenas de etnias. Povo que está nas entranhas do nosso país, pois é multiplicado
ou miscigenado ao longo dos últimos trezentos anos, nos quatro cantos do mapa.
Vamos também à
Geografia, compreender que tipo de nação é a República de Angola. Podemos
investigar como ocorre a interação com outros países da África e quais são as
heranças políticas desse jovem lugar banhado pelo belo Atlântico. Vamos à
Sociologia, investigar de que forma as classes sociais são distribuídas. Cabe-nos
buscar a Filosofia, com seus questionamentos tão atuais. Há diversas
possibilidades. Vamos falar sobre a arte angolana: pintura, literatura, dança, poesia,
música. Vamos falar sobre a importância do esporte para aquele povo. Algumas
ideias brotam para uma gincana.
Teremos guias
em inglês e espanhol. Ideias brotam para outras disciplinas, como na
Matemática, com seu trampolim a nos lançar ao mundo dos desafios lógicos, e
podemos textualizá-los por meio de fábulas inspiradas na cultura angolana.
Nossa parceira Estatística está pronta para auxiliar com dados, gráficos e
porcentagens. Deliciosas operações.
Trabalho da artista angolana Joana Taya |
domingo, 30 de janeiro de 2022
segunda-feira, 30 de agosto de 2021
Ratos de jornal
Ser rata de jornal foi uma honra.
Aprendi muito com o factual, com a batida do cotidiano, a escrever o que eu via
e ouvia na realidade. Comecei a compreender até onde o ser humano é capaz, tanto
em prodígios quanto atrocidades. Os ratos, uma das gírias do mundo
jornalístico, são os que saem com a vassoura, no lixo, no fechar das portas, com
a coluna precisando de afago e os pés arrastando o dever cumprido. São os que
produzem as matérias de última hora, as mais quentes, para fechar mesmo o
barraco.
Meu trabalho atual com revisão e
assessoria e aula, além do estudo, não deixa espaço para essas ratices. Mas, sinto
saudades boas desse aprendizado, que levo para a vida toda e quero compartilhar
nesta crônica. Alguns sobreviventes ainda estão por lá, em alguma fenda do
navio, incomodando muita gente. Um tipo de gente que não suporta ver suas
imperfeições reveladas.
Os episódios da rua, antes de se
transformarem em textos, são contados com detalhes numa redação. Quase obrigatório.
Chegou, contou. A turma escuta, com atenção. Silêncio total. Aí, comenta.
Prevê. Julga. Prende. Demite. Solta. Elege. Expulsa. Chora. Comemora. Só ali,
nos bastidores. Nem que seja num punhado de cinco ouvintes.
Redação é um espaço pequeno para
tantas informações que saltam ao mesmo tempo. A convivência é quase diária. As lacunas
são os dias de folga alternados. Não existe normalidade para sábado, domingo,
feriado e família. Existe administração de horários. As faces se cansam, às
vezes. O estresse é constante: cada cabeça com seu grau. Remédio para combater:
piada. Música. Comida. Salgadinhos. Bala. Chiclete. Café. Barris e barris de
café. Chá. Contêineres de paciência. Risadas sem fim.
Todos ganham apelidos. Um aperreia
o outro com carinho, senão estraga. Os temas são os de sempre: a cor da pele, o
peso, o bairro onde mora, o time do coração, a religião, a cidade onde nasceu. Gracejo
com o que for possível. Com o corte ou a pintura do cabelo, com a roupa, com o
bloco de anotações, com a caneta, com os óculos, com as unhas.
Se é casado, se é solteiro, se é
divorciado, se levou um fora, se anda a pé ou de ônibus, se come PF ou pede
marmita, se vai ao self-service ou ao pastel com caldo de cana. Se compra
fiado. Se anda de táxi. Se foi ao show. Se frequenta os Alcoólicos Anônimos. Se
foi cantado pelo entrevistado, se foi agredido pelo entrevistado, se o entrevistado-candidato
pediu voto. Uma máquina de perguntas.
Gente, que escola boa. Os tímidos
sofrem. Os bem chatos não duram. Os sonsos fingem que não entendem. O propósito
do editor, o time único: cada integrante com sua tarefa; e, como soldado em
missão, só sossegar quando cumprir todos os itens, à risca. Como o roedor
escondido nas bordas das caixas empilhadas, saindo somente expulso, com o
cansaço escrito na testa, dizendo graças a Deus por mais um dia, dando tchau ao
pessoal da limpeza. Até amanhã. Até.
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Freepik |
quinta-feira, 8 de julho de 2021
Hora de pintar
Uma das melhores ordens que eu cumpria na minha infância e
assim perpetua, eu comigo mesma, é a que a professora dizia: hora de pintar. As
portas do paraíso se abriam: meu estojo com lápis de cores. O caderno de
desenho me olhando, pedindo para ser preenchido com alguma coisa, algum
tracinho de mim.
Outra ordem se fazia chegar aos meus ouvidos como uma hipnose.
Era o tema do dia. E algo mágico porque era sempre surpresa. Que bom. Não
precisávamos saber mesmo, naquela alturinha da vida, o que era planejamento de aula,
temas perpendiculares, temas tangenciais, questões multidisciplinares, atividades
paralelas, bibliografias. Nossa preocupação urgente, e muito urgente, era
soltar a imaginação. Naquele momento, estávamos fazendo uma atividade.
Com o tema lançado no ar, começávamos. Fazíamos gato e sapato,
mas tudo em discrição, sem bagunça. Tudo no papel. Trocávamos ideias, eu e outros
artistas mirins da pequena galeria, na primeira sala à direita. Lembro de
sempre cuidar do material de trabalho. Importante. Apesar da caracterização
lúdica, infantil e divertida, era um tipo de labor porque eu queria que o
produto saísse belo, redondo, caprichado. Isso não parecia qualidade. Muitas
vezes, era uma pincelada de sofrimento.
Desde esse tempo, compreendo que cada cor apresenta uma
linguagem. Pinto, colo, repinto, costuro, reinvento. Escrevo. Reescrevo. Estudo.
Reestudo. Leio. Releio. As pinturas são um misto de inspiração e experimentação.
Toda tela conta com um quê de motivo, uma fagulha de começo, uma certeza de aprendizagem.
Estou feliz porque minha amiga Wandneia Magdalon adquiriu a tela Amor de
Maria. Emocionante como as pessoas descrevem o que sentem quando olham a
imagem. Cada um sente de um modelo, de um tom, de um movimento. Isso é divino.
Mais feliz ainda porque tenho outras encomendas. Cada dono com sua fina
explicação para a futura aquisição.
A amiga baiana Silvana Mota quer o símbolo da ioga para
colocar na porta da clínica de terapias ayurvédicas; Professor Celso, meu
vizinho, quer um gato alaranjado para dar de presente à filha; Seu Juarez
Neves, meu amigo alfaiate, peça rara na cidade, quer uma paisagem para
relembrar a infância na roça; o leitor cajazeirense João Damasco Braga quer uma
raposa, para lembrar seu time do coração na Rainha da Borborema. Todos os
pedidos com aplicadas justificativas; cada intenção com seu tamanho, objetivo,
método. Todos terão um pedaço da minha essência em suas casas. Quanta honra.
Hora de pintar. Sim. Agora.
Parada das Miudezas
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